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O violeiro, uma lenda

11/07/2014

Sexta-feira. Noite de lua cheia. Algo de muito sinistro está se passando debaixo daquela velha figueira. O garoto Balbino exibe, orgulhoso, a viola mágica que acabou de receber das mãos de um misterioso homenzinho de faces rosadas. Expulso de casa, o jovem decide sair pelo mundo, não sem antes roubar a luz dos olhos de Marcolino, seu irmão gêmeo. Anos mais tarde, a disputa entre os dois violeiros irá movimentar um reino misterioso escondido no meio do sertão brasileiro.

Assim começa A Lenda do Violeiro Invejoso, livro publicado por nosso selo Escarlate, para jovens leitores. Já bastante conhecido por pais e professores, esse romance juvenil trabalha elementos da cultura popular brasileira – algo marcante no trabalho do premiado autor Fábio sombra, um apaixonado por desafios de viola e literatura de cordel.

[Clique aqui para ouvir a narração do primeiro capítulo feita pelo próprio autor]

Para conhecer melhor o autor, o blog da Escarlate bateu um papo com ele. Para quem gosta de livros, como nós, não há nada como, depois de ler a obra, ter a chance de conversar com o autor. E é por isso que agradecemos o carinho do Fábio e esperamos que vocês curtam a entrevista tanto quanto nós. Sobre literatura, cordel, Brasil, costumes, música, viola, sala de aula e projetos de leitura em comunidades afastadas, fica aqui um bocado de inspiração para vocês!

Blog da Escarlate: Folclore e cultura popular são seus temas principais. Quantos livros você já tem e de onde veio esse interesse temático, tão rico?

Fábio Sombra: O meu interesse pela cultura popular é uma paixão antiga. Quando comecei a viajar pelo interior do Brasil, fui percebendo que existe um universo fascinante de música, artes, festas e costumes muito pouco conhecidos pelas pessoas que vivem nos grandes centros. Foi daí que veio a motivação para trazer um pouco de tudo isto as histórias e aos livros que escrevo. Até o momento já tive 38 livros publicados e uma grande parte deles trata de temas populares, como: folias de reis, cordel, viola, causos e mitos.

Calangos, desafios e viola, portanto, também são a matéria-prima do teu trabalho. Em uma entrevista que você deu, eu li que você imagina que esses assuntos fariam sucesso apenas entre as crianças do campo, do interior. Mas você ficou surpreendido em como as crianças, na vida urbana, se interessaram por essas histórias. A literatura é responsável por abrir nossos mundos, não?

Com certeza! A cultura não é uma via de mão única. Em 2010,  estive em Portugal e apresentei aos alunos de uma cidade próxima ao Porto uma história minha cantada em versos de calango e acompanhada por viola, tradições bem brasileiras. Meses mais tarde eu já estava em uma escola em São Paulo, falando sobre um livro que escrevi baseado num tema que trouxe daquela viagem a Portugal: a história da Dama Inês de Castro. Adaptei em forma de cordel também contos populares russos, tchecos, austríacos, enfim veja só: um conto russo contado em uma linguagem tão brasileira. E o melhor é que funciona perfeitamente!

O que da sua infância está presente nas histórias que escreve?

Algumas dessas memórias são da minha infância de garoto urbano, nascido numa cidade grande como o Rio de Janeiro. Porém, as mais marcantes são as que trago do Brasil rural, das férias passadas na fazenda da minha tia-avó no interior de Minas. No interior é que aprendi que existem outras formas de se viver e de se divertir. Lá descobri os contadores de causos, os violeiros, os boiadeiros e um estilo de vida que me deixou verdadeiramente encantado.

Existe algum lugar, momento ou situação em que você carrega as baterias e volta cheio de ideias tomadas pela cultura popular?

Sim. Um desses lugares é o meu sítio no interior de Minas Gerais. Lá tenho a minha varanda, meu fogão de lenha, meu cavalo, o Coronel e o meu grupo de folia de reis, a Caravana do Oriente. Uma outra forma de recarregar as baterias é quando faço uma de minhas viagens de pesquisa para novos livros. Costumo viajar a lugares remotos em busca de informação e ambientação para as histórias. Já estive em lugares remotos como o vale do Rio Urucuia, a Amazônia, o Pantanal sul-matogrossense, o sertão nordestino…

Como parte do seu trabalho, sabemos então que a pesquisa é muito importante. Como são essas viagens? Que resgate e sabedoria essas viagens te emprestam?

Parto do pressuposto de que é preciso conhecer bem o tema para escrever sobre ele. Em minhas viagens procuro prestar atenção ao ambiente, ás pessoas, aos detalhes e até mesmo às expressões e ao modo de falar. No caso do folclore e dos mitos, muitos autores usam como referência os textos clássicos de autores consagrados (sempre os mesmos) como Câmara Cascudo, Silvio Romero e aí tudo fica muito repetitivo e parecido. quando fui escrever sobre os mitos amazônicos, fui a floresta, conversei com índios, seringueiros e pescadores. E encontrei dezenas de relatos sobre os mitos locais jamais encontrados em qualquer outra fonte…

Antes de começar a escrever você se dedicou muito à pintura. Como foi passar para o texto e, por favor, conte um pouco sobre seu processo de criação nessas duas artes.

Vivi exclusivamente de pintura por mais de dez anos da minha vida. Fiz exposições, tenho pinturas minhas em coleções de museus na Europa e no Brasil, mas, em 2002 fui convidado para ilustrar um livro do poeta Patativa do Assaré. Este trabalho me marcou bastante e passei a pensar mais seriamente em me dedicar ao texto escrito. Comecei a escrever meu primeiro livro “A lenda do violeiro invejoso” e, três anos depois eu o vi publicado. Foi o início da minha carreira na literatura para jovens. Sobre os processos de criação, eles são bem diferentes. A ilustração somente surge depois do livro pronto. Ela se adapta à história e não o contrário. Hoje tenho escrito mais mais e ilustrado menos, porque a ilustração me toma muito tempo e requer condições e materiais apropriados. Já escrever, eu consigo em qualquer lugar: em voos, aeroportos, na cama, na rede…

Das técnicas de ilustração, como você explica pra quem ainda não o conhece o que faz?

Gosto muito de ilustrar em forma de pintura, usando tinta acrílica sobre tela. É uma técnica demorada , mas adoro o resultado, as texturas. Ultimamente tenho feito ilustrações digitais, usando uma mesa digitalizadora e o computador. Desenvolvi uma técnica que se assemelha muito a xilogravura, só que sem cortar árvores e fazendo bem menos sujeira no estúdio…

Puxando pro cordel, essa cultura está presente sempre no seu trabalho?

Sou um apaixonado pela literatura de cordel desde os dez anos de idade, quando me chegaram às mãos os primeiros folhetos. Adoro histórias contadas em versos, adoro compor poesia narrativa e adoro rimas. Não espanta, portanto saber que mais da metade de todos os livros que escrevi até hoje sejam em forma de cordel.

Você poderia explicar brevemente o que é a cultura do cordel, já que muitos pais e professores adoram esse tema?

Os folhetos de cordel são livrinhos populares, antigamente só encontrados em feiras, principalmente no interior do Nordeste. São impressos em papel barato e falam sobre os temas mais diversos; romances, histórias de fantasia, temas de aventura, biografias, sátiras e ate notícias. A característica principal destes folhetos é que são escritos em estrofes rimadas, geralmente de seis versos. Hoje encontramos Literatura em cordel publicada em livros de formato maior, bem impressos e coloridos, porém, o importante é que sigam  tradição dos antigos mestres em sua forma e construção dos versos.

Quem são seus mestres violeiros, poetas e artistas que o inspiram a criar seus livros?

Tenho muitos ídolos no universo do cordel. Poetas como Leandro Gomes de Barros, Firmino Teixeira do Amaral, cantadores famosos como o cego Aderaldo e o repentista Pinto do Monteiro.

A Lenda do violeiro Invejoso foi seu primeiro livro. Quando ele foi escrito e como surgiu a ideia dele?

Eu resolvi escrevê-lo como um teste, uma porta de entrada para o universo dos livros de fantasia para o público infantil e juvenil. Uma história com magia, aventura e mistério ambientada no nosso país e falando de tradições bem brasileiras. E fico feliz por ter dado certo, este livro vendeu mais de trinta mil exemplares, foi adotado por centenas de escolas, ganhou diversos prêmios como o Rozini de literatura e divulgação da viola, o selo “Altamente recomendável para o jovem” e mais…

Sabemos que é um livro que as escolas adoram. Como podemos apresentá-lo aos professores que ainda não conhecem esse título? De que forma ele pode ser trabalhado no contexto escolar?

Conheço escolas que adotam “a Lenda do Violeiro” há mais de oito anos seguidos. As professoras comentam que poucos livros causaram tamanho entusiasmo em seus alunos. E estou falando de escolas tradicionais como o Colégio Militar-RJ, o Colégio Pedro II-RJ, o Colégio Miguel de Cervantes-SP e inúmeros outros. O livro funciona como uma introdução ao universo da literatura de cordel e dos desafios rimados entre violeiros, mas esta ambientação ocorre em meio à uma história de fantasia repleta de lances de aventura, muito ao gosto dos leitores na faixa etária que vai dos 8 aos 13 anos de idade.

Por favor, conte pra gente como mergulhou nessa carreira, se tem filhos e que inspiração eles trazem pra sua vida de escritor?

Por volta dos dez anos de idade fui apresentado ao Brasil do interior, da roça e isso me marcou profundamente. Depois, passei aos viajando por todo o mundo, trabalhando na área de turismo. Conheci países da África, de toda a América do Sul, da Europa e destas viagens recolhi e trouxe histórias e lendas. Hoje, continuo a viajar para fazer minhas pesquisas. Não tenho filhos, mas um montão de afilhados, primos e jovens leitores com os quais converso e aprendo um montão de coisas que acabam aparecendo depois nos livros que escrevo. Aliás, interagir com quem lê nossos livros é a atividade que mais ajuda um escritor em sua tarefa de aprimorar sua literatura.

Para encerrar o nosso papo, fale um pouquinho sobre o seu projeto de Leitura, o “Tropeiros da Leitura”.

Em 2012 resolvi criar um projeto de leitura muito bacana chamado “Tropeiros da Leitura“. 
Desde então temos levado livros e histórias até jovens leitores que vivem em comunidades locais isoladas e afastadas. Os livros são transportados em lombo de cavalos, mulas ou qualquer transporte disponível e, por isto nós nos intitulamos tropeiros. Já estivemos em Minas, no Pantanal do Mato Grosso do sul e no nosso blog vocês poderão assistir a uns vídeos muito legais sobre estas visitas. Ah, sim, e para conhecer um pouquinho mais sobre as minhas obras e sobre o autor, sejam bem vindos ao meu blog oficial – é só clicar aqui


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