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Todo mundo cabe no mundo

27/03/2019

Por Fabíola Farias

Não sou uma foliã das mais animadas. Aliás, nem posso dizer que sou foliã, pois não costumo participar das festas de carnaval. Mas, vivendo em uma cidade que na última década foi completamente tomada por blocos carnavalescos, este ano fui ao desfile do Todo mundo cabe no mundo, criado há alguns anos pelo escritor Marcelo Xavier.

 

Imagem do livro A princesa e o gigante, de Caryl Hart (texto) e Sarah Warburton (ilustrações)

Não vou descrever a bonita, emocionante e inclusiva festa de que participei por, aproximadamente, três horas, mas sim pegar emprestado o nome e o espírito do bloco para pensar a relação das crianças com os livros e o mundo.

“É do humano – de todos os humanos, não só de alguns – que a literatura trata”

 

Os livros falam, de muitas maneiras, das vidas que vivemos, o que significa que há uma imensidão de histórias a serem contadas. Nessas muitas histórias, há uma infinidade de personagens e, neles, sonhos, angústias, medos, alegrias e desejos que são partilhados a cada escrita e leitura.

Em narrativas mais realistas ou convites inusitados, os livros estão sempre falando de quem somos e dos modos que encontramos para estar no mundo. As palavras e as imagens que juntas contam histórias são, sempre, uma convocação para estar no lugar do outro, experimentar outra vida ou simplesmente para ver as coisas por ângulos estranhos à
primeira vista. Assim, os livros precisam nos caber, como somos e desejamos ser.

Embora ainda haja equívocos ou insistência em concepções disciplinares de leitura para as crianças, nos últimos anos a produção editorial brasileira para este público tem conseguido abarcar considerável diversidade de temas que, até bem pouco tempo atrás, pareciam impossíveis.

Mais que tratar de questões consideradas polêmicas – a morte, a violência, a homoafetividade, dentre outros -, escritores, ilustradores e editores, juntos, criam textos, ilustrações e projetos que contemplam a vida como ela é – ou poderia ser.

 

“É preciso lembrar, sempre, que o que consideramos comum e incomum é uma construção social”

 

Explico: diferente de livros produzidos para falar disso ou daquilo, para “trabalhar com” determinados temas, muitas vezes usando tom moralizante, os bons livros – que não encerram as infâncias em um lugar previamente definido como infantil – tratam da vida, essa de todo mundo, em que há encontros e desencontros, o comum e o incomum.

É preciso lembrar, sempre, que o que consideramos comum e incomum é uma construção social, marcada por nossas condições de existência, e não por natureza. E que a literatura pode contribuir para desconstruir olhares normatizadores, que, conscientemente ou não, estabelecem lugares prévios para as pessoas.

Imagem do livro Colo de avó, de Roseana Murray (texto) e Elisabeth Teixeira (ilustrações)

Não considero legítima a reivindicação de uma literatura para isso, de livros que cumpram determinada missão, pois lidaríamos, com raras exceções, com produções fechadas, datadas e, ao revés, normativas. Importantes e significativos na formação das crianças são livros que tratem das diferenças na ordem do comum, do que toca ou pode tocar a todos nós, não como algo a ser destacado, compreendido e tolerado.

E nisso não há novidade, uma vez que é do humano – de todos os humanos, não só de alguns – que a literatura trata, seja em contos de fadas, novelas, narrativas por imagens, poemas, parlendas. Lendo um conto ou brincando com palavras em um trava-línguas, nos apropriamos da linguagem para saber quem somos e compreender o mundo em que vivemos.

E nesse mundo cabe todo mundo, ou deveria caber.

Em tempo: este texto é dedicado ao Marcelo Xavier, que, muitíssimos anos atrás, me convidou a pensar na hospitalidade da leitura com seu livro Asa de papel.

Fabíola Farias é graduada em Letras, mestre e doutora em Ciência da Informação pela UFMG. É leitora-votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e, atualmente, realiza estágio de pós-doutorado na Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa. 


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