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Como trabalhar textos multissemióticos em 7 livros para infância e juventude

26/08/2020

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça a importância de o letramento escolar extrapolar a alfabetização e o domínio do texto impresso.

Não é de hoje que são necessários outros letramentos para que crianças e adultos consigam compreender a nossa realidade.

Pense, por exemplo, na televisão, no rádio, nas cantigas tradicionais… São linguagens antigas. Pense nas artes visuais nas ruas das grandes cidades, nas placas, nos letreiros em frente das lojas, nos sinais de trânsito…

Um livro é palavra, papel, projeto gráfico, cores, ilustrações, sons, recursos gráficos e imagéticos… Imagem: Poliana, de Elinor H. Potter (texto), Marisa Lajolo (adaptação) e Ana Matsusaki (ilustração)

Tanto no nosso dia a dia quanto no das crianças, estamos em contatos com diversas linguagens o tempo inteiro. E cada uma dessas linguagens tem seu conjunto de signos, símbolos, regras para representar coisas e ideias.

E geralmente não está “sozinha”: há combinações entre diversas linguagens num mesmo “texto”: palavras e imagens; palavras e imagem em movimento; sons e imagem em movimento; sons, imagem e palavras; palavras e ícones (como nas placas)… Os textos do nosso dia a dia são híbridos — e faz tempo.

Livro é mais que palavra

Mesmo o livro, por exemplo, que à primeira vista pode parecer uma única linguagem — a escrita –, pode ser entendido como multimodal.

Há uma mensagem, uma linguagem para além do texto, na escolha da arte da capa, na diagramação, nas escolhas das letras, na “mancha gráfica” (área da página em que há texto propriamente), no tipo de papel, no formato da obra, no projeto gráfico como um todo.

O livro em si é mais que palavras, é um objeto material, tátil, visual — cada dimensão dessa apela a um sentido, tem uma linguagem, uma sensibilidade simbólica.

A linguagem do HQ é sempre bem-vinda na escola! Imagem: Grandes histórias para pequenos curiosos, de Marie-Louise Gay

Quer um exemplo? Nesta conversa, a designer gráfica Ana Matsusaki contou para a gente os desafios para criar uma linguagem visual no projeto gráfico e nas ilustrações que ela fez para o livro Poliana, lançando no ano passado pela Escarlate.

Um trechinho:

Quais são, para você, os maiores desafios de se pensar um projeto gráfico e as ilustrações para um livro clássico, com mais de cem anos?

Criar um projeto que tenha apelo diante dos jovens leitores e ao mesmo tempo respeitar a essência do texto. Tentar quebrar, através do projeto gráfico, a ideia de que um clássico é um livro chato e desinteressante para um jovem leitor.

Repare que, para Ana, o projeto gráfico é parte da mensagem, está dando um recado, precisa ser “lido” pelo jovem leitor. Do contrário, um texto tão antigo pode parecer “chato” e não interessar.

Você pode acessar a conversa toda — vai lá que vale a pena! — neste link:

Como ilustrar um livro clássico? Ana Matsusaki, de “Poliana”, responde

Tecnologia e multimodalidade

Se, ainda na era analógica, já eram muitas as possibilidades de linguagens, imagine agora! Temos a tecnologia, com suas múltiplas redes sociais, múltiplas possibilidades criativas, linguagens novas que estão o tempo todo na vida das crianças.

Podcasts, playlists de músicas digitais organizadas pelas próprias crianças, YouTube (crianças youtubers), áudios de WhatsApp, fotos e histories no Instagram, vídeos irreverentes do TikTok, memes!

Essas novas formas de se comunicar exigem letramentos específicos, porque têm códigos próprios; modificam e são modificadas pela comunicação das pessoas no dia a dia.

Uma pesquisa recente, feita por um pesquisador da ECA-USP, analisou o uso e a influência da linguagem dos memes entre os alunos de uma escola da zona norte de São Paulo. E a conclusão mais evidente é: esse tipo de linguagem está na escola e não apenas nas aulas de informática.

7 livros para levar a leitura e a produção multissemiótica para a escola

Não à toa, a BNCC é clara: textos multimodais têm de ser trabalhados na escola desde Ensino Fundamental, em seus anos iniciais.

E, por “trabalhar”, a gente entende promover o domínio da leitura e da produção dos textos multimodais ou multissemióticos.

Para inspirar seu trabalho e trazer algumas ideias de como e através de qual material oferecer textos híbridos aos alunos, separamos aqui 7 obras infantojuvenis.

Elas podem ser usadas para introduzir os textos multimodais em sala, como sugere o vídeo abaixo e o projeto apresentado nele, em que a professora da turma traz as HQs para a sala.

O foco, no caso desta seleção, é na conversa entre texto, gênero textual híbrido (como HQ e haicai, por exemplo), arte gráfica e ilustração.

Algumas dessas obras também podem ser bons pontos de partida para a produção em outras linguagens em sala. Ou para  trazer outras linguagens para a sala de aula.

1) A queda dos moais

Autoras: Blandina Franco e Patricia Auerbach
Ilustrador: José Carlos Lollo
Temas: Ficção em 29 tipos de texto (crônica, lista, mensagem virtual, gráfico e outros) / humor / curiosidades
Faixa Etária: A partir de 8 anos

Qual seria uma viagem dos sonhos? Os pais de Joaquim acham que é ir para a Ilha de Páscoa, conhecer os famosos moais. Já o garoto… Acha que vai pagar o maior mico! E, para ajudar, quando chegam no destino, as gigantes e misteriosas estátuas estão caídas, de cara no chão. Mas como?

>>A leitura multissemiótica:

O livro é todo composto sem narrador, e a narrativa acontece através de fragmentos: recortes de jornais, fotografias com legenda, gráficos, mapas, guias de viagem, panfletos, HQs e até mensagens de WhatsApp. Ao todo são 29 gêneros diferentes, a maioria deles, híbridos. Isso sem contar as lindas ilustrações de José Carlos Lollo.

>>Produção:

O Material de Apoio ao Professor traz ideias de produção multimodal, como a elaboração de panfletos, gráficos e uma História em Quadrinho com a turma.

Acesse a íntegra do Material de Apoio ao Professor aqui

>>Outras linguagens em sala:

Quando lançaram o livro, o trio de autores conversou com a gente sobre o processo de produção dele. Se quiser, pode apresentar esse material às crianças e pedir que observem o vídeo. Como é feito? Será que os autores falaram exatamente nessa sequência e ordem ou o material foi editado? Qual é o papel do texto no vídeo? Por que há trechos em preto e branco? Há música no vídeo? Por quê? Tinha alguém fazendo perguntas? Se tinha, cadê?

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2) Pequenas histórias para grandes curiosos

Autora: Marie-Louise Gay
Ilustradora: Marie-Louise Gay
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Humor / Cotidiano / Criatividade / Imaginação
Faixa Etária: A partir de 2 anos

O que você vê quando fecha os olhos? Você conhece alguém invisível? Sabe o que tem na toca do coelho? E que os caracóis recebem visitas em suas conchas? Por que os gatos atacam poltronas? Como as mães ouvem através das paredes? Em 19 pequenas histórias, em formato de HQ, Marie-Louise Gay narra essas e outras aventuras divertidas, poéticas, reflexivas, lúdicas.

>>A leitura multissemiótica:

A premiada autora e ilustradora canadense traz 19 contos, todos em histórias em quadrinhos, uma linguagem muito propícia para levar o letramento multimodal para a turma. Há sempre um jogo entre palavras e imagens, o dito e o não-dito, as expressões corporais e faciais das personagens e outros símbolos que vão aparecendo ao longo das ilustrações.

>>Produção:

A ideia aqui, sugerida por Clara de Cápua, autora no Material de Apoio ao Professor, é criar uma HQ com a turma. Organizando as crianças em grupos de cinco alunos, proponha que inventem sua própria história baseados em suas curiosidades, como no livro. Depois, é só juntar as HQs de cada um dos grupos e organizar um livro da turma, o Pequenas Histórias da Turma, por exemplo.

Clara também sugere um exercício de imaginação e, depois, escrita, tendo uma música com inspiração e pano de fundo.

Você pode ter mais inspirações: Material de Apoio ao Professor, acesse aqui

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3) Joana no trem

Autora: Kathrin Schärer
Ilustradora: Kathrin Schärer
Tradutor: José Feres Sabino
Temas: Conto / Animais / Criatividade / Medo
Faixa Etária: A partir de 3 anos

Um trem viaja pelo país. Um trem comprido, com muitos vagões, muitas cabines e rodas trepidantes. Assim começa a história de Joana, uma divertida porquinha que interage com a ilustradora enquanto a artista ainda cria a história. Com este diálogo divertido entre autora e personagem, o leitor vai sentir como se estivesse fazendo parte do processo de criação do livro.

>>A leitura multissemiótica:

Nesta história, há duas narrativas visuais correndo em paralelo, além do texto escrito. Cada uma das narrativas visuais tem seus códigos, e isso é preciso “ler” na história. Por exemplo, quando o livro conta a história da porquinha, as ilustrações são coloridas.

Quando mostra o trabalho da ilustradora que desenha a porquinha, todas as imagens estão em preto e branco. Vai ser muito interessante explorar esse diálogo com as crianças e ajudá-las a identificar o que define cada uma das linguagens ali presentes.

>>Produção:

A partir do livro, é possível pedir que as crianças criem seus desenhos e narrativas e que fotografem o processo. Podem pedir ajuda dos adultos, aproveitando o isolamento social neste momento. Assim como acontece com a obra, seria uma oportunidade de refletir sobre o desenho e sua produção, contando a história deste fazer com a linguagem fotográfica.

No Material de Apoio, a especialista Ana Lúcia Maestrello sugere, ainda, o uso do YouTube como fonte de pesquisa e a elaboração de diagramas como apoio à compreensão de palavras da história que sejam ainda desconhecidas pela turma.

Mais ideias e inspirações? Só baixar o material neste link 😉

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4) Chapeuzinho e o leão faminto

Autor / Ilustrador: Alex T. Smith
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Humor, animais, amizade, astúcia, criatividade, clássico revisitado, protagonismo feminino.
Faixa Etária: A partir de 3 anos (leitura compartilhada) ou a partir de 7 anos (leitura independente)

Certa manhã, tia Rosa acordou com o corpo cheio de pintas! Nesse caso, o que fazer? Ligar para a Chapeuzinho! Ao saber da situação, a menina se despediu do pai e correu para levar para a tia, em sua cesta, tudo o que ela precisava para se curar. Mas, no caminho, encontrou um leão faminto que bolou um plano para devorá-la.

>>Leitura multissemiótica:

Este livro traz diversas linguagens para a narrativa. Para começar, a ilustração nos mostra que essa Chapeuzinho não está numa floresta europeia, mas numa savana africana. Será que as crianças vão notar essa diferença?

É possível mostrar a elas a riqueza das cores e a intencionalidade em seu uso: por que será que são tão vibrantes? Que ideia nos trazem?

Além disso, esse livro é repleto de símbolos de outros universos, como setas, diagramas, balões de pensamento, trazendo a possibilidade de leitura dessas outras linguagens.

>>Produção:

Clara de Cápua, que elaborou  o Material de Apoio ao Professor, sugere uma produção coletiva, em que as palmas — ou seja, o som — sejam a senha para a história passar de um autor a outro, que deve continuar de onde o anterior parou.

Material de Apoio tem mais dicas: baixe aqui!

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5) O crocodilo que não gostava de água

Autora e ilustradora: Gemma Merino
Tradutor: Gilda de Aquino
Temas: Respeito às diferenças / Relacionamento familiar / Autoconhecimento / Identidade / Animais / Humor
Faixa Etária: A partir de 2 anos (leitura compartilhada) ou 6 anos (leitura independente)

A autora catalã Gemma Merino combina texto e ilustrações criativas para contar a história de um pequeno crocodilo que, lutando contra as próprias dificuldades, termina descobrindo quem ele realmente é. Onde já se viu um crocodilo que gosta de subir em árvores e não gosta de água? Pois é, o crocodilo dessa história é assim.

>>Leitura multissemiótica:

Gemma Merino faz uso de diversos recursos gráficos para contar sua história, entre eles a cor. Repare como ela diferencia o crocodilo que não gosta de água dos seus irmãos. Também usa principalmente o verde e o vermelho, que são opostos complementares. O que ela pode querer dizer?

Além disso, a ilustradora também traz recursos dos quadrinhos para a narrativa. Além, claro, da conversa entre imagem e palavra de todo livro ilustrado.

>>Outras linguagens em sala:

A Cia Ruído Rosa contou essa história em seu podcast. Que tal apresentar a narrativa nessa linguagem às crianças?

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6) Carona na vassoura

Autora: Julia Donaldson
Ilustrador: Axel Scheffler
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Poesia / Rima / Animais / Bruxas / Dia das Bruxas / Halloween (31 de Outubro) / Amizade / Solidariedade
Faixa Etária: A partir de 3 anos

Uma bruxa com o coração grande demais para sua vassoura. Uma aventura em que a amizade é a mais poderosa bruxaria. A premiada dupla Julia Donaldson (texto) e Axel Scheffler (ilustrações) você já conhece, não é? Esse livro, todo rimado, ganhou o prêmio da Crescer.

>>Leitura multissemiótica:

Esse é um texto trabalhado geralmente com as crianças da Educação Infantil. E pode, claro, ser apresentado a elas mesmo que a BNCC não estipule um trabalho com a multimodalidade nessa faixa etária.

Mas também pode ser explorado com os maiores, nesta “chave” da multissemiótica. Primeiro, porque, sendo rimado, o texto já traz a linguagem rítmica e sonora, uma experiência bem interessante de leitura em voz alta.

Segundo, porque o texto escrito dá, propositalmente, poucas informações, que vão sendo complementadas pelo que as ilustrações ora escondem, ora evidenciam.

Outro ponto interessante: as expressões faciais da bruxa e de seus amigos, que traz humor — mas também informação — à narrativa.

>>Outras linguagens em sala:

Esta obra pode ser um convite para levar as animações para a sala de aula. O livro inspirou um curta, indicado ao Oscar, que, embora em inglês, é fácil de entender: a narrativa é bem mais visual do que falada.

Repare, com as crianças, que a animação é feita em stop motion, não em desenho. Que tal pesquisar com elas que técnica é essa e propor produções com eles?

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7) A inacreditável, porém verdadeira, história dos dinossauros

Autor / Ilustrador: Guido van Genechten
Tradutor: Camila Werner
Temas: Dinossauro / Evolução das espécies / Extinção / Álbum fotográfico / Humor
Faixa Etária: A partir de 3 anos (leitura compartilhada) / 7 anos (leitura independente)

Um álbum de família de uma galinha pode não despertar interesse de muita gente. Mas e se dissermos que ela descende dos dinossauros?! Para provar isso, a galinha dessa história decidiu compartilhar com os leitores fotos e lembranças divertidas de sua família.

>>Leitura multissemiótica:

Além do diálogo entre ilustrações e texto, essa história nos traz o álbum de família como um dos fios da narrativa. Embora seja uma ilustração e não as fotos em si, há uma mudança de recurso visual quando esse premiado autor e ilustrador representa as fotos dos “parentes” da nossa galinha.

Uma ótima oportunidade para discutir com a turma essas diferenças na linguagem das ilustrações do livro e, ao mesmo tempo, um “gancho” para recorrer às fotos e álbuns familiares dos próprios alunos.

Repare também que o Guido usa tipos diferentes de letras e posiciona as falas da galinha ou do interlocutor. E há ainda outros elementos para explorar: por que a página do Tiranossauro Rex está “rasgada”?

>>Produção:

Roberta Amendola, que elaborou o Material de Apoio ao Professor, sugere diversas atividades e dá dicas preciosas sobre como explorar todos esses recursos imagéticos e textuais do livro.

Ela propõe também produções de narrativas pessoais, a partir do livro, que devem ser compartilhadas em voz alta, oralmente, inserindo mais uma linguagem nas possibilidades dessa obra.

Mais dicas inspiradoras, só baixar o Manual de Apoio ao Professor

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E você? Conte para a gente como tem trabalhado o multi letramento com seu alunos!

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Comments ( 4 )

    • oi, Milton, tudo bem? Que bom saber! Ficamos felizes! Que seja muito útil aí para você e para as crianças para quem você apresenta essas obras 🙂 Abraços. Equipe Blog da Brinque.

    • oi, Carlos, tudo bem? Muito obrigada! Ficamos super felizes de saber que está ajudando. Um abraço! Natalie Catuogno, editora do Blog da Brinque

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