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Stephen Michael King, um autor magnífico

09/12/2013

Em forma de texto ou ilustração, a obra de Stephen Michael King transborda emoções. Australiano e com uma sensibilidade aguçada, o autor diz encontrar inspiração inconscientemente. “É uma necessidade que tenho em me comunicar através de ideias simples e coloridas. Na verdade, sou uma pessoa bem tranquila que descobriu no desenho o melhor jeito de me expressar, muito mais do que falar. Dançar é divertido também”, disse Stephen em entrevista ao blog da Brinque-Book. 

Stephen teve uma perda de audição quando criança e enfrentou um bocado de dificuldades na escola. Descobriu, assim, o lugar mais criativo e livre do mundo: os livros. Mas não foi sozinho. Além do pai, foi fundamental também o olhar de uma professora, que viu nele um tremendo dom e, com carinho, estimulou suas habilidades. Começou a escrever e, influenciado por Edward Ardizzone (Dom Quixote e Peter Pan) e EH Shepard (Ursinho Pooh), passou a desenhar profissionalmente também. Trabalhou nos estúdios da Disney, em Sydney, por dois anos, após uma ótima experiência como assistente em uma biblioteca.

Da ilha de Mitchells, na costa leste da Austrália, o autor nos escreveu dizendo que estava em uma casa na colina, rodeado por um pomar e com vista para o rio. A conversa foi boa e longa, já que não haveria outra forma de conhecer melhor o pai de “O Homem que Amava Caixas”, “Ana, Guto e o Gato Dançarino”, “Pedro e Tina”, “Folha” e tantos outros livros publicados no Brasil pela Brinque-Book, como autor ou ilustrador. O último, “A Árvore Magnífica”, acaba de chegar às livrarias. Outros dois vêm aí em 2014. Mas antes, Stephen Michael King para você.

Brinque-Book: Suas obras costumam ter temas e ideias centrais. Há alguma mensagem especial que você queira passar com isso?

Stephen Michael King: Sim e não. Eu só quero escrever uma história divertida, mas os temas têm mania de aprontar nas páginas dos meus livros. Nunca tenho isso como um plano, mas um desejo de criar! Eu tento viver a vida do modo mais criativo possível. Se qualquer tema aparece, é porque ele escapou do meu subconsciente. Posso olhar para meus livros e ver facilmente os seguintes temas: auto-expressão; criatividade; equilíbrio na vida; amor puro e uma gratidão para as pequenas coisas. A verdade é que, no momento em que escrevo, o que faço é tentar entrar em contato com a minha criança interior.

Como é seu processo de criação na hora de escrever?

Escrever é uma viagem intuitiva, emocional e expressiva. Eu não tento impor expectativa sobre mim mesmo. Eu escrevi “A Bear and a Tree”, enquanto meu pai estava vivendo com câncer. Ele morreu uma semana depois que eu terminei a última ilustração. Eu não poderia escrever algo reflexivo ou emocionalmente desgastante depois dessa experiência. Eu amava meu pai, fiquei muito triste sem ele por perto. Ele era “o homem que amava caixas”. Mas eu precisava voltar a sorrir, então escrevi “Bad Hair Day”, que será traduzido [como Hoje não é meu dia] e publicado no Brasil em 2014.

Você sofreu uma perda auditiva quando tinha nove anos. Os livros foram importantes nessa fase?

Minha família não tinha muito dinheiro, mas minha mãe sempre deu um jeito de conseguir livros para nós. Ela era professora e acreditava que os livros e as histórias eram a porta de entrada para tudo. Eu acho que os livros me deram sede de aprender. Com eles eu não precisava entender a informação falada pelos professores, já que não podia ouvi-los de qualquer maneira. Com os livros eu pude descobrir as coisas sozinho.

Minha perda auditiva não foi diagnosticada por cerca de quatro anos, o que é muito tempo na vida escolar. Desenhar e ler me deram um lugar para ir quando eu não podia me comunicar com amigos e familiares. Escrever diários era uma forma de encontrar um lugar onde eu não seria julgado.

E isso influenciou na escolha de ser um autor de histórias e ilustrações tão sensíveis?

Sim! Com a perda da audição eu passei a ser tímido e introvertido. E com diferentes formas de desenhar e escrever eu encontrei meu jeito de me expressar melhor. Mas foi meu pai quem me permitiu ser sensível. Ele sempre conversou comigo sobre todos os tipos de assuntos, e eu não tinha problema algum em chorar ao lado dele. Era um homem muito gentil.

Quando e por que você decidiu que queria ser autor de livros infantis?

A primeira suspeita foi na escola. Eu tinha 11 anos e uma professora percebeu algo além da minha timidez. Com o tempo, ela passou a promover minha escrita. E o melhor de tudo: sorriu e se emocionou quando leu minhas histórias. Já adulto, consegui uma vaga como ilustrador no estúdio da Disney e percebi que o sonho de desenhar profissionalmente havia se tornado uma possibilidade. E em seguida entendi que se quisesse fazer ilustrações para livros belos eu teria de ter belas histórias para acompanhar. Não queria sentar e esperar boas histórias. Foi quando comecei a escrever profissionalmente. Aos 26 anos, escrevi meu primeiro livro publicado depois de um sonho que tive.

Estamos falando de “O Homem Que Amava Caixas”, um clássico adorado por pais e professores. Como é isso?

É maravilhoso ver que suas histórias são capazes de ajudar outras pessoas. Ver isso ganhar o mundo e receber comentários de leitores de toda parte me fez acreditar nesse efeito cascata que ouvi desde criança: “Se você sorrir para alguém, essa pessoa poderá sorrir para outro alguém. Logo, seu sorriso terá viajado por todo o mundo.” As pequenas coisas têm essa força, como uma árvore que cresce, pra depois o vento espalhar suas folhas.

Você trabalhou em biblioteca. Qual o melhor jeito de ler para uma criança, mediar uma leitura?

Acredito no poder de ler aquilo que você adora e usar seu melhor e mais sincero sorriso durante esse momento. Sempre achei que você aprende através do amor do outro em ensinar.  Nessa hora, todo o poder é dado para a criança que está na sua frente.

Há tanta beleza em livros que eles não precisam mais do que isso. Eles são um tesouro esperando para serem descobertos. No entanto, ocasionalmente, você precisa dar às pessoas um mapa.

O que você pensa sobre os livros que impõem valores?

Eu tento não julgar os livros de outras pessoas. As pessoas escrevem por diferentes razões. Eu acredito que as crianças são sábias para entender quaisquer valores que eu poderia tentar impor. Isso não significa que não há valores em minha escrita. A diferença é você pode escolher interpretá-los como quiser. O leitor pode encontrar o significado mais profundo ou simplesmente ler para se divertir. E acontece de a gente se surpreender. Outro dia, um homem se aproximou e disse que leu “O homem que amava caixas” para o sobrinho, depois de os pais do menino terem se divorciado. Ler o meu livro ajudou o garoto a descobrir que seu pai estava tentando expressar amor pela família, mesmo sem conseguir usar as palavras. Eu, como autor, jamais poderia planejar para esse tipo de resultado.

Há também o depoimento da enfermeira brasileira que usou seu livro “Folha” enquanto tratava de um garoto no hospital.

Sim. Ela dobrou uma folha de origami para o menino que precisava exercitar os pulmões, recuperar a saúde. Então ela lia o meu livro para ele, e ele assoprava sobre a folha. Com o tempo seu pulmão foi ficando mais forte. É uma bela história que ela conta em seu blog, muito melhor do que ganhar qualquer prêmio ou loteria.

O que é um bom livro para crianças?

Eu não penso sobre isso. É o trabalho de outra pessoa julgar um bom livro. Meu trabalho é criar e manter o foco. Tento escrever algo que vai me deixar orgulhoso ao me imaginar lendo para os meus filhos. Algo que eu goste de ler e eles também.

Acho até que eu diria para os pais não forçarem as crianças a ler um bom livro. Ofereça a elas uma seleção de livros considerados e, em seguida, deixe que decidam por si mesmas. Falar sobre livros, escrita e arte para crianças não pode ser de uma forma crítica, mas com alegria e vigor.

Stephen, obrigada. E parabéns por tamanha delicadeza. 

Eu que agradeço. Obrigada a todos no Brasil e ao pessoal da Brinque-Book. É maravilhoso ver meus livros com vocês por aí.


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