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Stephen Michael King encontra leitores: “o desenho é minha primeira linguagem”

13/11/2018

Observar o autor e ilustrador australiano Stephen Michael King desenhar é surpreender-se. Com giz pastel azul, ele rascunha, de leve, formas rudimentares, que esboçam volumes não-identificados no papel. Vai fazendo isso com movimentos circulares e com a lateral do giz –ao invés da ponta.

Quando o esboço está pronto, aplica outras cores sobre o azul claro, revelando mãos, pés, roupas, sorrisos. O desenho sem forma vai ganhando densidade, cores diferentes, limites. Surge, acolá, um braço sob o amarelo e, de repente, um chapéu revela o lugar onde há um rosto.

Stephen Michael King desenha na Livraria NoveSete: “começo fazendo um rascunho que me deixe livre para experimentar” / Foto: Divulgação Brinque-Book

Vez ou outra, Stephen toma distância de sua obra; observa, observa, observa e volta a aproximar-se.

Ele enxerga com clareza seu desenho e vai nos levando até ele sem pressa: de cor em cor, de forma em forma. Quando finalmente contorna sua obra com giz preto, surge o urso branco do lançamento O urso de todas as cores,  o menino de Folha (primeiro livro dele publicado no Brasil, mas já esgotado) ou Pedro, de Pedro e Tina.

Para quem observa, parece que Stephen desenha nuvens e, como uma criança a olhar o céu, contorna suas formas imaginadas, revelando desenhos e lindezas que passariam despercebidas. Chega dar um quentinho no coração acompanhar seu processo, tão natural e leve que faz parecer fácil criar tanta beleza.

Blog da Brinque acompanhou dois encontros do autor, ambos no sábado, 10/11, em duas livrarias de São Paulo: pela manhã, ele esteve na Livraria NoveSete, na Vila Mariana; à tarde, o encontro aconteceu na Livraria da Vila – Lorena, nos Jardins. No Brasil a convite da Brinque-Book, o australiano participou da Feira Internacional do Livro de Porto Alegre (RS) e está visitando escolas e projetos de mediação de leitura na capital paulista.

Nos dois encontros nas livrarias, enquanto desenha, Stephen conversa com as cerca de 100 pessoas que ocupam os auditórios: pais, crianças de colo, crianças maiores, professores, leitores -a maioria encantada e com um boa história para compartilhar sobre as obras do autor. Que também teve as suas para dividir.

De onde vêm as ideias

 

Ele contou, por exemplo, que inspira-se muito em suas experiências e em sua vida: é do cotidiano e das relações que surgem as ideias para suas obras, das quais 16 estão publicadas por aqui. O livro Vira-Lata, premiado pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), é uma história real, disse ele.

Sua irmã trabalhava em um abrigo para pessoas em situação de rua. Certa vez, apareceu por lá um cachorro vira-lata sem dono. Ele foi alimentado, mas não podia ficar, pois não havia comida suficiente para um morador extra.

Mesmo assim, foi ficando, pois resistia a sair e sempre voltava. Até que a irmã de Stephen resolveu levar o cachorro para ele: “acho que vocês vão se dar bem, pois têm uma personalidade parecida”, disse a irmã. Essa parte do relato arrancou risos da plateia.

 

“Estou aqui me apresentando a vocês como um artista, mas, no fundo, eu sou um pouco como um cão vira-lata”

 

Pedro e Tina é uma metáfora da relação do autor com sua mulher, Trish, a quem conheceu há mais de 20 anos, e que tem papel fundamental em sua obra. Ele contou que Pedro é ninguém menos que ele mesmo: sonhador, artista, colorido e fora dos padrões. Já Trish -ou Tina- tem um perfil mais organizado e prático. É ela, por exemplo, quem lê seus novos projetos antes que eles sejam apresentados ao mundo.

“Vira-Lata” / Stephen Michael King (texto e ilustrações)

 

“Ela me diz: ‘nossa, está ótimo, siga por esse caminho. Ou então: onde é que você está com a cabeça?'”

Ao amor pela mulher, ele atribui ter encontrado seu caminho artístico.

 

“Quando encontrei Trish, soube que finalmente poderia ser quem eu era”

 

Durante a conversa, foram muitos os momentos emocionantes. Stephen compartilha seus sentimentos com naturalidade e com a simplicidade e a alegria de uma criança. Não gosta de falar de si, mas não parece sentir-se desconfortável em responder perguntas sobre sua vida e em expor o coração por trás da obra. Ao ouvi-lo falar, seu trabalho -tão poético e profundo- faz ainda mais sentido.

Folha

 

Num certo momento da tarde, uma leitora, psicóloga, contou que usa os livros dele para ajudar as crianças a falarem de sentimentos. Dizendo que a obra dele tem curado pessoas sem ele saber, agradeceu. O relato dela emocionou a todos e deixou o autor com a voz embargada. Quando ele finalmente conseguiu falar, contou que o desenho também curou a ele.

Stephen então retomou sua trajetória de vida –que, segundo ele revelou, está contada metaforicamente em seu livro Folha, o preferido dele–, lembrando que a surdez da infância, que durou sem tratamento adequado até 14 anos, foi um trauma em parte superado pelo desenho: “desenhar me fez atravessar esse período escolar”.

“Pedro e Tina” / Stephen Michael King (texto e ilustrações)

 

Ainda pequeno, ele tinha muitas ideias que considerava “boba”. A mãe, professora, aconselhava-o a anotá-las todas. E foi nesse processo de colocar no papel que também foi desenhando as ideias. Para um menino com dificuldades de audição, desenhar era uma forma importante de se comunicar.

 

“Desenho é a minha primeira linguagem”

 

“Se não fosse por isso, talvez eu nunca tivesse me descoberto, poderia ter perdido esse meu caminho”, disse ele, emocionado.

O menino que desenhava e se comunicava desenhando logo percebeu que a linguagem restaura. Um de seus livros mais amados, o premiado O homem que amava caixas, foi uma dessas experiências de restauração. Na Livraria NoveSete, onde aconteceu o primeiro encontro do dia, às 10h, muito à vontade e também muito tocado, Stephen contou que a obra é sobre ele e seu pai.

O homem que amava caixas

 

Analfabeto até perto dos 20 anos, o pai de Stephen era a pessoa que lia para ele todas as noites. Que o encantou pelo universo da literatura. Mas a relação deles também era árida. Nem sempre o pai demonstrava afeto do jeito como Stephen imaginava.

Quando conheceu Trish, cujo pai morreu quando ela ainda era criança, a então namorada chamou a atenção dele para uma relação que, embora não fosse perfeita, existia: o pai estava vivo! Stephen conta que, refletindo, notou que o pai sempre estivera presente, a seu modo, em todos os momentos em que o filho precisou. Desse olhar, nasceu o livro.

“O homem que amava caixas” / Stephen Michael King (texto e ilustrações)

>>Leia aqui a resenha da obra feita por A Taba.

>>Aqui, o mesmo livro resenhado em vídeo pela professora Edith Chacon.

>>Fafá Conta também já indicou o livro e diz porque neste link.

Na plateia que esteve na Livraria da Vila, mais tarde, uma coincidência: Angela Leon, uma leitora, contou que ganhou O homem que amava caixas de presente de uma pessoa especial. A obra foi essencial para ela, naquele momento, tanto que ela resolveu escrever para Stephen relatando sua experiência com seu livro.

Não mandou e-mail, mas carta. Para sua surpresa, o autor respondeu também com uma carta de próprio punho, e mandou de volta não só a carta, mas um desenho: o menino de Folha. Angela guarda carta e desenho até hoje.

Quando ela compartilhou essa história, muito emocionada, as atenções se voltaram para Stephen. Ele respirou fundo, como se recobrasse o fôlego, sorriu, surpreendentemente abandonou o palco e foi até a plateia. Deu um longo e afetuoso abraço em Angela. Abraço de alguém que adorou, nos brasileiros, essa abertura para o afeto físico.

“Vocês abraçam bastante, o que é ótimo, porque adoro abraços”

 

 

 


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