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Ana Carol Thomé, do Ser Criança é Natural: “as crianças nascem natureza”

01/02/2018

Em 2011, a professora de Educação Infantil Ana Carol Thomé estava em busca de um tema que pudesse investigar em seu projeto de pesquisa acadêmica. Atenta, começou a perceber que eram recorrentes os pedidos feitos a ela por mães de crianças para que não apanhassem vento, não mexessem com água, não botassem os pés no chão. O motivo: evitar que os filhos adoecessem.

“Nascemos natureza”, diz Ana Carol Thomé, coordenadora do Ser Criança é Natural. Foto: Divulgação / Renata Stort

“Passei a questionar: será que as crianças estão doentes por que tomam vento, ou por que não tomam? Por que andam descalças ou por que não andam? Por que brincam com água ou por que não brincam? Retomei memórias de infância e lembrei de momentos de encanto ao pular em poças d’água, fazer comidinha com terra, plantas e água, fazer castelos de areia, fazer expedições científicas no jardim da minha avó, rolar em barrancos e descê-los sobre caixas de papelão”, relembra ela.

Ana Carol escreveu seu trabalho acadêmico abordando a relação entre criança e natureza, mas achou pouco. Queria fazer alguma coisa mais concreta e efetiva. “Era preciso mostrar que a relação entre criança e natureza é possível, era preciso fazer acontecer”.

E fez.

Em 2013, começou a coordenar os encontros Ser Criança é Natural, que têm como objetivo estimular as famílias a brincarem com a natureza. Dois anos depois de criar o Ser Criança é Natural, Ana Carol embarcou para a Inglaterra, onde trabalhou nas escolas da floresta – experiências educativas que literalmente acontecem na natureza, sem sala de aula.

Desde 2016, o programa derivou outras ações, como o Ser Bebê é Natural, para crianças até 24 meses e suas famílias. Em 2017, surgiu uma nova proposta: as Caixas da Natureza, na qual as famílias inscrevem-se e trocam com uma família correspondente, definida em sorteio, uma caixa contendo elementos naturais de seu bairro, sua cidade, seu entorno e cotidiano.

>>Veja abaixo um vídeo em que Ana Carol apresenta o projeto Caixas da Natureza.

Pedagoga, educadora há 15 anos, especialista em psicomotricidade e em educação lúdica, pesquisadora da Cultura Popular e estudiosa da abordagem Pikler, está se certificando no nível 1 do Forest School Approach (abordagem inspirada nas escolas da floresta). Dá consultorias em escolas e cursos para formação de professores interessados em ampliar os espaços de ação, de brincadeira e de contato das crianças com a natureza.

“Será que as crianças estão doentes porque tomam vento, ou porque não tomam? Porque andam descalças ou porque não andam? Porque brincam com água ou porque não brincam?”

 

É na prática, no aqui e agora, que aprende e constrói a trajetória inspiradora que queremos compartilhar  neste Radar. “Estar com as crianças numa relação horizontal, se colocar disponível e presente traz um conhecimento que não está disponível nem em livros nem no Google. É um conhecimento que é vivido, sentido”, analisa.

>>Radar é uma nova seção no Blog da Brinque em que a gente compartilha ideias, experiências, projetos e ações inspiradoras, de pessoas igualmente inspiradoras, que estão transformando as realidades em e com a infância, a literatura infantil, a educação. Conhece alguém que precisa estar por aqui? Recomende nos comentários!

Abaixo, você lê os principais trechos da conversa que o Blog da Brinque manteve, por e-mail, com a coordenadora do programa Ser Criança é Natural.

Blog da Brinque: Você pode, por favor, contar um pouco sobre sua experiência nas escolas da floresta? O que você trouxe de mais significativo dessa vivência e como isso transformou sua relação com a infância e com a natureza?
Ana Carol Thomé: Essa realmente foi uma experiência muito importante para mim. Trabalhei em duas escolas que funcionam em florestas. Elas não tem prédio, carteiras, paredes e tudo acontece na floresta. Antes de ir eu já acreditava que era possível a vida na escola ser mais intensa do lado de fora e em contato com a natureza. Lá eu descobri que tudo que fazemos dentro da sala de aula é possível fazer do lado de fora. Uma das lições que mais guardo comigo é que, aqui, nós criamos um mundo dentro da escola para que crianças aprendam e se desenvolvem. Nas escolas da floresta, elas realmente estão no mundo e aprendem e se desenvolvem de maneira única e plena!

A natureza tem de ser um desafio, um estímulo, um prazer – jamais um obstáculo, defende Ana Carol. Foto: Fabi Lopes / Divulgação

BB: Por que é importante que a criança -e o adulto- tenham contato com a natureza? E de que tipo de contato estamos falando?
Ana Carol: Definir o tipo de contato é muito importante. Não adianta estar em uma praça, mas com o olho no celular ou no tablet. Estamos falando de um contato direto e sensível. É estar no espaço natural sentindo e vivendo o agora. É estar presente! Isso vale muito para adultos. As crianças nascem natureza e vão recebendo nossa carga de humanidade com o passar do tempo. Possibilitar que a criança cresça em contato com a natureza, brincando com a natureza, é apenas deixar que ela se desenvolva em nosso habitat natural. Crianças que crescem em contato com a natureza são mais saudáveis, criativas, sensíveis, conseguem administrar os riscos em sua ações, resolvem problemas e tem alta capacidade de planejamento e estrategia. As crianças precisam estar do lado de fora, em contato com a natureza, com tempo livre para brincar. Se os adultos as acompanharem e se permitirem aprender com elas, com certeza vão ter percepções que há muito não sentiam.

“Retomei memórias de infância e lembrei de momentos de encanto ao pular em poças d’água, fazer comidinha com terra, plantas e água, fazer castelos de areia, fazer expedições científicas no jardim da minha avó, rolar em barrancos e descê-los sobre caixas de papelão”

 

BB: Nos parece que, cada vez mais, as crianças estão desconectadas de si, de seus corpos, do potencial de suas mentes, da imensa criatividade de que são dotadas, dos movimentos, das brincadeiras. A sociedade tem respondido a isso medicando essas crianças e “patologizando” a resposta das crianças a um meio hostil à nossa natureza humana. Você acha que o contato com a natureza, o sujar-se de lama, explorar texturas naturais, brincar com água, o ócio ao ar livre são meios de resgatar a percepção do agora, da vida, do lúdico e até da concentração da mente infantil?
Ana Carol: Eu não acho, eu tenho certeza, justamente porque tenho visto e vivido isso há alguns anos. A medicalização das crianças é uma maneira que a sociedade encontrou de colocar as crianças em uma forma de comportamentos. Estar em contato com a natureza, com tempo livre para brincar, permite que a criança seja quem ela é e viva sua essência. Nós conseguimos citar algumas ações que acontecem na natureza, como vocês citaram acima, mas há um encantamento e uma relação mais profunda que acontece quando criança e natureza estão juntas. E isso não é possível de descrever com ações. Manoel de Barros disse: “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” É esse encantamento que tem que ser primordial.

BB: Você tem percebido mais iniciativas em escolas e instituições nesse sentido, de mais acesso à natureza e mais liberdade de movimento e experimentação para as crianças?
Ana Carol: Infelizmente, eu acompanho um movimento contrário em escolas: cimentar áreas gramadas, tirar tanque de areia ou reduzir muito sua área, trocar por areia colorida (que não é areia de verdade!). Em contrapartida,  tenho percebido que o interesse pelo tema aumentou por parte dos educadores e gestores. Venho acompanhando escolas públicas e privadas que mudaram suas rotinas, seus espaços. Trocaram brinquedos de plástico do parque por brinquedos de madeira. Tem escola em que as crianças deixam galochas e capas de chuva para brincar do lado de fora em qualquer tempo. O Ser Criança é Natural tem uma brincadeira que se chama Caixas da Natureza. Nesta ação, acontece uma troca entre famílias ou grupos inscritos. Nas edições de grupos que tivemos no ano passado, recebi relatos de crianças saindo da escola e andando pelas ruas do bairro, brincando em parques da região, escolas que perceberam que não tinham área verde disponível para as crianças e começaram um processo de transformação. Como muitas crianças passam cada vez mais tempo nas instituições de educação, é fundamental repensar o tempo e o espaço para as crianças.

“Que o vento, a chuva, a areia, a terra, as folhas no chão sejam possibilidades e não impedimento para viver”

 

BB: O que é natural nas crinças?
Ana Carol: A própria criança! Nós nascemos natureza, mas parece que vamos nos esquecendo disso ao longo do tempo. Nossa essência é natureza. Conforme crescemos, recebemos uma carga de cultura que muitas vezes nos distancia dessa essência.

BB: Você pode dar algumas dicas para professores que nos leem sobre o que podem fazer com as crianças para apoiá-las em sua necessidade de estar mais na natureza? Como a natureza pode ir para a sala de aula?
Ana Carol: A primeira dica é: conheça o espaço da sua escola e descubra a área verde que existe nela. Ela é acessível às crianças? Já trabalhei em escolas em que tive de viver um processo de apropriação do espaço verde junto com as crianças. O que no início era “largado”, depois se tornou a floresta das crianças. Outra dica é: repense sua rotina e perceba o que você pode fazer fora da sala. Eu sei que tudo é possível, mas muitas vezes essas mudanças precisam acontecer aos poucos. Consegue contar uma história, propor uma pintura, um desenho, uma conversa? Mas a dica mais importante é sempre tenha mais motivos que desculpas para sair. Que o vento, a chuva, a areia, a terra, as folhas no chão sejam possibilidades e não impedimento para viver.

BB: De onde veio a inspiração para o Ser Criança é Natural?
Ana Carol: Em 2011 eu estava em busca de um tema para pesquisa acadêmica. Eu, então professora de educação infantil, comecei a perceber muitas mães me pedindo para as crianças não tomarem vento, não andarem descalças, não brincarem com água, sob o pressuposto de ficarem doentes. Passei a questionar será que eles estão doentes por que tomam vento, ou por que não tomam? Por que andam descalços ou por que não andam? Por que brincam com água ou por que não brincam? Retomei memórias de infância e lembrei de momentos de encanto ao pular em poças d’água, fazer comidinha com terra, plantas e água, fazer castelos de areia, fazer expedições científicas no jardim da minha avó, rolar em barrancos e descê-los sobre caixas de papelão. Fiz tudo isso mesmo sendo criança de apartamento. A inspiração estava na infância que eu observava e na minha infância. Escrevi meu trabalho sobre a relação entre criança e natureza e ao terminar decidi que era preciso ir muito além da pesquisa. Era preciso mostrar que a relação entre criança e natureza é possível, era preciso fazer acontecer. Começamos com os encontros Ser Criança é Natural, para famílias brincarem com a natureza. Desde 2016 temos os encontros Ser Bebê é Natural, para crianças até 24 meses e suas famílias brincarem com a natureza. E desde 2017 temos as Caixas da Natureza, uma brincadeira para famílias e grupos de crianças brincarem com a natureza onde estiverem todos juntos e, compartilharem suas descoberta e experiências. Simultaneamente temos feito formação de professores, assessorias em escolas, rodas de conversas com pais, curso virtual para pais e educadores, e estamos iniciando um grupo de estudos e vivências sobre educação, infância e natureza.

“Mas tudo isso poderiam ser só certificados, entende?”

 

BB: Pode contar um pouco da sua trajetória? O que você acha que trouxe você até aqui?
Ana Carol: Minha infância com certeza foi fundamental para quem sou hoje. Desde pequena eu queria ser professora e tinha uma escola na casa do meu avô que funcionava todos os domingos e atendia as crianças da rua e os primos, eu tinha uns 7 anos. Cresci e fiz faculdade de pedagogia, trabalho na área da educação como professora há 15 anos. Fiz especialização em educação especial, psicomotricidade, educação lúdica. Estudei cultura popular brasileira. Estudo a abordagem Pikler e Pedagogia profunda, estou terminando o Level 1 do Forest School Approach. Mas tudo isso poderiam ser só certificados, entende? Hoje somos capaz de ser muito sabidos sobre algo apenas lendo sobre. Eu acredito que o que me trouxe aqui são as experiências que eu tive desde a infância, e as relações que sempre tive com as crianças. Estar com as crianças numa relação horizontal, se colocar disponível e presente traz um conhecimento que não está disponível nem em livros nem no Google. É um conhecimento que é vivido, sentido.

 


Comments ( 3 )

  • Ótima entrevista e muito inspiradora! Parabéns p excelente e humana educadora

  • Perdi o endereço da escola para a qual preciso mandar a caixa. Pode me mandar? Sou da Emeb Padre José Maurício em São Bernardo do Campo – São Paulo. O email foi apagado.
    Desculpas É obrigada.

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