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Rosane Pamplona: “me delicio com a palavra, falada ou escrita”

05/07/2018

Rosane Pamplona é recontadora de histórias, como ela mesma se define. A oralidade a encanta; assim como as narrativas tradicionais e suas estruturas, seus astutos personagens, as falas e sotaques – literais e figurados – que tais histórias revelam. Tendo vivido parte da infância na fazenda de café de seus pais, no interior de São Paulo, a “paulistana da gema”, nascida na avenida Paulista, aprendeu com o pai a reparar nas muitas formas de falar das pessoas, no campo, na cidade, entre os emigrantes…

“O legal da fazenda de café é que eu também ampliei muito o meu repertório de brincadeiras, de causos, de contos, de contos de assombração, brincadeiras de roda, porque é uma cultura muito oral nas roças. Como eu ia de férias, eu adorava aquilo tudo, brincar daquilo tudo que eles brincavam, daqueles jogos, em que sempre se falava alguma coisa antes de começar, na hora de acabar; aquilo sempre me interessou”, conta ela.

Apaixonou-se pela palavra. Primeiro, pela falada, com o pai exímio contador de causos. “O meu pai foi o grande contador de histórias da minha vida”. Depois, pela escrita, que aprendeu sozinha, em uma única tarde, de um modo próprio que ela mesma inventou para se alfabetizar.

Essa alegria pela palavra revela-se em seu trabalho – diversos livros publicados, duas indicações ao prêmio Jabuti e diversos selos da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) -, que mescla com maestria essas duas tradições: a oral e a escrita, preservando o que há de mais belo e inspirador em ambas.

Rosane acaba de re-editar Novas Histórias Antigas (lindamente ilustrado pela artista Andrea Ebert), um livro de contos tradicionais de diversos países, cuja origem ela conta nesta entrevista que concedeu, gentilmente, ao Blog da Brinque.

Ela fala também sobre sua extensa e afetiva pesquisa, a infância de causos e livros, seus autores prediletos – entre eles, Guimarães Rosa -, por que formar leitores e como fazê-lo. “É preciso entusiasmar os alunos como meu pai entusiasmava os filhos”.

“Novas histórias antigas” / Rosane Pamplona (texto) e Andrea Ebert (ilustração)

 

Blog da Brinque: Como você se formou leitora?
Rosane Pamplona: Nasci num ambiente muito propício para leitura, um ambiente leitor. Meu pai e minha mãe liam muito, havia livro por toda parte, uma pequena biblioteca em casa, irmãos mais velhos que liam. Mas, por mais incrível e paradoxal que pareça, eu nunca me liguei na leitura até entrar na escola mesmo. No primeiro dia de aula, a professora chamou a mim e mais dois meninos e abriu a cartilha; perguntou para nós três quem sabia ler. Achei que era uma pergunta absurda, porque eu tinha acabado de entrar na escola… ‘Como assim?’, pensei. ‘Eu vim para a escola para aprender’. Um dos meninos também não sabia, mas o terceiro disse que sim e começou a ler na minha frente. ‘O boi bebe, o boi baba’. Eu fiquei tão abalada em saber que alguém sabia ler e eu não, que eu fui para casa e quebrei a cabeça e aprendi a ler naquela tarde.

 

obrigar [alguém] a ler uma coisa não é muito bom mesmo; todo mundo já sabe disso

 

BB: E como foi isso de aprender a ler em uma tarde?
Rosane: É um processo bem incrível, porque eu inventei um método para ler e li a cartilha inteira, porque eu conhecia as letras. Hoje, se eu conto isso nas minhas aulas de formação para professores, eles se espantam, porque há muitos métodos para se aprender a ler, muitas teorias – e respeito todas -, mas acho que cada criança pode ter um processo de aprendizagem diferente e muito pessoal. Mas também me carregou para o mundo da leitura para sempre. Eu fiquei para sempre agradecida pela possibilidade que eu tinha de saber ler, e esse foi um percurso de estar sempre agradecida às palavras. Me delicio com elas.

BB: A oralidade é muito presente em sua obra, você contou diversas vezes que se reconheceu contadora muito cedo, que contava para sua irmã… Que memórias têm dessa época, o que costumava contar, como foi essa descoberta?
Rosane: Com oito anos, eu ensinei minha irmã de cinco anos a ler, usando o mesmo método que tinha inventado para aprender a ler. Com oito anos também foi a minha grande descoberta dos contos de fadas nos livros, porque eu ganhei uma coleção imensa de contos de fadas do meu pai, que eu devorei. E eu contava para minha irmã. Minha irmã foi meu primeiro público.

 

é uma cultura muito oral nas roças e, como era férias, eu adorava aquilo tudo

 

BB: Quem contava histórias para você?
Rosane: O meu pai foi o grande contador de histórias da minha vida. Ele era um grande contador de histórias. Tudo o que ele contava, qualquer fato banal, virava uma aventura, uma novela. E ele gostava muito de contar as histórias da vida dele, as histórias que ele tinha lido em livros e as histórias que contavam para ele… Todos nós – somos quatro filhos – gostamos muito de contar histórias, gostamos de falar e conversar, faz parte, parece que está no sangue. Muitas vezes contava histórias que, mais tarde, depois de adultos, descobríamos que era de livros, mas parecia que eram coisas que aconteciam com amigos dele, pela maneira tão viva com que ele contava.

BB: Como ele contava? Que maneira era essa?
Rosane: E acho que talvez daí tenha vindo também essa minha paixão pela narrativa oral, porque tinha esse exemplo do meu pai, que divertia todo mundo: até minhas amigas gostavam de almoçar em casa, porque tinha sempre essa parte recreativa que meu pai fazia contando causos ou falando poemas… E ele também tinha certo interesse pelo modo como se falava. Então ele gostava de reproduzir o modo caipira de alguém que tinha contado algo para ele, ou um sotaque de um estrangeiro que tinha falado alguma coisa diferente para ele. Meu pai nasceu no Brasil e morou na Itália na época em que os pais falavam dialeto, na Sicília – ele falava dialeto siciliano em casa e na escola era obrigada a falar italiano fiorentino, oficial, era proibido falar o dialeto, então ele já tinha essa coisa de saber que um jeito de falar era próprio pra um lugar, outro jeito era próprio pra outro lugar, acho que isso contamina, contagia a gente. Como as [minhas] férias eram passadas na fazenda de café [do meu pai], com os colonos, eu também ficava prestando muita atenção, gostava de comparar a maneira como eles falavam algumas coisas, tinham um jeito tão diferente, eu achava bonito aquilo, gostava demais.

 

cada criança pode ter um processo de aprendizagem diferente e muito pessoal

 

BB: Você já disse muitas vezes que sua infância teve muito Monteiro Lobato e Malba Tahan. Há muita oralidade e contos tradicionais em ambos. Como esses autores influenciaram você e seu trabalho?
Rosane: Monteiro Lobato e Malba Tahan, os dois povoaram minha infância. Claro, com as histórias maravilhosas de Monteiro Lobato. O primeiro livro dele que eu li foi Caçadas de Pedrinho, que meu irmão mais velho ganhou.  Eu era bem pequena, devia ter 8 anos, e adorei aquilo de morar num sítio e ter floresta…; sempre gostei da natureza, apesar de ser paulistana da gema… E também o modo de falar da tia Nastácia, achei aquele mundo de fantasia uma maravilha e li muito Monteiro Lobato, principalmente Reinações de Narizinho, A chave do tamanho, que foi meu preferido. E achei alguns chatos, como O poço do Visconde, que falava muito de geografia, não gostei muito.

E Malba Tahan, ah, também foi uma descoberta, aquelas histórias todas… Mas aí já era mais velha, eu tinha uns 11 anos. As histórias árabes, que já não eram mais os contos de fadas, eram histórias de personagens espertas, astutas, que venciam pela esperteza, sempre surpreendendo, não eram como as de contos de fadas, que você mais ou menos já sabe o final.

BB: Quem mais você lia na infância?
Rosane: E lia muitos outros livros, na minha casa havia muitos livros, eu podia escolher. Um que marcou minha vida porque era um clássico italiano que todo italiano lê, é o Coração, a história de uma classe de alunos e o que acontece com esses alunos durante o ano. Um é rico, outro é pobre, um é ‘bom’ aluno, outro é ‘mau’ aluno… Edmondo de Amicis, [autor] ele contava um pouco do que era a Itália naquele momento e, durante o livro, havia a cada mês uma história: havia um conto do mês que o professor contava, muito emotivos, muito italianos, sacrifício de filho, sacrifício de pais, eu chorava, eu amava. Aquilo marcou muito, até hoje parece que eu conheço aqueles alunos e sei descrever cada um, sei o nome de vários ainda. E outros dois livros que me lembro de terem marcado muito, que gostei demais foram As aventuras de Pinochio, do [Carlo] Collodi, mas o livro original mesmo, que tem muitas aventuras. É um livro maravilhoso, que eu não sei porque não é reeditado. E As viagens de Marco Polo, numa versão mais infantil, que foi assim um deslumbramento para mim.

 

eu me orgulho de ser brasileira porque eu posso ler Guimarães Rosa

 

BB: E o Guimarães Rosa? Quando ele entra na sua vida leitora e qual é a importância dele nesse seu percurso?
Rosane: Guimarães Rosa eu conheci adulta já. Não fazia parte dos preferidos do meu pai, não conhecia antes. Li A hora e a vez de Augusto Matraga e achei que aquilo era a literatura que eu procurava. Fiquei encantada! Depois fui ler Sagarana e mergulhei num mundo de significados, de palavras maravilhosas, de maneiras de falar, fiquei impressionada com aquilo. Quando li Grande Sertão: Veredas, achei que não poderia haver coisa mais perfeita do que aquilo. Me emociono só de pensar como foi esse meu contato com Guimarães Rosa. Achei que aquele livro dizia tudo que as pessoas precisavam saber. E que teria que ser lido muitas vezes. E foi assim que eu fiz – nossa, nem sei, 40, 50 vezes – e cada vez tirando um outro significado. É inesgotável, aquele livro é inesgotável. É o meu grande livro, até hoje para mim eu acho que é. Uma vez, numa pergunta [que me fizeram] sobre do que me orgulho por ser brasileira, a resposta veio assim na ponta de língua: eu me orgulho de ser brasileira porque eu posso ler Guimarães Rosa. Outros falantes de outros idiomas não conseguem ler Guimarães Rosa como eu posso.

BB: Por que é importante formar leitores?
Rosane: Por que é importante formar leitores? Eu acho que algumas pessoas vivem muito bem sem ler. Mas eu sempre sinto pena pelas pessoas que não sabem ler. E saber ler eu não quero dizer decifrar as palavras.  Saber ler é saber, entender, interpretar, tirar proveito de um texto, ser um leitor realmente. Há um mundo tão grande ali à espera do leitor…. Só pelo fato de eu ter lido Guimarães Rosa e de ele ter modificado a minha vida em muitos sentidos, de ter me ajudado em muitos momentos, se eu não pudesse ler eu não teria esse tesouro comigo. E muitas vezes eu leio livros que me ajudam na minha vida, que me esclarecem, enriquecem minha vida, me ensinam, me consolam, me fazem rir, me fazem chorar, me fazem companhia. Eu agradeço profundamente quando estou lendo um livro e aquilo me toca o coração. Recentemente eu li O filho de mil homens, do [português-angolano] Valter Hugo Mãe, e eu gostaria de agradecer a ele pessoalmente, porque eu saí do livro transformada, me sentindo uma pessoa melhor, mais amorosa em relação ao mundo. Então eu acho que é uma pena não ler. Eu não acho que para ser feliz ou para se realizar tem que ser um leitor. Acho que cada um tem um caminho. Eu, por exemplo, não sou uma entendedora de música como eu sou uma entendedora de literatura e sinto pena por mim, sinto falta disso, gostaria de entender mais de música e acho que seria muito enriquecedor para a minha vida se eu entendesse mais de música, se eu tocasse um instrumento. Não é só a leitura, acho que quando você aprende a entender e a curtir artes em geral, você tem mais possibilidades de se transformar, de se aperfeiçoar, de ser feliz…

 

eu acho que é uma pena não ler; agradeço profundamente quando estou lendo um livro e aquilo me toca o coração

 

BB: Como se forma leitores?
Rosane: Não tem uma receita. Eu acredito – e como professora vi acontecer isso – que você tem que dar a mão para o aluno e levá-lo para esse mundo da literatura. Primeiro, mostrando textos que possam interessá-lo. Segundo, você propondo um modelo de leitura. Eu me lembro de uma classe em que fui substituir uma professora, era uma classe de primeiro colegial e eles tinham que ler Peru de Natal, do Mário de Andrade. Ninguém tinha lido, porque eles tinham começado a ler e achado muito chato. Eu disse: ‘eu vou ler para vocês’. Eu adoro esse conto! E eu sei que eu li de uma maneira muito especial. Quando acabou, eles falaram: ‘mas esse não é o mesmo texto’. E eu falei: ‘claro que é, pode ler (risos)’. ‘Ah, mas se a gente soubesse que era assim tão bonito, a gente teria lido’. Acho que você tem que dar um modelo de leitura, tem que propor textos interessantes. Crianças com 10 ou 11 anos gostam muito de mitologia. Isso vai interessá-las mais que filmes de super-heróis, eu tenho certeza, pois já vi acontecer. É importante dar um modelo de leitura para ele [o aluno] entender também como entonar, como pontuar, para ele mesmo, leitura muda, porque faz diferença, muita diferença quando você sabe como ler aquilo. E procurar o texto apropriado para aquela idade, para aquela personalidade de criança e jovem.

 

“Novas histórias antigas” / Rosane Pamplona (texto) e Andrea Ebert (ilustração)

 

BB: Na escola, em geral, a literatura entra como obrigação. Muitos especialistas ponderam que essa não é uma boa forma de apaixonar as crianças pela literatura. O que é possível fazer para instigar alunos a lerem?
Rosane: Obrigar a ler uma coisa não é muito bom mesmo e todo mundo já sabe disso. Só o fato de não ser obrigatório já libera o aluno para ele querer ler aquilo. O melhor é propor, dar algumas sugestões e, entre elas, o aluno escolher alguma coisa. O que eu fazia muito era [propor que] cada um lesse o que quisesse e depois defendesse sua leitura para a classe. ‘Eu li esse livro…’, depois dava o argumento sobre porque ler aquele livro, se ele [0 aluno] tivesse gostado. Essa é uma maneira, há outras, cada professor pode desenvolver um método. Escolher um livro interessante e fazer sugestões interessantes ajuda muito. E, depois, não ficar com aquele modelito didático de fazer resumo e responder perguntinha, porque isso é muito chato. Há outras maneiras de aproveitar o livro.

 

antes de escrever, a história foi contada oralmente muitas vezes, para ela chegar ao papel com um caráter de oralidade

 

BB: Em seu trabalho de formação de professores, o que vê? Quais as dificuldades dos professores com formação de leitores?
Rosane: Muitos professores não leem o livro. [Os alunos] Tem que ler o livro, mas os próprios professores não se interessaram muito pelo livro, mal leram ou não leram. Isso acontece, a gente tem que ver que acontece isso. Não é porque são professores que gostam de ler. Infelizmente, isso acontece. Eu dou cursos pelo Brasil todo, conheci muitos grupos de professores diferentes, de escolas simples, escolas sofisticadas, escolas ricas, escolas pobres e vejo que há muitos professores que não gostam de ler. Se você se interessa, você entusiasma os alunos; é preciso entusiasmar os alunos, como meu pai entusiasmava os filhos.

BB: Em Novas Histórias Antigas, que acaba de ganhar nova edição, você selecionou e re-escreveu textos de diversas tradições orais ao redor do mundo. Como foi a pesquisa e seleção desses textos?
Rosane: Novas Histórias Antigas foi publicado há 20 anos. Mas ele surgiu até antes. Eu sempre gostei de ouvir histórias e contava essas histórias. As pessoas me perguntavam: ‘mas em que livro está?’ Eu dizia: ‘ah, não estão em livro’. E aí resolvi registrá-las no papel. Para registrá-las, na verdade, usei exatamente o mesmo percurso que tinha usado para contá-las. Como eu contava? Eu lembrava da história, tentava contá-la, mas não lembrava muito bem como tinha começado, então eu compunha um cenário. Às vezes, lembrava apenas de um núcleo, por exemplo, que a pessoa tinha encontrado um tesouro escondido não sei onde. Mas quem era essa pessoa mesmo? Onde que ela morava? Não lembrava; eu criava esse entorno, sempre procurando manter os aspectos simbólicos mais fortes, aqueles conteúdos que eu via que se repetiam em várias histórias. Desde pequena eu já tinha entendido que havia elementos que se repetiam. E isso foi ficando muito claro à medida em que eu fui aprendendo outras línguas e pesquisando em bibliotecas. Morei na Europa, pesquisei muita coisa. Aquele conto tradicional brasileiro aparecia também em livros antigos da França ou da Polônia ou da Rússia… Eu então mantinha esses conteúdos e criava o entorno. Eu sou uma recontadora. Não sou uma criadora de histórias, crio o ambiente todo, mas não a trama principal. Pesquiso muito, sempre que vou a algum país diferente, vou a biblioteca e quero ver o que há de contos, lendas e principalmente as mais tradicionais e assim é que vou escrevendo. Mas, antes de escrever, a história foi contada oralmente muitas vezes, para ela chegar ao papel com um caráter de oralidade. Essas histórias não são para crianças pequenas. Escolhi histórias que privilegiam a condição humana e menos a fantasia.


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