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Consciência negra: livros e representatividade em sala de aula

18/11/2020

“Representatividade negra nos livros infantis importa porque todas as crianças precisam se ver retratadas positivamente”.

A frase abre a palestra da escritora Sonia Rosa, autora do livro Os tesouros de Monifa, no Encontros Brinque-Book, realizado em outubro.

Estar retratado e representado de forma positiva é essencial, especialmente na infância. Imagem: Os tesouros de Monifa, de Sonia Rosa (texto) e Rosinha (ilustração)

Especialista no tema, a autora Sonia Rosa é mestre em Relações Étnicos Raciais pelo CEFET/RJ, pedagoga e escritora de literatura infantil negro afetiva. Já foi contemplada com vários selos de reconhecimento ao seu trabalho pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Você, como educador/a, já pensou sobre isso? Leva isso em conta na hora de escolher as obras que vai apresentar ou levar para compor sua biblioteca de sala?

De que maneira você pode contribuir para uma autoimagem afetiva e positiva das crianças negras e, ao mesmo tempo, formar crianças antirracistas?

Neste post, vamos tratar desse tema a partir dos tópicos a seguir:

  • Reflexões sobre a importância da representatividade;
  • O vídeo com as considerações da Sonia Rosa na íntegra;
  • Dicas dela para montar uma biblioteca com representatividade em sala;
  • Seleção de livros infantis com protagonistas negros;
  • Dicas de obras de formação sobre esse tema, com indicações de Sonia Rosa.

 

“Todas as infâncias importam”, declara Sonia, para introduzir o assunto da representatividade e sua importância.

Representatividade negra na infância é essencial

Em sua conversa durante o Encontros Brinque-Book, Sonia começou explicando com sua própria experiência:

Quando era criança, não se encontrava representada nos livros de forma positiva.

Nas raras vezes em que havia uma criança negra no contexto ficcional da história, era um encontro “desagradável”, porque trazia uma personagem em situação ruim, mal vestida, entristecida, sem história para contar.

Hoje tem mais autores que trabalham isso de trazer representatividade positiva, como ela mesma, que define sua literatura como “negro afetiva”.

“A criança que se vê mal retratada, mal representada, é como um sentimento de anulação, de não existência”, lembra.

Veja, abaixo, o vídeo na íntegra:

O depoimento de Sonia deixa claro que identificar-se, ver-se, espelhar-se é muito importante, sobretudo na infância. O outro — o diferente e o parecido — é que vão dando um pouco o sentido de quem somos.

As crianças vão construindo a identidade, a visão de si mesmas e a estima nessa relação com o que veem dentro e fora delas. Sem um “eu” positivo refletido no mundo externo positivamente, como criar uma visão positiva de si?

Literatura diversa em sala de aula

“Através de um bom texto literário, a gente pode provocar uma reflexão”, diz Sonia.

A escritora lembra que sua infância não foi repleta de livros. Mas sempre houve histórias e muito amor. Para ela, a oralidade é um dos valores civilizatórios afro-brasileiros e foi com essas palavras amorosas que descobriu, ainda menina, o antídoto para a falta de representatividade.

Por isso, sua escrita é negra e tão permeada de afeto — negro afetiva, como ela diz. Coloca personagens negras como ela, seus irmãos, familiares, amigos, alunos…

E faz isso com histórias cheias de amor, afeto, relações bonitas e respeitosas. “Entendi que palavra e o texto podem vir como amor”.

Esse poder das narrativas — de representar positivamente e levar afeto — mostra como é essencial pensar uma biblioteca diversa em sala.

“Recomendo que, ao montar uma biblioteca em sua escola ou em sua sala de aula, o professor fique bastante atento aos livros que deseja compartilhar com seus alunos”, defende Sonia.

Ela é uma entusiasta da Lei 10.639/03, que prevê que os saberes e fazeres afro-brasileiros precisam estar na escola, precisam ser contemplados nos livros apresentados, nas compras governamentais de obras oferecidas às crianças da rede pública…

Montando uma biblioteca antirracista

Para Sonia, uma ação antirracista muito eficaz e relativamente simples é justamente — levando em conta a Lei 10.639/03 — escolher e ler criticamente os livros que você vai apresentar às crianças.

Separamos aqui algumas dicas que podem ajudar você nessa tarefa.

1) Analise o conteúdo

Ler criticamente uma obra quer dizer, nesse caso, avaliar se há um conteúdo estereotipado, diz Sonia.

Alguns pontos que separamos para você reparar: há negros na história? Como são representados? Como a história deles é contada? A partir de estereótipos? Que experiências eles vivem? São similares às vividas por outras crianças em outras histórias? Ou os negros aparecem apenas em situação de desamor?

Há afeto e dignidade na forma como os negros estão representados nas histórias? Imagem: Kalinda, a princesa que perdeu os cabelos e outras histórias africanas, de Celso Sisto

Há afeto nas narrativas das personagens negras? Amam e são amados? São felizes? Poderiam ser histórias vividas por quaisquer pessoas, ou seja, há negros vivendo questões que possamos chamar de universais, como relações familiares, de afeto, na escola, no trabalho etc?

Mesmo se a história for se referir às injustiças vividas pela população negra, repare se há dignidade e valor na forma de apresentar isso ou se os negros são sempre colocados como vítimas passivas — o que nem é verdade historicamente, além de ser uma forma de desvalorizar a cultura dos povos que vieram escravizadas de África para cá.

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2) Veja a imagem

“Em seguida, o livro deve ser analisado quanto às imagens e design gráfico.

Há  respeito ao personagem negro quanto à sua apresentação? Está limpo, calçado, penteado? Tem nome? Tem família?”, pergunta Sonia.

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3) Leia livros para pequenos e grandes

Para fazer essas avaliações de um modo cada vez melhor, é preciso ter intimidade não apenas com os livros para infância e sua linguagem, mas também com os temas em debate entre os pensadores antirracistas.

“O racismo é estrutural, está dentro de nós, nas relações. Precisamos ler bastante, estudar bastante”, pondera Sonia.

Há muitos livros para a infância que merecem estar numa biblioteca diversa e representam bem diversas infâncias, inclusive a negra.

E há diversos autores, hoje, pensando questões raciais que vão dar mais informação para que você avalie e reavalie constantemente suas escolhas para a turma.

A própria Sonia, em seu vídeo, indica algumas dessas obras, muitas delas tratando diretamente do tema do racismo e da luta antirracista na escola.

3 livros com protagonistas negras

Selecionamos aqui três obras em que as personagens negras são protagonistas e trazem para a diversa cultura afro para a sala de aula.

Conheça também os materiais de apoio ao professor de algumas dessas obras, que estão em destaque nos descritivos dos livros, aqui abaixo:

1) O chapeuzinho e o leão faminto

Autor / Ilustrador: Alex T. Smith
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Humor, animais, amizade, astúcia, criatividade, clássico revisitado, protagonismo feminino.
Faixa Etária: A partir de 3 anos (leitura compartilhada) ou a partir de 7 anos (leitura independente)

Certa manhã, tia Rosa acordou com o corpo cheio de pintas! Nesse caso, o que fazer? Ligar para a Chapeuzinho! Ao saber da situação, a menina se despediu do pai e correu para levar para a tia, em sua cesta, tudo o que ela precisava para se curar.

Mas, no caminho, encontrou um leão faminto que bolou um plano para devorá-la. Será que seu plano vai dar certo ou será que a Chapeuzinho vai pregar uma peça no leão?

>>Por que ler

Nesse premiado reconto contemporâneo, uma menina negra cheia de vida mostra o valor do diálogo e da amizade, num reconto repleto de humor, que deslocada o conto clássico da floresta europeia para a savana africana.

>>Material de apoio ao professor

Indicado para a Educação Infantil e os primeiros anos do Fundamental I, esse livro pode ser trabalhado em diversas aulas pelo professor polivalente, como por exemplo: Língua Portuguesa, Geografia e Ciências.

>>Baixe aqui o material de apoio ao professor!<<

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2) Kalinda, a princesa que perdeu os cabelos e outras histórias africanas

Autor: Celso Sisto
Ilustrador: Celso Sisto
Temas: Relacionamento familiar / África / Astúcia / Tradição oral / Amor
Faixa Etária: A partir de 8 anos

Neste surpreendente livro, o renomado autor e ilustrador Celso Sisto traz diversos contos do continente africano, por meio dos quais o leitor poderá explorar a riqueza da cultura dos diferentes povos que lá vivem.

>>Por que ler

Esta premiada obra, que já ganhou o selo Altamente recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), e o Cátedra 10 em qualidade literária, reúne histórias ancestrais e mitológicas de diversos povos.

Não à toa, é o livro do Grupo Brinque-Book mais escolhido no PNLD 😉

>>Material de apoio ao professor

A indicação aqui é para o Fundamental I e II e tem como tema transversal a pluralidade cultural. São também diversos gêneros textuais, que trazem a riqueza da cultura para a sala de aula.

>>Baixe o material de apoio ao professor<<

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3) Aminata, a tagarela

Autora / Ilustradora: Maté
Temas: Pluralidade cultural / Conto / Relacionamento familiar / África / Tradição oral
Faixa Etária: A partir de 8 anos

Em Aminata, a tagarela, a pequena filha caçula do tecelão Amadu quer saber por que não pode aprender a tecer. A resposta está nas lendas e nos provérbios do seu povo. Graças à avó Nakuntê, ela encontra um novo talento e compreende que, no mundo Bamana, os homens tecem palavras e as mulheres pintam segredos.

>>Por que ler

Neste enredo cheio de belas surpresas (como a história de Djoliba, o grande rio Níger) e com um final emocionante, Maté nos traz a diversidade da cultura Mali e do povo Bamana. O relacionamento familiar aparece em destaque aqui.

>>Material de apoio ao professor

Família, afetos, oralidade, pluralidade, lendas, África, e história são alguns dos temas apontados pelo encarte, que recomenda trabalhar a obra no 4º e 5º anos do Fundamental I e no Fundamental II.

>>Baixe o material de apoio ao professor<<

Bibliografia para os maiores

Sonia Rosa indicou uma bibliografia de livros teóricos para você mergulhar no tema do racismo, do antirracismo, da negritude e da branquitude.

Esse pode ser um começo para você formar um repertório sobre o tema, que certamente vai ter efeitos positivos tanto na sua escolha de obras para as crianças quanto na abordagem do tema em sala.

Olha só que lista!

  • Racismo estrutural“, de Silvio Almeida, Editora Jandaíra;
  • Pequeno manual antirracista“, de Djamila Ribeiro, editora Cia. das Letras;
  • Memórias da plantação“, de Grada Kilomba, editora Cobogó;
  • Racismo recreativo“, de Adilson Moreira, Editora Jandaíra;
  • O movimento negro educador“, de Nilma Lino Gomes, editora Vozes;
  • O negro no Brasil de hoje“, de Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes, editora Global;
  • Do silêncio do lar ao silêncio escolar“, de Eliane Cavaleiro, editora Contexto;
  • O espetáculo das raças“, de Lília Moritz Scwarcz, Cia. das Letras;
  • Branquitude“, de Tânia P. Müller e Lourenço Cardoso, editora Appris;
  • Um defeito de cor“, de Ana Maria Gonçalves, editora Record;
  • Rastros de resistência: histórias de luta e liberdade do povo negro“, de Ale Santos, editora Panda Books.

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E você? Como tem se relacionado com um tema tão atual e essencial?

 

 


Comments ( 4 )

  • Linda matéria: pertinente, relevante e necessária!
    Amo os livros da Sonia Rosa, ela tem uma escrita potente e afetiva. Me sinto representada em suas obras!
    Daniel Munduruku nos presenteia com a cultura Munduruku e traz histórias incríveis retratadas em seus livros, ajudando a desconstruir estereótipos que até hoje são reproduzidos em relação aos diversos povos indígenas que aqui habitam.

    • oi, Sara, tudo bem? Que ótimo que gostou e que achou relevante! Torcemos muito para que seja útil nas nossas práticas diárias. É um tema da máxima importância, não é? Obrigada pelo comentário. Abraços,

      Natalie Catuogno, editora do Blog da Brinque

  • Olá! Bom dia!
    Começar esse dia com essa leitura é maravilhoso. Parabéns pela bela matéria tão essencial na pluralidade da nossa cidade.

    • oi, Rosângela, tudo bem? Obrigada! Que bom que gostou! Esse é um tema essencial, não é? Um abraço! Natalie Catuogno, do Blog da Brinque

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