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Lendo os contos de fadas em sala e em casa: reconto, adaptação, original?

26/11/2020

Quantas versões de Chapeuzinho vermelho existem? Quantas você apresentou às crianças? Será que é bacana mostrar essa variedade? O que é, afinal, versão de um conto de fadas?

Um lobo e um porquinho? Cuidado! Não, espera: esse lobo não é mau? Será? Imagem: O lobinho bom, de Nadia Shireen

A consultora literária Celinha Nascimento diz, citando o escritor Italo Calvino, que clássico é o livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Faz todo o sentido, não faz?

Os clássicos continuam atuais. Toda essa atualidade vale tanto para suas as obras originais quanto para adaptações, versões, histórias inspiradas nas personagens…

Vamos falar sobre eles e sua potência na sala de aula? Para isso, conversamos com Beth Cardoso, especialista no tema e que nos conta um pouco mais sobre a diferença entre versão, reconto e releitura.

As diferentes versões dos contos

Você já deve ter reparado que uma mesma história clássica ou conto de fadas pode ser encontrada em diferentes versões.

Há as originais — ou mais próximas possíveis daquelas escritas e compiladas pelos Grimm, por Hans Christian Andersen ou por Charles Perrault.

Existem também as adaptações dessas histórias e de outras narrativas clássicas, escritas por autores contemporâneos e mantendo-se a estrutura do conto original, seus personagens, desfechos, cenários — como a tradução e adaptação que Marisa Lajolo fez de Poliana no ano passado, por exemplo.

E há, ainda, as obras que mantém algumas personagens ou parte do enredo, mas subvertem outras. É o caso de A chapeuzinho e o leão faminto, de Alex.

Ao contrário da original, esta obra se passa numa savana africana e não na Europa; sua personagem principal é uma menina negra muito sabida — ao contrário da ingênua que conhecemos –; e o lobo não é lobo, mas um leão.

Nesta história, a Chapeuzinho é muito esperta e dá uma baita lição de moral no “lobo”, que é um leão. Imagem: A Chapeuzinho e o leão faminto, de Alex T. Smith

Isso sem mencionar as obras inspiradas em contos de fadas, que trazem alguns personagens ou se referem a eles, mas que contam histórias completamente diferentes.

Maravilha, não?

Reconto? Releitura?

Há algumas diferenças de nomenclatura e classificação desse tipo de obras que podem nos ajudar a organizar um pouco mais todas essas possibilidades.

De acordo com a professora Beth Cardoso, que é especialista no tema e doutora pela USP, reconto mantém a maior parte das características da narrativa original.

Já a releitura é mais livre: “uma intertextualidade, que parte do conto da tradição oral para estabelecer uma nova narrativa, em diálogo com a tradição”.

Potência dos contos de fadas

Além de prova inconteste do interesse permanente por essas personagens, toda essa profusão de possibilidades nos dá uma mostra da variedade e da diversidade de explorações possíveis para esses textos.

Beth nos lembra que é a partir dos anos 80 que esse fenômeno começa a acontecer com mais frequência na literatura, momento em que os livros para criança vão “abraçar”, nas palavras dela, os contos de origem tradicional, mas em outro patamar.

“Aí que entra deixar os personagens mais politicamente corretos, fazer inversões [nas histórias ou nos finais], dar mais complexidade, ‘modernizar'”.

Esse crescente interesse não é por acaso.

Para Beth, esses contos nos levam a questões milenares, que falam sobre nossa subjetividade, nossas experiências e sentimentos; à experiência de sermos humanos, desde o começo dos tempos.

“Quase um território do sagrado”, diz ela.

Celinha Nascimento nos lembra de que essas histórias deixaram “um rastro” de emoção, de afeto e até de uma certa moral que valeu para quase toda a sociedade ocidental. Daí o interesse renovado continuamente — e não só nos clássicos para crianças.

Essa potência se revela nas leituras e releituras crescentes, cada vez mais sofisticadas e cheias de camadas, e no interesse renovado nesse tipo de obras.

Para Beth e Celinha, o interesse leva a novas versões e essas novas versões também renovam o interesse. Leitores e o mercado de livros acabam se beneficiando desse olhar e desse retorno aos textos mais antigos da nossa tradição oral ocidental.

Novas camadas em contos antigos

O grande barato dessas novas versões é “atualizar” os clássicos, ou seja, trazer todo esse conteúdo forte, ancestral, que revela parte da essência do que somos para os dias de hoje.

Quase como se pudéssemos aplicar uma espécie de lente ou sabedoria milenar para os desafios contemporâneos, que são mais complexos, variados, cheios de camadas — porque nós também ficamos mais complexos.

“Acho que é muito interessante que se queira reescrever essa história para dizer para as novas gerações: ‘olha, pode ser diferente, tá bom?'”, diz Celinha.

Em Chapeuzinho vermelho, por exemplo, lembra a especialista, há uma personagem mais forte que submete a mais fraca. Mas e se acontecesse o contrário? E se a mais fraca ganhasse? E se a mais fraca fosse mais esperta? E se a gente questionasse esses conceitos de fraco e forte, em consonância inclusive com nossa mudança de visão e sentir sobre essas questões?

Por isso, os contos de fadas ainda mobilizam tanto as crianças, mesmo com tantas outras ofertas de narrativas e até de outros meios de comunicação mais “modernos” que os livros (como as telas, por exemplo)…

Humor e subversão

E é justamente essa atualização que coloca em contato o passado e o presente de formas muito potentes. O humor e a subversão da história clássica são dois desses modos, que aparecem, por exemplo, nas duas obras que já citamos neste texto.

Em O lobinho bom, a expectativa de que o lobo é mau é subvertida, de cara. As crianças adoram!

Já a chapeuzinho de Alex T. Smith é descolada, antenada e muito mais esperta do que o leão! A história, além disso, é bem-humorada e trabalha muito bem como recursos visuais bastante irreverentes, como as onomatopeias e os balões de fala.

Como ler os clássicos e suas releituras e recontos

Será que é preciso ler as versões originais — ainda que adaptadas — para as crianças antes de apresentar as releituras que subvertem as versões clássicas?

Sim e não.

Para Celinha, complementa muito ler o original antes ou depois de ler a releitura. As crianças vão se divertir e gostar das obras baseadas nos clássicos, mesmo sem conhecer os clássicos.

Mas as releituras ficam muito mais interessantes quando os pequenos “pegam” as referências.

“Se, por um lado, não tem um prejuízo não ler, por outro, tem muito ganho se ler”, avalia Celinha. Ela lembra daquela deliciosa sensação de “uau!” que as crianças vão sentir ao descobrir, lendo o original, de onde vieram todas as referências que encontraram em outras versões.

Trouxemos aqui algumas dicas de leitura para esse tipo de obras, que podem dar um colorido novo por aí 😉

1) Comece com releituras e adaptações

Tanto Celinha quanto Ana Maria Machado defendem que o primeiro contato dos pequenos com essas obras pode ser a partir de um boa releitura.

Isso porque a linguagem dos originais é mesmo mais “difícil”, com situações, referências e palavras que não usamos mais em nosso contexto.

“Os contos de fadas originais têm abandono, violência”, explica Celinha. “Podemos deixar para as crianças maiores”.

Segundo ela, há boas versões e “releituras” dos clássicos, recontados por grandes escritores contemporâneos – ou mesmo por autores também eles clássicos, como Monteiro Lobato.

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2) Use outras linguagens

Até desenhos animados, lembra Celinha, fazem referências ao clássicos e podem ser um ponto de partida para recontar essas histórias às crianças menores. Há boas versões para cinema, teatro…

Uma das mais importantes companhias de teatro para crianças, a Cia. Le Plat du Jour, por exemplo, faz diversas versões bacanas e premiadas de contos clássicos, é uma especialidade deles. Conhece?

A trupe tem uma playlist em seu canal com a íntegra de várias obras inspiradas em contos de fadas, dá para assistir on-line e gratuitamente.

Abaixo, trouxemos uma delas, a Cinderela Lá lá lá:

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3) Conte oralmente também

Quanto mais você conhece o clássico, mais à vontade fica para escolher como e o que contar, quais partes dar ênfase e quais outras não evidenciar, como tratar de determinada passagem ou mesmo quais pontos não contar ainda.

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São dicas de um outro post, este aqui que deixamos aqui embaixo. Clica para ler na íntegra:

Como e por que ler os clássicos para e com as crianças?

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3 releituras para todas as idades

Além dos dois livros já citados neste post, trouxemos mais 3 boas opções. As duas primeiras são na medida para os leitores menores. A terceira já agrada mais os maiorzinhos.

1) Abra com cuidado

Autor: Nick Bromley
Ilustradora: Nicola O’Byrne
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Humor / Medo / Leitor personagem / Interatividade / Metalinguagem / Clássico recontado
Faixa Etária: A partir de 2 anos (leitura compartilhada / 6 anos (leitura independente)

Algo estranho está acontecendo no conto O patinho feio. Um crocodilo furioso surge de repente e começa a se intrometer na narrativa. As palavras, as frases e as páginas estão em perigo! O patinho vai precisar de toda ajuda possível para salvar a sua história. E você, leitor, terá de entrar em ação! O divertido Abra com cuidado! – em que um clássico é revirado, rasgado, mastigado – desafia o leitor a desbravá-lo, incentivando-o a enfrentar seus próprios medos.

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2) Os três lobinhos e o porco mau

Autora: Eugene Trivizas
Ilustradora: Helen Oxenbury
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Clássico recontado / Animais / Lobos / Superação / Medo / Amizade
Faixa Etária: A partir de 2 anos

Este livro inverte os conhecidos papéis do lobo mau e dos porquinhos: quem era caçador vira caça e vice-versa, mantendo o maniqueísmo de algumas histórias infantis, que simplesmente separam os personagens entre bons e maus, bobos e espertos.

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3) Os Bandeira-Pirata e o flautista bucaneiro

Autor / Ilustrador: Jonny Duddle
Tradutor: Alexandre Boide
Temas: Piratas / Clássico recontado / Aventura / Astúcia / Amizade
Faixa Etária: A partir de 8 anos

O flautista de Hamelin, narrativa popular recontada pelos irmãos Grimm, ganha uma versão pirata! No quarto livro da série “Os bandeira-pirata”, Mar-Nublado é tomada por ratos. Depois da visita de um enigmático flautista bucaneiro, o problema parece resolvido.

Mas, um problema muito maior deixa a cidade aflita: da noite para o dia, todas as crianças desaparecem! E Fofa, a gata de Matilda, parece ser a única a saber de seu paradeiro. Com humor, essa nova aventura pirata, ricamente ilustrada, prende a atenção do leitor da primeira à última página.

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E você? Que livros inspirados em contos de fadas têm lido por aí?

 

 


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