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“Oi, au-au” mostra a delicadeza das relações e dos olhares das crianças

24/01/2019

Quem já viu uma criança perto de qualquer animal sabe bem: os pequenos são fascinados pelos bichos, domésticos ou não. Pois a obra que indicamos hoje é sobre isso, sobre essa relação tão bonita, e também sobre o olhar das crianças sobre o mundo.

A história de Oi, au-au começa já na guarda do livro: ao abrir a obra, nos deparamos com imagens em uma única cor (tons de azul, no caso) mostrando diferentes perspectivas.

Guarda é a parte de trás das capas, logo antes de começar de fato o miolo do livro

 

O bacana de usar a guarda para contar parte da narrativa é enriquecer a obra com detalhes, que chamam nosso olhar, complementam o entendimento da história e que vão nos “treinando” para ler o livro ilustrado com cuidado, sem pressa, com “lupa” -sem perder nada, pois tudo pode estar querendo nos dizer alguma coisa.

Na guarda, um jornal nos conta que animas fugiram de um parque safári naquela manhã. E é nesta mesma manhã que Lili encontra um curioso “au-au”.

Repare nos olhares e expressões das personagens: Lili está felicíssima por encontrar um au-au, o que nos leva a imaginar que ela deseja um cachorro há tempos. Ou que pelo menos gosta muito deles. Já o urso, que buscava apenas algo para comer, olha para Lili confuso e surpreso.

O fato de Lili achar que um urso enorme é um “au-au” dá o tom de humor à obra, que diverte os pequenos. Quem chamaria um animal enorme desses pelo apelido fofo de “au-au”? É riso na certa.

Adoramos essa imagem aí acima, que é particularmente especial para a obra. O autor, Adam Stower, coloca Lili e o urso frente a frente. Note que, com poucos recursos gráficos, ele exprime toda uma ideia. Lili é pequena diante de um animal enorme que, obviamente, não é um cachorro. E é só a oposição entre os dois que deixa bem clara a enorme diferença de tamanho entre a garotinha e seu au-au.

É essa ilustra também que mostra bem de pertinho uma mudança no olhar do urso. Se, antes, ele estava desconfiado, agora, olhando a menina nos olhos, parece curioso e pleno de afeto. Começa aqui o vínculo entre ambos.

O urso vira o “au-au” de Lili. Mesmo bravo (primeira ilustra acima), ele não resiste ao convite dela e aceita a coleira (terceira, aqui no cantinho).

Um outro ponto interessante é reparar que o olhar da menina sobre o mundo, que a faz acreditar que um urso seja um cachorro, permeia e define a narrativa. Adam Stower assume esse ponto de vista infantil, transformador, criativo e que não vê empecilhos ou “objetividade” capazes de invalidar um sentimento, um desejo, um sonho.

O urso, ao aceitar esse papel de cãozinho fofo, parece sinalizar, na narrativa, que um olhar sensível e amoroso, cheio de afeto e desejo, como o das crianças, dá conta de refazer qualquer realidade (o que é realidade mesmo, afinal? Não tem muito de como vemos naquilo que vemos?).

E assim se dá essa relação: urso e Lili, juntos, passeiam, brincam, assaltam a geladeira… Mas o au-au “lindo e bobo”, como ela chama, esse au-au que “nunca obedece” igual os outros cachorros (prepare-se para mais risos com as cenas que ilustram essa constatação da menina), tem que ir embora.

O que acontece com ambos diante da volta do urso ao parque safári?

A história termina reafirmando os temas que parecem ser centrais: a relação das crianças com os animais e o olhar transformador (e por que não redentor?) delas sobre o que chamamos realidade. Ah, claro, com mais uma boa dose de humor para divertir pequenos e grandes leitores.

As tintas delicadas, de traços finos e elegantes do britânico Stower, mestre em ilustração narrativa, merecem atenção especial. A obra foi indicada a um importante prêmio inglês em 2012. Ele tem outro livro editado no Brasil pela Brinque-Book, que orbita tema parecido e dá uma sequência à história de Lili: Gatinho levado.

Oi, au-au é indicado para crianças a partir de 2 anos. As que estão em fase de alfabetização vão se interessar também, pois o livro é todo em letra-bastão, o que facilita a leitura autônoma.

Você já leu esse livro? Compartilhe com a gente sua experiência leitora nos comentários 😉


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