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Fábulas: conheça esse gênero e sua potência literária hoje

23/11/2020

O que são fábulas? Como trabalhá-las em sala de aula?

Esse potente tipo de narrativa, que remonta a períodos anteriores à Antiguidade Clássica, ainda segue atual. Por que será?

Nesta conversa com o premiado escritor Luiz Antonio Aguiar, pesquisador do tema e que escreveu o também premiado Esopo: liberdade para as fábulas, vamos tratar de todos esses temas.

As fábulas seguem atuais porque falam muito das contradições e da condição humanas. Imagem: Esopo – liberdade para as fábulas, de Luiz Antonio Aguiar (texto) e Márcia Széliga (ilustrações)

Leia, abaixo, os principais trechos do bate-papo:

Blog da Brinque: Como podemos definir “fábulas”? Que gênero é esse?

Luiz Antonio Aguiar: Uma definição é difícil , neste caso, porque há muita variedade, nas fábulas. Um gênero de histórias super curtas, em que entra a fantasia – muita fantasia – e que se relaciona diretamente à vida, ao cotidiano, a defeitos e vícios de uma sociedade, de certo tipo de pessoas.

É uma alegoria, no sentido em que representa diretamente algo que acontece e e/ou existe no mundo real.

É também um gênero milenar, sobre o qual não se tem conhecimento das origens, que podem estar nos primórdios da tradição de contar histórias, ao redor das fogueiras, algo anterior às cidades, ao sedentarismo humano, próprio talvez dos nômades e dos povos mais antigos.

BB: A gente sabe desde quando esse gênero existe? Podemos dizer, pensando em Esopo, por exemplo, que esse é um gênero originário da tradição oral?

Luiz Antonio: Não, ninguém sabe de quando remontam as fábulas. São bastante antigas, e talvez anteriores ao que se classifica como tradição oral, já que muitas pertencem a culturas que não chegaram até nós, não formaram uma tradição.

Mas, sem dúvida, a tradição oral é filha das fábulas. Nasceu desse costume, desse rito, de passar histórias de uma geração para a outra.

BB: No livro Esopo: liberdade para as fábulas, você conta um pouco do que se sabe sobre a vida de Esopo: como foi fazer essa pesquisa?

Luiz Antonio: Foi uma pesquisa que se baseou acima de tudo em lendas, em tradições, já que não há nem sequer certeza se Esopo existiu, de fato. Não há uma biografia fiel sobre ele, embora haja ricos escritos, alguns apócrifos. E além disso [meu livro] é uma biografia ficcional, quer dizer, há um Esopo criado para este livro, por mim.

Mediação: deixa as crianças se divertirem com a fábula e evite a moral da história. Imagem: Esopo – liberdade para as fábulas, de Luiz Antonio Aguiar (texto) e Márcia Széliga (ilustrações)

BB: Esopo, assim como outros escritores gregos, Homero, por exemplo, pode nem ter existido; pode ser uma coletivo de pessoas e não exatamente uma pessoa. Como era a produção da literatura naquele época? Por que não é possível afirmar a existência desses escritores?

Luiz Antonio: Segundo estimativas, doze séculos nos separam de Homero, e oito, de Esopo. O tempo faz perder registros, levanta dúvidas sobre pessoas, que podem ter sido personagens.

Até sobre Shakespeare, bem mais recente, há essas mesmas dúvidas.

No entanto, Aristóteles e Heródoto afirmar sem dúvidas que Homero existiu. Sobre Esopo há menos comentários, menos testemunhos, praticamente nada. Portanto, não há certeza de que existiram.

BB: Então o que faz crer que eles existiram?

Luiz Antonio: Há a obra, uma certa unidade temática, estilística, além de outras, visíveis ao estudo da Literatura, que nos permite pensar que alguém, tenha se chamado como for, criou essas histórias, ou lhes deu um conteúdo , no caso de Esopo, político, crítico de uma Grécia que discriminava os escravos, os não-patrícios e as mulheres (embora neste último tema, a evocação de Esopo seja mais sutil).

As histórias eram criadas para declamação oral, e o rapsodo ou aedo ou o contador de histórias, no caso de Esopo, percorria as cidades, trocando sua arte, em troca de abrigo e comida.

Eram quase mendicantes. Homero foi um aedo mendicante. Esopo também. Se existiram…

BB: As fábulas foram escritas por alguém na época de Esopo ou só muito tempo depois?

Luiz Antonio: Elas foram colocadas por escrito na Biblioteca de Alexandria, no século III a.C., ou seja, dois séculos depois de quando Esopo teria vivido. Por todo esse tempo, circularam livremente, ao sabor das mudanças da narração oral.

BB: Por que as fábulas seguem atuais até os dias de hoje?

Creio que principalmente por caso de seu conteúdo crítico, nos costumes e na questão política. Aquele que usa do seu poder contra o mais fraco é criticado. O mesquinho é criticado. O malicioso, o enganador. São tipos universais e problemas universais.

BB: Como, na sua opinião, o adulto deve mediar a leitura das fábulas para as crianças dos anos 2010, 2020?

Essa história de “mediar”  é complicada.

O adulto, para mim, deve ler as fábulas, se possível sem a moral da história que a empobrece e parece um apêndice colocado posteriormente, contrabandeado para as fábulas – pelo menos pela análise do equilíbrio literário do texto.

Então, que o adulto leia, que a criança se divirta, sem maiores explicações.

As fábulas podem ser encenadas, podem virar brincadeira entre pais e filhos, avós e netos.

Que deixem a interpretação pra lá!

///

E você? Conhece as fábulas? Como tem lido para as crianças?


Comments ( 2 )

  • BOM DIA LUIZ ANTÔNIO, PUXA VIDA! NÃO SABIA QUE ESSE GÊNERO ERA TÃO ANTIGO! LECIONO PARA CRIANÇA DE 8 ANOS, QUANDO LEIO FÁBULA SÓ ABRO PARA QUESTIONAMENTOS SOBRE O ASSUNTO DA MESMA QUANDO AS CRIANÇAS SE INTERESSAM, MINHA DÚVIDA É: SERÁ QUE ESTOU PROCEDENDO CORRETAMENTE?

    • oi, Cleide, tudo bem? Bacana essa conversa com o Luiz, né? Vou mandar sua dúvida para o autor. Se quiser, conte mais da sua prática para a gente! É sempre bacana quando os educadores compartilham as experiências. Abraços!

      Natalie Catuogno, editora do Blog da Brinque

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