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Ionit Zilberman: invento de ilustrar com o que não sei, daí aprendo

04/05/2018

Ionit Zilberman, 46, sempre gostou de desenhar. Chegava da escola e já ia desenhando ali pelo chão mesmo. Também conta que tinha o hábito de desenhar músicas… Mas o sonho de se tornar ilustradora só se tornou mais concreto quando, durante a faculdade de Artes Plásticas, começou a estagiar na Livraria Klaxon. Mais tarde, ainda escreveria dois livros com o dono da loja.

Muito antes de experimentar tintas, Ionit experimentou outras viagens. Nascida em Israel, emigrou para o Brasil aos 6 anos. As três irmãs mais velhas ficaram lá, Ionit veio com a mãe e o pai, húngaro sobrevivente do Holocausto, que tinha família por aqui. Foi ele que apresentou a ela, ainda criança, uma Polaroide. Ela lembra de bater a pose e ficar segurando o papel na mão, esperando a “mágica acontecer”, como dizia o pai. A mágica, ela conta, ainda acontece quando ela transforma o que a inspira em incríveis narrativas.

Interessada em sempre variar técnicas e aprender com esses desafios, a sensibilidade de Ionit se revela não apenas em seus mais de 40 livros ilustrados, mas também nos detalhes, nas pequenas delicadezas que ela vai compartilhando com a gente nesse bate-papo. Seu livro preferido da infância, por exemplo, hoje ela lê para a mãe, leitora voraz que sofre de Alzheimer, desejando devolver-lhe o prazer com os livros.

Primeiro projeto literário da ilustradora, pra faculdade / Foto: Ionit Zilberman

Quem é você?
Eu…mulher, estrangeira, ilustradora de livros, chorona, cinéfila, que não vive sem música, que faz listas de coisas que gosta e que não gosta e manda pros amigos convidando pra brincar, que gosta de cozinhar e de comer e que não gosta de gente que grita ou que não escuta… assim, só pra começar.

Desenhar, pra mim, é um fazer íntimo

 

Quem faz livros é o quê?
Pode ser muitas coisas: escritor, ilustrador, editor, contador de histórias… livros são feitos de muitos jeitos, por muitas pessoas.

Mesa de trabalho / Foto: Ionit Zilberman

Como é o lugar em que você trabalha?
Minha mesa é uma bagunça! Um amontoado de coisas onde eu quase peço licença pra ocupar um espaço. Atualmente, de tanta coisa que tenho – entre ilustrações de 47 livros feitos e materiais de todo tipo -, acabei vindo trabalhar na mesa da sala, onde fico de frente pra uma janela e de onde vejo a cidade sem nenhum prédio na frente. Se trabalho com tecido, uma parte do trabalho acontece na tábua de passar, que fica aberta no meio da sala, até terminar.

Já costurei tecido e papel, já fiz aguada, já construi objetos de papelão. Se usasse sempre as mesmas técnicas, morreria de tédio

 

Quais são suas técnicas prediletas para desenhar, escrever, ilustrar e imaginar?
Para mim, desenhar e ilustrar é quase a mesma coisa. Talvez meu trabalho seja uma desculpa pra desenhar…

Não sou do tipo que desenha todo dia, toda hora, nem em mesa de bar, nem na rua ou na frente de outras pessoas. Desenhar, pra mim, é um fazer íntimo, se é que se pode dizer assim.

Não sei se tenho técnica predileta. Gosto mesmo é de explorar novos materiais. Invento de ilustrar com aquilo que não sei como funciona, daí aprendo.

Fiz um livro pintado em madeira sem nunca ter pintado madeira, fui perguntando e experimentando. Aprendi que precisa pintar primeiro com algumas camadas de gesso, pra depois pintar com tinta. A técnica que talvez domine melhor é a pintura com acrílica, mas muitas vezes misturo com colagem também.

Em um dos últimos livros que ilustrei, resolvi pintar em tecido, pois a história tinha a ver com o material (“Com que roupa irei para a festa do rei?”) e, mais uma vez, aprendi no processo como lidar com o material. Já costurei tecido e papel, já fiz aguada, já construi objetos de papelão. Se usasse sempre as mesmas técnicas, morreria de tédio.

De tempos em tempos, eu enjoo do meu trabalho e entro em crise, começo a procurar outras linguagens. Acho que, no fim das contas, é bom pra mim assim, estar sempre buscando. Escrever acaba sendo parte desse processo.

Como é que você tem uma ideia para escrever ou desenhar? E como tira ela da cabeça e coloca no papel?
Não tem um jeito só. Tudo o que olho, ouço, experimento acaba virando ideia: filmes, músicas, textos, fotos, livros ilustrados, frases, conversas… Leio um texto muitas vezes e, da repetição, surgem diferentes ideias. Daí, uma hora, parece que acende uma luz dentro [de mim] e eu começo a escrever, depois a rabiscar. Muitas vezes as ideias que, na hora, pareciam incríveis, no pro papel parecem bobas, daí vêm outras ocupar seu lugar.

Eu fiquei pensando: “como é que a gente desenha o medo”?

 

Qual foi a ideia mais brincante que você teve e que virou livro?
“Dentro deste livro moram dois crocodilos”, escrito pela Cláudia Souza, publicado pela Callis. O livro fala sobre o medo, e eu fiquei pensando: “como é que a gente desenha o medo”? Fiz então os personagens de papelão, uma cama de caixa de ovos e esponja de lavar louça; travesseiro e lençol costurados de verdade, tv feita de papelão e botões.

Costurei tapete, fiz um mar de papel de seda e celofane, pendurei as nuvens com fio de náilon e, com a ajuda do Gustavo Ferri, meu amigo e fotógrafo, montamos cenários na minha mesa de trabalho, e ele fotografou.

Os crocodilos, o maior medo do personagem, eram recortes de papel que, com ajuda de uma luz, viravam sombras. Essa ideia nasceu em um dia em que eu estava trabalhando no computador e vi, na parede, a sombra de um inseto que parecia um tiranossauro rex. Medo!

Quando virei pra olhar, era um insetozinho de nada, inofensivo. Pensei: ‘ah, é isso que o medo faz: deixa as coisas bem maiores do que elas realmente são.’

“Medo é quando as coisas parecem maiores do que são” / Foto: Ionit Zilberman

Seus lápis e cadernos brincam com você?
Nunca pensei nisso, mas é uma imagem bonita! O que sinto é que os desenhos têm vida própria. Que você começa e depois eles fazem o que eles querem… Uma hora acontece o que eu chamo de ‘hocus pocus’, uma coisa que parece quase mágica, como as fotos da polaroide do meu pai.

Quando não tem ninguém olhando, do que você brinca? E quando tem alguém olhando?Gosto de experimentar roupas no espelho, principalmente vestidos, de observar outras pessoas conversando, de assistir filmes parando muitas vezes no meio, assim demora pra acabar. Gosto de ouvir uma música milhares de vezes, até enjoar. Quando era pequena, gostava de brincar de desenhar música. Acho que, de alguma forma, ainda brinco disso até hoje, só que diferente.

Em que momento, lugar, clima, hora do dia ou posição você mais gosta de ler, escrever ou desenhar?
Prefiro desenhar à noite, que é mais silencioso, e os pensamentos fluem melhor. Os sentimentos também. Quando eu era adolescente, lembro de chegar da escola e ir direto desenhar, sentada no chão.

Hoje desenho na mesa mesmo.

Uma hora acontece o que eu chamo de ‘hocus pocus’, uma coisa que parece quase mágica, como as fotos da polaroide do meu pai

 

O que você mais gostava de ler quando criança? Mudou muito para os dias de hoje?
Meu livro preferido da infância era A árvore generosa [um clássico do norteamericano Shel Silverstein]. Acho que ainda é. Outro dia, li para minha mãe, que tem alzheimer e que já não tem conseguido ler livros de adultos. Ela era uma leitora voraz, e eu pensei que ler histórias mais curtas pra ela poderia trazer de volta esse prazer que tinha na leitura.

Os outros preferidos são livros em hebraico que nunca vi traduzidos por aqui. Um deles são histórias de gigantes que minha irmã mandou de israel pra mim junto com uma fita k7, onde ela contava as histórias com as vozes dos personagens. Tenho a fita até hoje, e o livro também. Continuo gostando muito de livros ilustrados, mas hoje tenho um repertório maior (vontade de fazer uma lista dos preferidos, rs). A esses livros, juntaram-se outros que são só de texto.


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