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Heloisa Prieto, uma guardiã das histórias

29/03/2017

Doutora em literatura francesa pela USP e mestra em semiótica pela PUC-SP, Heloisa Prieto tem 75 obras de ficção – várias delas adaptadas para o cinema, teatro e televisão – e 25 anos de experiência com oficinas de criação literária em diferentes instituições.

Nascida do encontro de uma família baiana com imigrantes espanhóis, Heloisa cresceu rodeada por contadores de histórias e amigos de outras partes do mundo, influências e repertórios. Antes de ser autora, foi professora na Escola da Vila, em São Paulo, para onde levara muitas histórias de fantasmas – que as crianças amavam – e que deram origem a suas outras formas de pesquisa literária.

“Guardião da Floresta, e Outras Histórias Que Você já Conhece” é seu novo lançamento pela Brinque-Book. Ilustrado por Laurabeatriz, responsável por trazer a ideia do livro, traz contos populares como Chapeuzinho Vermelho e O Gato de Botas, somente para citar alguns, ressignificados na interpretação da autora, que acredita que, ao abrirmos espaço para a criança ingressar na roda de histórias milenar, estamos oferecendo possibilidades para que muitas infâncias sejam compartilhadas, de formas individual e coletiva.

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Como tudo como tudo começou, como nasceu a ideia para esse livro?

A ideia original do projeto foi de Laurabeatriz. Ela disse que seu sonho seria ilustrar os contos tradicionais e me convidou para escrever os textos. Passou aqui em casa e deixou uma edição antiga pela qual tinha enorme carinho. Mas quando parei para pensar de que modo eu contaria essas histórias hoje, percebi que desejava ressignificá-las.

Eu vinha de um longo estudo sobre narrativas orientais, fábulas conhecidas como Koans, os contos de sabedoria. Não são narrativas de superação e vitória, mas que apontam para os enigmas da vida de modo bem-humorado e, ao mesmo tempo, profundo.

Criar um espaço de indagação é mais importante do que responder a necessidade de um final fechado no “felizes para sempre”. Não se trata em absoluto do politicamente correto, pois o koan oriental sempre respeita a verdadeira natureza das coisas.

Ou seja, no caso da Chapeuzinho vermelho, que abre a antologia, a máxima “um lobo é sempre um lobo”, na verdade um provérbio francês, é fundamental. Mas o título não se reporta apenas ao guarda florestal, que substitui a figura do antigo caçador. A floresta pode ser interpretada como a imaginação que deve ser protegida por um guardião, o narrador.

As ilustrações enriquecem as novas narrativas. Conta um pouquinho como foi o processo criativo nesse laço entre texto e imagem.

Assim que Laura leu o primeiro conto, escreveu feliz, parabenizando. E eu fiquei muito contente, lógico, pois a tarefa de realizar o sonho de uma amiga tão querida não é fácil. Moramos no mesmo bairro, então trocávamos figurinhas o tempo todo, sempre com o incentivo de Thereza Almeida, responsável pelo projeto gráfico. Foi uma delícia, mesmo.

Estão ali algumas histórias conhecidas mundialmente, entre tantos outros contos populares existentes. De onde partiu a seleção que vemos no livro?

A seleção inicial foi feita por Laura e eu. Laura dizia quais histórias mais lhe traziam imagens internas e eu propunha minhas preferidas. O processo criativo contou também com a maravilhosa interlocução de Suzana [editora da Brinque-Book]. Ela não apenas propôs histórias, como o Gato de Botas, como acompanhou a escritura de alguns contos fazendo questionamentos e sugestões fundamentais. Eu me sentia, na verdade, como se estivesse numa roda de histórias da qual todos participavam com entusiasmo.

Quais os desafios de escrever histórias que já foram escritas milhares de vezes, e interpretadas de maneiras tão diversas?

Quando menina, tive uma avó adotiva japonesa, a senhora Toyoko Harada. Ela perdeu a família ao vir do Japão, de navio, e fazendo amizade forte com minha mãe, acabou vindo morar conosco. Sua influência em toda minha infância foi muito grande. Portanto, ao usar a estrutura oriental para narrar contos tradicionais da Europa, tentei criar uma terceira fronteira, além das dualidades, como na filosofia zen. A senhora Harada tinha um senso de humor inesperado que sempre causava espanto. Tentei imprimir um pouco desse tom nesses recontos.

De que forma os leitores podem manter viva essa roda de história, esse prazer em recontar, ler e ouvir os contos e acrescentar a eles novas interpretações?

Durante a Idade Média, não havia o conceito de autoria. A cada performance, o contador de histórias se tornava dono da narrativa. A cada conto, o seu dono. Para manter viva a tradição, basta narrar.

O escritor Milton Hatoum certa vez definiu Sherazade, a contadora de histórias de Mil e Uma Noites, como aquela que narra para não morrer. E essa morte não é apenas a física, como também a morte da sensibilidade, da imaginação e capacidade de recriar-se.

Mas a escuta é tão importante quanto a narrativa. Não só gerar situações de transmissão, como narrar para os filhos, amigos, alunos, como também para si mesmo e tentar ouvir a própria voz e todos os pequenos segredos que ela imprime, cada vez que dizemos uma história de nossa maneira.

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Pensando ainda sobre as novas e possíveis interpretações, quais possibilidades os educadores e bibliotecários encontram nesse livro?

O subtítulo, “Histórias que você já conhece”, aponta para um jogo narrativo.

Localizar os personagens, buscar as versões tradicionais, as mais contemporâneas, não apenas nos livros, como também em filmes e desenhos animados.

Compartilhar o que cada versão prioriza e traz de novidade, principalmente, potencializar a invenção de novas versões.

Os jogos criativos podem contemplar leituras compartilhadas, pesquisa, atividades de reconto e invenção, não apenas enquanto texto literário, mas também texto dramático e roteiros.

Para as crianças, qual a importância dos contos populares ou contos de fada na leitura feita em sala de aula, nos projetos literários e pedagógicos que acontecem guiados por mediadores e compartilhados com colegas?

Quem conta um conto um ponto, aumenta um conto. Quando se abre espaço para que uma criança ingresse na roda de histórias milenar, é como se houvesse a possibilidade de sentir-se uma criança do mundo, compartilhadora de outras infâncias, e, ao mesmo tempo, de ser única, com sua maneira pessoal e intransferível de narrar a partir de um mesmo estímulo narrativo.

Além de todos as camadas de significados dos contos de fadas já estudados por inúmeros pensadores, educadores, psicólogos, filósofos, e outros, narrar contos milenares é uma forma de expressar-se em linguagem de sonho. Uma linguagem além de fronteiras, como o mundo real e o mundo imaginário, dualidades – pois tudo se transforma num conto de fadas. E o mais importante: divertir-se por meio de aprendizados profundos.

Qual o papel dos contos na sua infância e também na sua vida adulta? E que lugar eles ocupam no seu repertório como escritora?

Sempre li e ouvi contos de fadas. Ganhei muitos livros quando menina, adorava a obra de Andersen, dos irmãos Grimm, mas também pude ouvir narrativas orais afro-brasileiras e sertanejas, durante os tempos na fazenda de meu avô baiano, orientais, devido a convivência com a senhora Harada, inglesas e alemãs, com meus vizinhos, pois morava num bairro com muitos imigrantes, espanholas, por meio de minha bisavó paterna, Maria Santiago.

Gosto mais de escutar e ler do que falar e escrever, na verdade. Minha escrita surge do desejo de compartilhar narrativas e descobertas recebidas, como se eu me tornasse um elo na roda de histórias atemporal, ou uma página da biblioteca infinita, segundo a linda metáfora de Jorge Luis Borges, um de meus autores mais queridos.

Os contos populares não envelhecem. Clássicos são lembrados, lidos e recontados constantemente. Na sua opinião, a que se deve esse sucesso?

Existem inúmeros estudos sobre as estruturas narrativas e sua capacidade de emitir novos significados, de reinventar-se. Gosto muito da visão de um teórico russo, chamado Mikhail Bakthin, que fala do tempo de aventuras, surgido do cruzamento do “de repente e justamente”, uma espécie de jogo do destino, no qual se rompe o curso normal dos acontecimentos. “O verdadeiro homem de aventuras é o homem do acaso”, ele afirma.

Todo conto de fadas se inicia com uma criança lançada num espaço de perda e desorientação. Mesmo no caso de Chapeuzinho, que não é órfã, como João e Maria, ou Cinderela, a tarefa de levar um lanche a sua avó doente, (a doença da avó contém o prenúncio de uma perda afetiva), atravessando uma floresta escura, constitui-se como um desafio acima de suas capacidades.

Uma criança assustada com a doença, enviada a uma travessia solitária que pode conter uma ameaça de morte (o lobo), dificilmente obedeceria às instruções da mãe. Na hora da angústia, ninguém obedece a nada. Essas unidades narrativas aparentemente tão simples, continuam eternamente emblemáticas, daí sua permanência na memória cultural.

Para concluir, por que devemos ler contos populares com ou para as crianças?

Para formarmos a tríade, definida por Daniel Pennac, e aqui acrescento o adjetivo, tríade mágica: leitor, livro, ouvinte.

E também fazer como tão bem dizia nossa querida Tatiana Belinky, adentrar na maior de todas as aventuras possíveis, “abrir um livro e tirar de dentro dele uma história”.

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