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Entrevista exclusiva com André Neves: “Aprendemos a ler primeiro por imagens, depois por palavras.”

08/05/2018

O autor e ilustrador pernambucano André Neves está lançando seu mais novo livro pela Brinque-Book, Manu e Mila. A história conta, com uma delicadeza encantadora, sobre dois amigos e suas diferentes perspectivas sobre a felicidade. Ela se acha em horinhas de descuido, como dizia Guimarães Rosa? Ou esconde-se em momentos grandiosos? Cada um deles tinha uma ideia. E, juntos, empreenderam uma viagem em um jardim repleto de pequenas e grandes coisas.

Reconhecido e premiado no Brasil e no mundo, o autor de Obax Entre Nuvens, ganhador do Jabuti, já trabalho exposto em mostras de ilustrações em diversos países. Na próxima semana, a convite da Brinque-Book, ele estará em São Paulo e Sorocaba conversando com professores, educadores, pesquisadores e interessados sobre livros para a infância, acervo e o olhar – três eventos são gratuitos e abertos ao público, então corra para fazer a inscrição.

Na entrevista que concedeu por e-mail ao Blog da Brinque, André fala sobre arte, literatura, sonhos, formação leitora na infância e na escola. E, ainda, sobre o papel dos livros: “Os livros literários não têm ‘papel didático’. Qualquer livro planejado com essa finalidade, a meu ver, perde-se com o tempo, enfraquece ou morre. Nenhum escritor literário escreve para função didática.”

“Manu e Mila” / André Neves (texto e ilustrações)

Você é leitor desde a infância? Tornou-se leitor mais velho? Como é a sua história com os livros e sua formação leitora?
Sou leitor desde criança. A leitura escolar era fraca, mas os livros, que não eram muitos, estavam presentes em casa nas mãos de avós, pais e irmãos. Minha identidade artística apresentou-se desde pequeno também, e ler coisas relacionadas à arte tornou-se frequente. Natural de Recife, cultura rica em manifestações cotidianas, não foi difícil dialogar com a cidade, seus rios e seus poetas.

Parece que nunca se editou tanta literatura para crianças e jovens no Brasil. As crianças estão lendo mais? E como você avalia a produção literária para os pequenos leitores?
Mais de 20 anos de profissão, não posso negar que vejo avanços. Sim, as crianças leem mais. Porém, desconfio que o crescimento editorial neste campo tenha outras razões. Existe um nicho de mercado comercial que enfraquece o ler e a literatura. Claro, fazer livros é um negócio. Profissionais e artistas precisam viver. Mas poucos mantêm-se com as intenções de qualidade como primeiro plano.

Ah, não posso deixar de citar que esses avanços hoje sofrem retrocessos diante das circunstâncias políticas atuais no Brasil. Só para deixar claro, falo de agora, maio de 2018. Tenho medo!

A formação leitora ainda acontece majoritariamente nas escolas. Como você avalia isso?
Sim, cada vez mais. Infelizmente. Assim como [acontece no caso da] leitura, a escola também é responsável por grande parte da educação de formação. As famílias deveriam educar e a escola reforçar. Esse papel foi invertido já faz algum tempo e [esse ponto] cresce.

O melhor é quando o mediador sabe que precisa ser sensibilizado para depois sensibilizar

 

Os livros que têm um papel mais didático – seja porque foram planejados assim ou porque são “didatizados” nas escolas – em geral conseguem tocar a sensibilidade das crianças e ajudar a formação do leitor literário?
Os livros literários não têm “papel didático”. Qualquer livro planejado com essa finalidade, a meu ver, perde-se com o tempo, enfraquece ou morre. Nenhum escritor literário escreve para função didática. Os “temas” é que são procurados e “didatizados” pelo sistema escolar. Por má preparação do professor, geralmente por não ser bom leitor. Porém, já vi – e é muito comum -, professores leitores se perderem. Usam a literatura para formar conteúdo. Ou a transformam em conteúdo.

Claro que toda história quer falar sobre alguma coisa. Mas bons leitores percebem quando um livro foi criado por um sentimento maior, e mesmo carregado de técnicas ou busca de aperfeiçoamento, o literário esta ali. A arte literária é uma das mais difíceis de compreender, de sentir.

O melhor é quando o mediador sabe que precisa ser sensibilizado para depois sensibilizar. Penso que isso acontece por inteiro, de forma completa, com bons livros. Quando o mediador se encanta por aquilo que leu, quando pesquisa, traz novidades para si e seus leitores.

Livros literários libertam

 

Para alguns educadores, a poesia, a arte, o corpo, o contato com a natureza ajudam as crianças a produzir pensamentos muito mais complexos que uma educação baseada apenas em lógica e no uso das expressões como racionalidade. Como você vê as possibilidades da literatura para crianças nesse campo do pensamento, da construção de um pensar mais complexo, crítico, empático?
Livros literários libertam. Não apontam o que é certo ou errado. Apenas questionam; então o pensamento leitor, sozinho e concentrado, pode elaborar vivências passadas, presentes e futuras. Literatura é a melhor foram de compreender-se humano sem a interferência de ninguém. Esse é também um dos problemas em relação a uma formação leitora, já que vivemos em um mundo contemporâneo onde os humanos não compreendem sentir solidão. O mundo virtual leva a comunicação a qualquer lugar do mundo. Podemos ver, ouvir, falar, nos conectarmos onde essa rede nos levar.

Agora, compreender essa “solidão acompanhada” que a leitura proporciona é complicado. O tempo para ler não existe, diminui dia a dia. Estar consigo mesmo é cada vez mais difícil, mas a leitura certamente é a melhor forma de nos entendermos e de respeitarmos o entendimento dos outros.

Um dos seus cursos trata justamente da literatura infantil e da incrível profundidade do acervo de livro ilustrado de que dispomos atualmente, o tipo de pensamento que ele pode favorecer. Que reflexões você propõe nessa conversa?
A descoberta diante desse mundo amplo. Que livros para crianças são diferentes de livros para a infância. Livros para a infância tocam o coração leitor em qualquer idade. Mas aquilo que eu leio, aquilo que eu mostro ou indico, é pouco. Entendo literatura como arte. E a arte que toca em mim pode não tocar o outro. A arte é única em cada um. Porém, perceber qualidade e não desmerecê-la é um amadurecimento que vem com a experiência leitora.

Trato minhas realidades com fantasia. Assim tudo fica mais leve, poético e divertido.

 

Você também vai falar da leitura das imagens – não apenas das palavras – e como essa leitura revela o que está dentro de cada um. As imagens têm mais diálogo com aquilo que a gente vai se formando do que as palavras?
Claro. Aprendemos a ler primeiro por imagens do que por palavras. Um leitor aprende primeiro a ver para depois compreender por palavras aquilo que viu. O mundo contemporâneo é visual e cada vez mais precisamos aprender esse código para entendermos melhor onde e como vivemos.

“Manu e Mila” / André Neves (texto e ilustração)

É uma pergunta que todo mundo faz, mas talvez porque não dê mesmo para fugir dela, queremos saber: você pode contar um pouco do seu processo criativo e de trabalho? O que inspira você? Como essas inspirações vão se concretizando? De que forma você escolhe as técnicas (ou elas escolhem você)?
A inspiração daquilo que faço vem diretamente das coisas que acontecem comigo. Apenas uso fantasia para modificá-las. Algo que ouvi, vi, presenciei, experimentei ou brinquei. Às vezes, nem percebo quando acontece. O fato é que cedo ou tarde isso vem à tona e se transforma em história. A realidade é algo chato demais para recontar. Então, trato minhas realidades com fantasia. Assim tudo fica mais leve, poético e divertido.

Literatura, pra mim, é sonho.

E a técnica naturalmente se manifesta para aquilo que estou sonhando. Porque técnica é apenas técnica. As minhas formas, volumes, texturas e cores são técnicas com as quais me sinto confortável para pintar, contar. Até com uma linha podemos contar uma boa história, basta ela aparecer. Por isso, o mais importante é o que os leitores não sabem. O melhor de fazer livros ilustrados não são propriamente as técnicas plásticas das minhas ilustrações. A parte mais gostosa de criar é a anterior. Conceber um início, um meio e um fim com uma insatisfação constante para tentar melhorar algo que não existe. Uma busca constante que me fará mudar e mudar.  Será sempre assim enquanto eu estiver neste mundo. Porque a arte é eterna, e eu sou apenas sonho.

Literatura, pra mim, é sonho.

 

Manu e Mila. Uma história sobre as diferentes formas de ver a beleza do mundo, aquilo que nos faz feliz. De onde partiu essa inspiração? Acredita que, na vida, o outro seja sempre um guia pra nos mostrar novos caminhos? Aprendemos e construímos nossas relações dentro do que somos e do que convivemos com as demais pessoas? Seus livros sempre têm alguém de importante que dá as mãos a outro personagem, certo?
Manu e Mila não foi diferente do que relatei acima. Aconteceu de verdade. Uma história ouvida por mim e sentida por amigos. Apenas transpus com fantasia na infância, para um jardim, para uma brincadeira, para felicidade. Momentos de aprendizados e descobertas, porque de mãos dadas podemos respeitar a alegria na forma que cada um a enxerga.

 


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