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Crianças e histórias: folclore e oralidade na formação leitora em sala

17/08/2020

No mês do folclore, você já parou para pensar sobre a tradição oral e popular brasileira e seu papel para a formação de pequenos e jovens que leem?

A contista e romancista Ivana de Arruda Leite, mestre em Sociologia, teve a sorte de encontrar, na sua infância, a tia Augusta. Tia Augusta contava para ela narrativas, “causos”, histórias; da tradição oral, do folclore, das memórias coletivas do povo, do País.

A escritora Ivana de Arruda Leite: “a narrativa oral incentiva a leitura”. Foto: Divulgação / Edson Kumasaka

Assim, nascia ali uma apaixonada pelas letras e pela Cultura, que, na escola, formou-se leitora. Ivana já contou que sua família não era muito de ler e que, portanto, foi nas aulas e nas leituras do colégio que descobriu o prazer dos livros.

De lá para cá, a paulista nascida em Araçatuba, que se mudou para a capital aos 7 anos, formou-se, foi trabalhar como Assistente Social na Prefeitura de São Paulo, descobriu o dom da escrita, escreveu e publicou dezenas de contos e livros, foi indicada ao Prêmio Jabuti e não para de produzir lindezas.

Ela, que é autora de Diomira e o coronel Carrerão – A Sherazade do Sertão, conversou com o Blog da Brinque sobre escola e leitura, oralidade em sala de aula — será que isso forma leitores? –, folclore e o poder da literatura na educação.

Veja abaixo os principais trechos dessa bate-papo:

Blog da Brinque: Você conta, logo no comecinho de Diomira e o Coronel Carrerão – a Sherazade do Sertão, que sua tia Augusta foi quem mostrou as histórias para você, contando essas narrativas oralmente. Tanto em Diomira quanto nas Mil e uma noites há uma bonita defesa das narrativas e da oralidade. Você acha que as histórias orais e mesmo a narrativa oral de livros (seja em casa, seja na escola) formam leitores da palavra escrita?

Ivana de Arruda Leite: A narrativa oral incentiva sim a leitura. Quanto mais próximos os livros forem dessa oralidade, mais cativantes eles se tornam, justamente pela familiaridade que as crianças têm com a história narrada por alguém.

Acho a oralidade a porta de entrada para os livros.

Crianças adoram ouvir histórias! Mesmo a Matemática fica mais interessante com a oralidade, diz Ivana. Imagem: Diomira e o coronel Carrerão – A Sherazade do Sertão, de Ivana de Arruda Leite (texto) e Fê (ilustrações)

BB: Pensando no (a) professor (a) em sala, o foco da formação leitora geralmente é no livro, que obviamente é importante. Mas, às vezes, os educadores deixam de lado o ler junto, o contar histórias orais, o ouvir histórias trazidas pelas crianças, a mediação de leitura, o prazer de compartilhar uma boa história. Na sua opinião, isso faz falta em sala de aula, faz falta na formação leitora dessas crianças?

Ivana: Acho sim que faz falta a leitura de histórias em sala de aula.

As crianças gostam muito dessa atividade — acho que os professores poderiam explorar bem mais, porque é um atrativo para todas as disciplinas. Acho que até a matemática tem a sua oralidade e se torna mais atrativa quando contada com o sabor de uma história… Quanto mais a geografia, biologia…

Agora, a literatura [ou a língua portuguesa] acho que se presta de um modo muito especial para ser esse veículo de aproximação entre o professor e o aluno e entre os próprios alunos.

BB: Há uma ideia de que as tradições orais são, muitas vezes, aquelas histórias que carregam o mais essencial das culturas que formam um povo. Faz sentido essa afirmação. Por quê?

Ivana: Acho que as tradições orais são uma das formas através das quais a cultura é transmitida de uma geração para a outra.

Não é a única nem exclusiva, mas é uma das principais. E isso lá desde os tempos imemoriais até hoje, porque ela se livra de vínculos que são a escrita, a materialidade e, com isso, se torna mais fluida e mais perene e abstrata e constante, justamente por não estar vinculada à materialidade das coisas.

A tradição oral é um precioso receptáculo de saberes; [é um receptáculo] de tudo de um povo, não só das histórias, mas de tudo desse povo.

BB: Muitas vezes, é o professor que apresenta repertórios variados para as crianças. É — ou poderia ser — na escola em que as crianças podem ter contato com o diferente e o coletivo. Que inspirações você deixaria para o professor nesse sentido? Onde buscar histórias, culturas, manifestações culturais que não sejam sempre as óbvias?

Ivana: Não conheço bibliografia sobre histórias da tradução oral, mas deve ter estudos aprofundados com dicas melhores das que eu daria.

“Manancial para se abastecer de histórias orais é que não falta”_

 

Acho que pegar os próprios livros infantis de outras nacionalidades é uma fonte muito rica. Quando eu era criança, ganhava muitos livros de histórias da tradição russa, histórias da tradição norueguesa. E tinha uns contos, uns contos de fada, muito diferentes dos que eu costumava ouvir, com outros personagens, outras paisagens, outros bichos, muito diferentes… e isso me encantava muito.

Então, uma sugestão é essa. Pesquisem outras tradições. As indígenas têm histórias maravilhosas.. Tradições da África, dos Orixás… Manancial para se abastecer de histórias orais é que não falta.

BB: Qual é a importância de a escola oferecer acesso a uma diversidade cultural, diversidade de narrativas, imaginários, trazer a cultura dita popular e as narrativas orais para a sala de aula?

Ivana: Acho da maior importância a escola oferecer acesso a essa diversidade cultural e a essas diferentes narrativas, de diferentes tempos históricos, desde as primeiras narrativas, na Idade Média — e até antes: a Bíblia, por exemplo, tem umas historias muito interessantes e assustadoras e que interessam muito às crianças.

As histórias “salvam” o coronel de sua rabugice e de sua solidão. Bonito, né? Imagem:Diomira e o coronel Carrerão – A Sherazade do sertão, de Ivana de Arruda Leite (texto) e Fê (ilustrações)

Isso [a diversidade] só amplia a capacidade imaginativa, o vocabulário, a imaginação, só pode ter um ótimo resultado. É muito importante que a escola incentive esse passeio por diferentes culturas e narrativas.

BB: Nós estamos no mês do folclore. Podemos considerar que o folclore é um representante dessa cultura popular e dessa narrativa oral?

Ivana: Dentro da narrativa oral, que é ampla e que caminha por muitos terrenos e tempos, existe o folclore.

Ele faz parte, claro, da cultura de um povo, e é parte importante. E mais ainda: o folclore deve ser visto não como peça de museu, mas como algo vivo, dinâmico, que está sempre mudando.

As histórias que minha tia me contava, lá quando eu era criança, eram histórias do folclore brasileiro, do Estado de São Paulo especificamente, mas até hoje elas vigoram. E foram muitas delas modificadas [até chegar à versão dos dias atuais]. O folclore não é um livro mofado que a gente tem lá no final da estante. Mas é algo pra ser valorizado como parte da cultura do nosso povo.

“O folclore deve ser visto não como peça de museu, mas como algo vivo, dinâmico, que está sempre mudando”_

 

BB: Você já contou que se formou leitora na escola. Como é que a gente pode pensar a importância da literatura na escola, em um contexto em que boa parte das crianças entra em contato com os livros na escola?

Ivana: Eu acho que, sabendo que as crianças, principalmente aquelas que não têm livros em casa, que não são de famílias de leitores, só tem a escola como fonte de conhecimento da Literatura, isso deve ser muito valorizado.

O livro [deve ser pensado] como um acesso importante de conhecimento. A criança deve aprender, sim, na escola e com livros que digam cada vez mais respeito à realidade dela, o mundo em que ela vive. Então, tem que ser uma literatura viva, do seu cotidiano e que a desperte para outros mundos. Aí sim ela pode voar. A literatura [sendo vista] como fonte de conhecimento e de autoconhecimento e de conhecimento da realidade é um bem precioso e deve fazer parte dos princípios de qualquer escola que queira formar bons cidadãos.

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E você? Como tem trabalhado esses temas do folclore e da cultura oral e popular por aí?

 

 

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