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“Quer uma poesia, freguesia?”: feira de rua de SP também tem livros

17/06/2015

Imagine ir à feira de rua e voltar com um cacho de bananas, um pé de alface, um quilo de tomate e cinco livros. Quem vai ao Jardim Santa Maria, na zona leste de São Paulo, tem a chance de montar uma lista de compras como essa, que mistura frutas, verduras e literatura.

A barraca de feira da literatura foi montada pelo projeto Literatura na Cesta Básica, da Cia. Circo de Trapo. Fabiana Alves e Marco Antonio Ponce, idealizadores da proposta, contam que a biblioteca alternativa já tem público fiel. “É uma alegria saber que estamos transformando a realidade”, disseram.

A dupla expõe 150 a 200 livros por dia e brincam com o público: “Posso ler para você uma história? Quer uma poesia, freguesia?”

Eles toparam contar mais sobre esse trabalho inspirador.

Siga a entrevista!

Brinque-Book: Contem um pouco sobre a filosofia e a missão desse trabalho lindo.

Cesta de Livros: Moramos em um bairro onde historicamente o livro de literatura estava apenas nas escolas, apresentado de forma obrigatória (ler para ganhar nota). Pensávamos em uma forma de levar o livro para perto das famílias.

A feira livre para a Fabiana era o espaço ideal para implantar o trabalho de mediação (na época, a Fabiana tinha conhecido o trabalho da Cor da Letra e estava muito confiante na mediação para formar leitores). Aos poucos também fui entendendo que a feira era um ponto de encontro no bairro, com pessoas de diferentes classes sociais, culturais, faixas etárias…

Então pegamos os livros de literatura da nossa filha Millena, montamos uma barraca de praia na praça e começamos a oferecer: “Posso ler para você uma história? Quer uma poesia freguesa?” Foi assim que começou o projeto.

Acreditamos que a figura do mediador é muito importante, pois conhecendo o acervo e oferecendo ele ao público de forma sensível, os laços afetivos vão sendo construídos. Precisamos caminhar para que todas as bibliotecas tenham mediadores apaixonados por livros e dispostos ao trabalho de formação.

Na prática, como o projeto funciona? Você estão sempre no mesmo lugar, mesma hora, com os mesmos livros?

No início era esporádico, íamos de vez em quando. Mas a diferença apareceu quanto começamos ir toda semana, com horário bem estabelecido. Aí as pessoas começaram a se programar para frequentar o espaço, com o tempo começaram a querer levar os livros para casa.

Quanto ao acervo levamos em média uns 150 a 200 livros por dia, sempre deixamos a metade sem trocar e trocamos a outra metade para o próximo encontro, assim garantimos novidades.

Logo começamos a fazer empréstimo dos livros por pedido das crianças, então o espaço virou uma biblioteca alternativa, sem paredes e pouco burocrática. Dispomos os livros ao alcance de todos (adultos e crianças) e as pessoas ficam livres para escolher qual livro ler, com qual mediador de leitura querem ler, se quiserem ler sozinhas tudo bem também. Para a gente o contato com o livro deve ser bem livre, sem cobrar respostas ou entendimentos.

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Depois de um longo tempo sem apoio financeiro, em 2014 fomos contemplados com o edital VAI2 da secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, e isso foi muito importante.

Como este ano estamos sem patrocínio, o projeto está em um fase mensal. Foi uma decisão tomada com muita tristeza pelo grupo, pois acreditamos no poder da rotina desse processo. No entanto, como se trata de um trabalho voluntário, entre pausar o projeto e continuá-lo de forma reduzida, ficamos com a segunda opção, ainda na tentativa de conseguir outras formas de ajuda.

Temos muita dificuldade em conseguir patrocínio de empresas, pois comercialmente o público que atingimos não é grande em números para empresas que contabilizam em milhões, mas vamos persistir.

E o que mais mais vocês conseguiram alcançar com o projeto?

O projeto nos proporcionou levar a mediação em diferentes maneiras para outros lugares da cidade também. Por exemplo na Virada Cultural que aconteceu no ano passado, onde montamos nossa barraca de livros no SESC Belenzinho, em várias unidades do SESC junto ao caminhão Bibliosesc, e até fomos convidados pela Prefeitura de São Paulo no ano de 2011 para realizar uma sensibilização com os funcionários dos ônibus biblioteca, um projeto bem bacana na cidade de São Paulo.

Conseguimos também receber visitas de instituições e pessoas do bairro, por exemplo a associação de pessoas especiais Espaço Livre, eles sempre dão um jeito de dar uma passadinha por lá, além de professores, pesquisadores e artistas que querem ver como funciona.

Em 2011 recebemos a visita da Yolanda Reyes e do Evelio Cabrejo, especialistas colombianos em projetos de incentivo a literatura infantil.

A formação de vocês vem do teatro? O que trazer dessa arte para os livros, a contação?

Quando vamos fazer mediação de leitura, deixamos a arte do teatro de lado, não criamos vozes, não encenamos na mediação. Pela nossa experiência, a encenação acabava não criando laços das pessoas com os livros, o foco acabava sendo a nossa interpretação.

Lemos, apenas lemos com muito carinho e verdade, deixando a criança explorar o livro com liberdade, assim estamos formando leitores, assim eles se relacionam de fato com o livro e vamos sendo uma espécie de ponte entre a pessoa e o livro.

Claro que o trabalho de mediação nos alimenta como atores. Por exemplo, criamos o espetáculo teatral Pandolfo Bereba inspirado na obra da autora Eva Furnari e os livros do projeto Literatura na Cesta Básica alimentam muito nosso imaginário como narradores de histórias.

Vocês têm como público crianças e adolescentes, uma faixa bem ampla. De que forma acontece a leitura para que todos se interessem? Como os livros são selecionados e mediados?

Levamos livros para todas as idades mas conseguimos chegar com mais facilidade nas crianças. Elas ainda não foram traumatizadas pela leitura obrigatória. Os maiores já trazem muitos preconceitos com o hábito de ler. Selecionamos os livros e levamos em conta o quanto amamos o livro e a diversidade: poesia, contos, livros de diferentes formatos…

Não trabalhamos com gibis, nem revistas, nem jornais, nem livros relacionados a religião ou didáticos. Levamos só literatura.

Que papel a leitura tem na vida de vocês, e quais são os resultados ou consequências dessa ação?

A leitura faz ampliar o nosso olhar para os detalhes, pensar sobre nossa existência, ajuda a nos achar neste mundo de valores tão malucos. O livro nos sensibiliza. Por conta desta ação crescemos muito com todos os encontros e pesquisas que fizemos e, realizando o projeto, por mais que dê muito trabalho, no final do dia estamos sempre muito realizados em abrir espaço para a humanidade neste mundo.

Outra coisa muito interessante é que, de tanto ler, Marco Antonio Ponce, que faz parte do projeto, também virou autor. No final de 2013, ele lançou seus dois primeiros livros: A Ogra de Colar e Era Um…, ambos pela editora Giramundo.

Foi muito legal mostrar os livros dele para o nosso público, pois parece que um autor é um ser de outro mundo e quando eles perceberam o Marco como autor foi uma experiência bem bacana. Surgiram muitas perguntas, muitos sorrisos. Foi e está sendo muito bom.

Querem nos contar alguma experiência sobre o projeto com livros da Brinque-Book?

Temos muitos livros da Brinque Book como Clara, Gabriel, A velhinha que dava nome às coisas, O pintinho (um dos mais queridos pelos pequeninos) Bruxa Bruxa… uma infinidade.

Cada livro nos proporciona muitas experiências. Uma das feirantes leva sempre livros para as suas filhas, sempre que vamos pegar ou entregar livros para ela, ela conta histórias de como leu e sempre que as filhas podem vão até a banca e ficam lá o período todo. Aos poucos, os outros feirantes foram trazendo seus filhos também.

Eles ficam muito orgulhosos de dizer que só na feira onde eles trabalham tem biblioteca. Sempre falam que precisamos levar para outras feiras…

Um outro fato curioso que aconteceu uma vez é que o carteiro foi entregar uma carta pra gente lá na feira. Ficamos muito surpresos, como ele sabia que estávamos lá? E ele disse que sabia que às quartsa a gente estaria lá e resolveu levar a correspondência. Isso mostrou como somos observados no bairro.

É uma alegria saber que estamos transformando a realidade.

Saiba mais sobre o projeto

https://www.facebook.com/literaturanacestabasica

https://www.facebook.com/CiaCircoDeTrapo

http://www.circodetrapo.com.br/blog/


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