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Celular na sala de aula pode ser um aliado de crianças e professores

26/01/2018

Fernando Galrito parece um sujeito tímido, mas é falante. Nos recebeu sorridente, em uma das salas do cinema Arteplex, no shopping Frei Caneca, em São Paulo. Estava no Brasil em virtude da edição de 2017 do festival Prix Jeneusse Iberoamericano, realizado anualmente por aqui pelo Comkids, fórum permanente de promoção e produção de conteúdo audiovisual de qualidade para crianças e adolescentes.

“Você não vem brincar?” / Ilan Brenman (texto) e Carlo Giovani (ilustração)

Português nascido em Samora Correia, cidade situada a 30 minutos de Lisboa, Galrito formou-se em Antropologia e, em seguida, iniciou uma carreira acadêmica e profissional ligada à comunicação audiovisual. É doutorando nessa área, cineasta premiado internacionalmente e diretor artístico da Monstra, o Festival de Animação de Lisboa.

Ele tem se dedicado, entre outras coisas, a visitar escolas fazendo oficinas de animação com crianças. Talvez porque ele mesmo tenha começado cedo: apaixonou-se por cinema também em uma oficina, aos 8 anos, realizada em uma biblioteca que costumava frequentar.

Para ele, o celular e as telas não precisam ser inimigos da educação nem da infância, mas podem ser aliados da tremenda capacidade expressiva e criativa das crianças, que as ajuda a compreender o mundo e a aprender…

“Metáfora é como a criança pensa e aprende”

 

Ele ressalta que o que se aprende com afeto, com interesse, é o que realmente memorizamos: “Conhecimento é o que sobra depois que esquecemos o que aprendemos”, disse ele, em sua conversa, a uma plateia de educadores, professores, artistas.

Criar a ilusão das imagens -precisamente o que faz o cinema de animação- é, defende Galrito, quase uma coisa mágica, dessas que marcam a infância, que marcam as subjetividades e que não se esquece, que fica, que se aprende.

Primeiro porque as imagens são pensamentos. Nosso modo primeiro de pensar é por imagens, que se transformam em sensações e palavras. Crianças, inclusive as pequenas, têm um pensamento ainda mais calcado nas imagens e nas metáforas.

Segundo porque, diz ele, a animação, o cinema, as artes são atividades da ordem do brincar, do prazer, são brincantes, criadoras. Por isso, é importante que a educação aconteça também nessa dimensão do brincar, da brincadeira, da criação, do que é autoral.

“Gildo e os amigos na escola” / Silvana Rando

Animação em sala de aula

É nesse lugar que Galrito coloca o celular dentro da sala de aula. Em suas oficinas, e na oficina que ministrou para professores no ano passado, em São Paulo, ensinou técnicas básicas e simples de se fazer animações usando pouco mais que um celular e objetos comuns nas escolas, como papel, clipes, massa de modelar.

Em sua longa conversa com o grupo que o escutava naquela manhã -o papo passou mais de 40 minutos da hora prevista para terminar, a pedido dos ouvintes e com o consentimento entusiasmado do palestrante-, Fernando Galrito falou do impacto positivo desse tipo de trabalho na autoestima de crianças e jovens e de como pode ser um processo de conhecimento e aprendizagem que perpassa diversas áreas do conhecimento.

Para produzir um filme de animação, afinal, é preciso ler, pesquisar diversos temas em diversas áreas do saber, escrever, calcular, construir, desenhar, moldar, recortar…

Articulando conhecimentos práticos e teóricos diversos para dar soluções a problemas concretos que a prática da animação irá apresentar para crianças e jovens, é possível uma compreensão mais prazerosa e perene de temas e saberes que, oferecidos separadamente em uma grade curricular rígida, sem qualquer ligação com a vida significativa das crianças, restam por não se transformar naquele conhecimento que fica.

“O lúdico é importante. O brincar é importante. As pessoas focam em falar de temas sérios, mas o brincar é muito sério”

 

Ele não rebate críticas sobre impactos negativos do uso de telas por crianças pequenas. “As crianças brincam menos, é verdade. Não saem de diante das telas. Também é verdade”, diz.

Mas explica que o mesmo aparelho que “apassiva” pode ajudar a colocar em movimento, até fisicamente. “O stop motion, por exemplo, pode mexer o corpo. Fizemos um filme numa oficina em Maputo [capital de Moçambique] em que as crianças brincavam com os movimentos possíveis do corpo e, depois, na edição, transformavam em coisas impossíveis, como estar pela metade ou atravessar paredes”

Mão na massa -de modelar

Com o corpo todo, a experiência de cinema em sala de aula, um cinema de animação simples e rudimentar até, convoca crianças e professores à uma criatividade feita de imaginação, corpo, materiais naturais. Galrito prefere explorar as materialidades de elementos simples, como o papel, a areia, a tinta, a massa de modelar, um clipes.

Ou um rosto diante do espelho. Ou uma jarra de água sobre a mesa… Ou algumas mãos infantis. O roteiro é livre, mas possível de executar sem muitos recursos financeiros, sem necessidade de produção, sem obstáculos que possam impedir uma boa ideia.

Segundo ele, programas de computador, tablets e celulares, desses que existem aos montes em sites e aplicativos para “baixar” outros aplicativos, são capazes de dar conta de uma edição iniciante. Portanto, só é preciso um aparelho celular capaz de colher imagens e um ou dois aplicativos de edição para começar, com as crianças, um experimento de animação ou de execução de um filme.

Temas, narrativas, tipo de abordagem são detalhes que podem ser definidos situação a situação, com a sugestão das próprias crianças, a quem precisam ser fornecidas referências de imagem (visual) e de narrativas (que podem ser palavras também, escritas e orais).

O importante, o essencial, diz ele, é tempo. “As coisas precisam de tempo. A Noruega, por exemplo, deixa menos tempo para a matemática e mais para as florestas, para a investigação, onde se agrupam os conhecimentos todos”.

Entre reflexões sobre o modo artístico e não compartimentado com o qual as crianças veem a vida e aprendem dela, Galrito foi nos deixando muitas referências também, especialmente de animações estética e poeticamente interessantes, que dialogam com uma forma de ver o mundo infantil, nesse sentido do lúdico, do criativo, do instintivo, do não-definido por padrões.

>>Conheça abaixo algumas das referências que Galrito compartilhou durante o bate-papo.

Para ele, é preciso aprender a fruir esse tipo de arte -sim, há um aprendizado, uma necessidade de treinar o olhar e as emoções, sair do lugar comum ao qual nos acostumamos também quando pensamos em arte e animação e, sobretudo, cinema.

 

 


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