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Competências essenciais da BNCC: por que e como trabalhar empatia em sala

28/07/2020

A capacidade de empatizar com os outros é uma das competências essenciais que crianças e jovens devem desenvolver ao longo do Ensino Básico.

Pedro e Tina não tinham muito em comum. Mas, juntos, ficavam incríveis! Imagem: Pedro e Tina, de Stephen Michael King

Essa orientação consta da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em 2017 e em vigor nas escolas a partir deste ano.

A BNCC focaliza competências e, dentro delas, competências socioemocionais, que são consideradas essenciais para garantir direitos e uma vida cidadã e profissional plena.

Competências

O conceito de “competência” une os saberes à ação. Quer dizer, diante de um desafio, os estudantes devem ser aptos a convocar seus saberes, relacioná-los e colocar em prática para encontrar a solução.

Numa entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo, Andreas Schleicher, uma das maiores autoridades em avaliação educacional do mundo, comentou sobre a importância da criatividade, da inovação e do erro para as próximas gerações.

“O mundo moderno não te recompensa mais pelo que você sabe, o Google agora sabe tudo. (…) O mundo moderno te recompensa pelo que você pode fazer com o que sabe, por como você usa seu conhecimento”, declarou ele ao jornal.

Um mundo diverso e plural — como o nosso — permite aos alunos muitas possibilidades de criar, errar, articular conhecimentos diversos e aprender a partir de pontos de vista e experiências muito diferentes entre si.

Novos desafios de um mundo mais complexo

“Diversidade é a marca de nosso planeta, de nossa humanidade e, portanto, de nossa sociedade. Diversidade que está nos vegetais, nos minerais, nos ecossistemas, nos povos, nos tipos físicos, nas línguas faladas”, diz a educadora e consultora literária Celinha Nascimento.

Para ela, se “o mundo é sortido”, como escreveu o poeta das infâncias, Manoel de Barros, os pequenos merecem conhecer essa diversidade. “As crianças são sortudas quando conhecem um mundo sortido”.

Nem todo mundo precisa ser igual; pelo contrário, diferença é bom! Imagem: O crocodilo que não gostava de água, de Gemma Merino

Esse vasto mundo, cheio de oportunidades — e também de desafios interessantes — requer habilidades, a maioria delas sociais e emocionais.

A empatia, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro e permitir-se ouvir e sentir a experiência alheia, é uma delas. Não por acaso, aparece como a nona competência fundamental — entre as 10 — da BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Ao se colocar no lugar do outro, ao ouvir, ao saber falar e argumentar, ao respeitar a si mesmo e ao diferente, ao diverso, vamos, aos poucos, ampliando nossas possibilidades de lidar com a complexidade.

A diferença que, a princípio, pode assustar e estranhar, torna-se a soma, aquilo que amplia formas de se pensar, se fazer. Impacta na criatividade, na aprendizagem, na capacidade de resolver problemas concretos.

Não à toa, as empresas mais diversas estão se tornando também as mais lucrativas e bem sucedidas.

Empatia na escola

“A escola lida com gente. E quem lida com gente, lida com emoção”, avalia a educadora e consultora literária Celinha Nascimento.

Diante dos novos desafios de um mundo em transformação, temas que já estavam na escola, mas, às vezes, meio laterais ao currículo formal, agora ganham importância e espaço. Como é o caso de competências e habilidades emocionais.

Todas as questões que permeiam a nossa sociedade, estão na escola, na experiência cotidiana dos pequenos. Colocam a eles desafios que não estão só no futuro, mas especialmente no momento presente.

“Então, quando a palavra ou ideia [da empatia] aparece no currículo, aparece na Base [Nacional Comum Curricular] também é uma chamada de atenção para os educadores: ‘olha, estamos falando disso, estamos lembrando disso'”, avalia a especialista.

Ou seja, tratar de empatia na escola é especialmente uma forma de tornar a experiência em sala de aula mais democrática, mais respeitosa, mas criativa, mais diversa, mais complexa, mais profunda e cheia de possibilidades de conhecimentos, mais coletiva.

“Ninguém aprende sozinho”, diz.

Quando o clima não é favorável — e aqui estamos falando basicamente de emoções e habilidades socioemocionais, a aprendizagem sai muito prejudicada.

Para Celinha, além de todas as questões sobre desenvolver competências que preparem para o futuro diverso que espera os alunos, não se pode esquecer do presente.

É um direito

Para começar a conversa sobre como inserir essa reflexão sobre empatia na escola — e sobre como criar condições concretas de os alunos desenvolverem essa habilidade em sala –, Celinha gosta de ir pelo caminho do direito.

Empatia não é gostar de todo mundo, não é ser amigo de todo mundo, não é concordar com todos os amigos. A ideia é bem mais profunda do que isso.

“A escuta é um direito; o acolhimento é um direito; a suspensão do julgamento é um direito; a mediação de conflitos é outro direito”, diz ela.

Colocando nesses termos, a educadora mostra que não se trata de gostar ou “se dar bem” com essa ou aquela pessoa / colega / criança/ adulto, mas de respeitar o outro em sua integridade, mesmo quando esse outro não me espelha.

Empatia é um esforço para ouvir verdadeiramente aquilo que me é tão diferente. E procurar não usar a minha régua — ou o meu conjunto de ideias, preceitos e valores — para fazer um juízo sobre esse outro ou essa diferença.

Afinal de contas, não há uma única verdade, o que sabemos está em transformação, cada experiência de vida é singular e não há apenas um “jeito certo”. Ainda bem, não é mesmo?

“Se as crianças crescem com a firme ideia de que só existe um jeito de viver e de pensar, isso reduz drasticamente sua empatia e até mesmo sua intelectualidade”, alerta Celinha.

Conhecimento, ciência e relações

A especialista diz que o conceito de empatia deve ser trabalhado na escola “dentro da chave do conhecimento, da ciência, dessas relações”.

Aqui, dá três pistas importantes: 1) o conhecimento é variado, e as crianças costumam trazer de casa informações, teorias provisórias, informações prévias… Colocá-las para conversar sobre suas hipóteses as mais variadas é uma boa forma de ajudá-las a ouvir o outro, respeitar seu ponto de vista, sua história.

Outro ponto: o professor pode trazer para a escola fontes variadas de informações: o livro didático, o livro de ficção, o informativo; um podcast, uma música, uma playlist no Spotfy (uma cantiga popular pode ter tanta sabedoria!); ou um documentário, um vídeo, uma entrevista, uma peça de teatro.

A diversidade de temas e meios de apresentá-los pode ser positiva para a empatia. Imagem: Eric faz tibum, de Emily Mackenzie

O melhor: tudo junto misturado. Referências variadas, de pontos de vista variados, de diferente locais geográficos (já pensou que bacana se um artista do Sul ou do Norte do Brasil aparecer em aulas das crianças do Centro-Oeste?)… O Brasil é tão rico que faltaria espaço para tantos exemplos de diversidade possível 😉

2) A ciência é sempre um bom ponto de partida para pensar relações diversas, em que as crianças precisam ouvir e respeitar umas às outras.

Pense na variedade impressionante de teorias sobre um mesmo assunto. Ou pense em quanto um cientista precisa pesquisar, pensar e estar aberto a novas possibilidades e a rever “verdades” para avançar.

Instigar as crianças a pesquisar e a trocar impressões e teorias sobre o que estão pesquisando é muito rico! A pesquisa em si é sempre fonte de diversidade, porque o mundo pesquisado é diverso e cada criança traz um olhar único sobre aquilo que vê.

Abrir espaço para esse fazer científico é ótimo para a empatia e também para promover outra competência essencial, a do pensamento científico.

3) Relações: as artes, a cooperação, a possibilidade de experimentar o “lugar” do outro também é uma forma muito bacana de trazer a empatia para a sala de aula.

Acervo diversificado

“A literatura talvez seja um caminho extremamente rico, porque é justamente o contato com o outro, não é? Quantas especialistas já definiram a literatura como esse ‘encontro com o outro'”?, lembra Celinha, ressaltando que a arte expande nosso olhar.

E não só isso: a arte expande nosso sentir! Quando nos permitimos entrar em contato com literatura diversa — a tal bibliodiversidade –, com filmes de muitos países e gêneros, com música variadas etc, vamos ampliando nossa capacidade de sentir e de nos permitir ser tocados.

Isso funciona muito bem com as crianças também, é claro, elas que são até mais “alfabetizadas” nessas linguagens do sensível do que nós, adultos.

“Eu acho que essa ideia de acervo nas escolas vem sendo discutida já há um tempo, principalmente quando se tem a lei sobre educação africana, educação indígena, imigrante… É esse o momento de, de verdade, ter um acervo diversificado”, recomenda a especialista.

Livro ilustrado é forma e conteúdo

Celinha chama a atenção para um fato importantíssimo em se tratando de livros para a infância: nos livros ilustrados, forma e conteúdo contam a história; é preciso estar sempre atento a isso, à variedade no formato e no tipo de ilustração e proposta visual.

>>Quer saber mais sobre livro ilustrado?

O que é livro ilustrado? Já ouviu falar? Te mostramos o que é (e o que não é) um deles

Para Celinha, essas obras trazem uma diversidade de formatos — quadrados, interativos, diversos tamanhos, capas duras ou moles etc — e de ilustrações que precisam ser observadas e diversificadas.

Há livros em que o formato inovador é que conta a história… Outros nos quais a cor das imagens diz muito, colocando ou tirando o foco dos acontecimentos. Repare sempre nisso.

Em Bruxa, bruxa, venha à minha festa, por exemplo, o texto de Arden Druce ganha novo sentido com as ilustrações hiperrealistas e assustadoras de Pat Ludlow — ilustras que as crianças amam, justo porque causa aquele medinho seguro.

Vai embora, grande monstro verde, de Ed Emberley, trabalha com o formato, com o objeto livro, que é interativo, todo recortado, sem o qual não haveria a história.

Em Joana no trem, de Kathrin Schärer, as cores diferenciam a ação: em preto e branco, está a mão de quem desenha a história; em cores, vemos as experiências das personagens.

Aqui, vale pesquisar muito e, mais que isso, evitar repetir padrão de cores (quem disse que os pequenos só se interessam pelas primárias?) ou de ilustrações: fuja do óbvio e daquilo que menospreza a inteligência e a sensibilidade das crianças.

Diz Celilnha:

“Se o professor não toma cuidado, ele pode ler sempre a mesma história). Ele acha que ele está lendo histórias diferentes, mas, no fim, ele está lendo a mesma história.

Por isso, por exemplo, eu fico tão chateada com os contos de fada, por exemplo. Se você pensar nos nossos grandes contistas, Andersen, Perreault, irmãos Grimm, se somar esses três autores, a gente tem pelo menos mil obras. E quantas dessas mil obras os professores realmente leem para as crianças?

Talvez duas dúzias. Sempre as mesmas, sempre quando tudo dá certo”.

E não basta ter acervo diversificado, é preciso provocar o debate: “o professor precisa chamar a atenção: esse autor é negro? Esse autor é indígena? Esse autor é contemporâneo? Olha, esse autor viveu num tempo diferente”.

Para ela, é preciso nunca fugir do diferente.

“É só neste embate com o diferente, com aquele que não só é diferente, mas às vezes é MUITO diferente, que eu vou perceber o quanto de mim é preconceituoso, o quanto de mim é radical, o quanto de mim é irascível, o quanto de mim é intolerante”.

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Recomendamos aqui dois posts que podem ajudar você nessa tarefa de levar a empatia para a sala de aula: o primeiro, traz dicas de livros que falam do tema; o segundo mostra como escolher a biblioteca diversa para as crianças (tem dicas para famílias, mas que podem ser adaptadas para os educadores):

Feliz 2020! Dois livros para começar o ano com empatia e valorizando a diferença

“Poderia” traz um potente poema sobre empatia e o outro; veja dicas de leitura

Como escolher livros para a biblioteca dos seus filhos? Nove dicas imperdíveis

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E você? Volte depois para nos contar suas experiências em sala — e se esse post foi útil para você!

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