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Brincar em casa: como criar espaço (e quintal) para as crianças em isolamento

09/04/2021

Em março, o Território do Brincar, um projeto de pesquisa vinculado ao Instituto Alana, lançou o documentário Brincar em Casa. Fruto de ampla pesquisa, o curta-metragem mostra como as crianças se adaptaram para continuar brincando, mesmo em isolamento durante a quarentena.

As crianças mantém sempre a capacidade de sonhar e de transformar a realidade através do brincar. Bonito isso, não? Mais que bonito, é necessário para elas. E talvez fosse uma das coisas a fazer falta na nossa rotina tão atribulada fora de casa. Como estão as brincadeiras por aí?

brincar casa quarentenaA casa pode ser o lugar ideal para exercitar o brincar livre. Imagem: Poderia, de Joana Raspall (texto) e Ignasi Blanch (ilustrações)

Crianças brincam em casa na quarentena

As brincadeiras que surgem na tela do documentário – que lembram muitas das que a gente vivia na infância e que nossos filhos estão vivendo em isolamento também – mostram que, sim, a seu modo, as crianças são capazes de ressignificar o espaço da casa.

Fica claro, a partir da pesquisa, que passar mais tempo em casa, apesar do motivo, pode ser positivo para o desenvolvimento das crianças, que estavam com pouco espaço para exercitar o brincar, a “linguagem” da infância.

“O que chamou muito a nossa atenção foi como as crianças precisam desse brincar sozinhas, sem direcionamento. E como, antes, não tinham tempo para esse exercício”, comenta Soraia Chung Saura, uma das pesquisadoras do projeto, que é também professora da Faculdade de Educação Física e Esporte da USP (Universidade de São Paulo).

Quem não se identifica?

Se você está em casa com crianças, vale muito a pena ver Brincar em casa, que está disponível, gratuitamente, na plataforma de documentários VideoCamp. Veja o trailer abaixo:

O que é brincar, afinal?

Até para se inspirar e ter aquele “empurrão” para reparar no brincar dos pequenos e notar que nem sempre eles precisam da gente nesse processo. Pelo contrário. O que precisamos fazer pelas crianças em casa agora, mais que “entreter” ou “estimular”, é deixar que brinquem!

O educador Paulo Fochi, doutor em Educação pela USP (SP) e pela Universitat de Barcelona (Espanha), professor da UniSinos (RS) e autor de diversos livros sobre a primeira infância, nos lembra que brincar é um direito, garantido pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e não pode ser confundido com entretenimento.

“Precisamos nos perguntar, como adultos, se estamos garantindo às crianças que elas possam brincar”, recomenda.

Para Paulo, o brincar é da ordem do lúdico, da exploração e da experimentação, da criação. Ou seja, explorar o armário de tampas é brincar. Amassar batatas para o purê, explorando sensações e o já conhecido, é brincar. Fazer uma cabana embaixo da mesa para “se mudar” lá para baixo e inventar mil possibilidades também é brincar.

É possível brincar explorando fisicamente o movimento, as materialidades, o corpo, os sentidos, as coisas ao redor.

E é possível brincar inventando histórias e narrativas.

As duas formas são modos de expressão, criação de sentido, conhecer de si e do mundo.

Para Soraia, o brincar é sinal de “sáude emocional, física, mental e é grande expressão” da infância.

Brincar não é, por outro lado, nem o brinquedo nem entretenimento…

“Entreter, com TV e telas, por exemplo, costuma deixar as crianças mais ansiosas e tira delas a linguagem, a expressão”, avalia Paulo. E há muitos brinquedos que não ajudam a brincar.

brincar casa quarentenaCom um lenço, a gente explora a materialidade e também cria narrativas. Imagem: O lenço, de Patricia Auerbach

Mas o que nós, adultos, mães/pais, cuidadores precisamos fazer para isso, inclusive pensando que nossas rotinas também estão mudadas, que estamos tão sobrecarregadas e sobrecarregados?

A primeira ideia é fazermos um pacto sincero com as crianças e com nós mesmos: em que momento da rotina podemos estar mais disponíveis? Para fazer o quê? Como as crianças podem estar mais perto da nossa rotina de adultos, as que já forem grandes o suficiente para isso? E quando e como podem — e devem — ficar sozinhas, consigo mesmas, brincando ou criando?

Nós não precisamos estar sempre brincando juntos — embora observar os menores e ter uma presença amorosa com eles seja essencial — e nem devemos dirigir a brincadeira… Com a segurança adequada para cada faixa etária, as crianças precisam de autonomia para brincar também.

Brincar em casa é incrível

Trouxemos diversas ideias e inspirações para desenvolver e dar exemplos sobre as ideias contidas no parágrafo anterior. Que tal começar por explorar a nossa casa?

“A vida cotidiana, que se repete e estrutura, carrega as duas faces do brincar”, explica Paulo Fochi. São elas:

  • 1) Explorar o desconhecido
  • 2) Prazer do já sabido

Ambas faces podem ser experimentadas tanta pela exploração sensorial e a pesquisa das crianças quanto com o brincar que cria narrativas — o brincar simbólico.

Há diversas “brechas lúdicas” no nosso dia a dia, como diz Paulo.

Por exemplo, conta ele, o momento do banho é fascinante para as crianças. “Graças à cultura indígena, temos o hábito de tomar banho diariamente e isso já é um momento lúdico”.

Dicas práticas

Conversamos com especialistas, mães/pais e dois autores de livros infantis muito especiais para listar abaixo 3 possibilidades de apoiar o brincar das crianças nesse momento, focando nesse brincar amplo, não dirigido, que transforma a vida do dia a dia e que não depende necessariamente do adulto como indutor ou para “entreter”.

1) “Banho é bom”!

Retomando o exemplo de Paulo Fochi alguns parágrafos atrás, o momento do banho pode ser muito brincante para a criança. Não à toa, mesmo os pequenos que resistem ao banho, quando entram, não querem mais sair, sabe como? Sabe, né? 😉

Começando com a própria experiência sensorial, da água quentinha caindo no corpo todo, a água é um elemento que permite diversas explorações.

A dica é levar bacias para o chuveiro e deixar que elas encham enquanto as crianças se lavam. Depois de cheias, podem funcionar tanto para pesquisas infantis – transferências de líquidos, por exemplo, encher potes menores, descobrindo quanto cabe – , quanto para criação de enredos, narrativas, simbolização.

Uma bacia que vira mar, sopa ou poção mágica. O que mais pode virar?

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2) Dia a dia

No nosso dia a dia atribulado, durante as tarefas cotidianas de manutenção da vida, como lavar, limpar, cozinhar, as crianças também podem ser convidadas a participar.

A autora e ilustradora Aline Abreu, que acabou de lançar Achou? (Companhia das Letrinhas) conta que fica muito com a filha pequena justamente nesses momentos. Se está pendurando roupas, a filha vem; se está cozinhando, a pequena quer participar.

“Porque essa é a via dela agora, é a nossa vida, não que seja uma brincadeira. Pai dela está fazendo [essas tarefas domésticas], o irmão também…”, avalia Aline.

É importante para elas sentirem-se parte, para, aos poucos, ganharem autonomia – e isso faz parte do desenvolvimento e do prazer do jogo entre conhecido e desconhecido, como já nos explicou Paulo Fochi –, mas também porque essas tarefas são repletas de ludicidade e experiências sensoriais ou simbólicas.

Amassar batatas, por exemplo, pode ser uma experiência sensorial deliciosa, lembra Paulo. E Aline conta que as ideias mais divertidas, que se apropriam ludicamente das tarefas cotidianas, partem da filha dela, não dela.

A pequena gosta de contar pregadores ou a quantidade de roupas que a mãe tira (da) ou põe (na) máquina de lavar.

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3) Brincar é corpo

Um coisa importante que o entretenimento não oferece, mas o brincar, sim, é “corpo”. Quer dizer, movimento, ocupação do espaço, sentidos.

Em frente das telas, as crianças não se mexem, não sentem nada no corpo.

Mas se estiverem fazendo um bolo, precisam do corpo todo lá: das mãos, dos pés, do movimento, do nariz pra sentir os cheiros – quer coisa mais deliciosa que cheiro de bolo assando? – dos ouvidos prestando atenção aos sons, dos olhos atentos na massa para não deixar espirrar fora do pote enquanto misturam-se todos os ingredientes…

E, veja, bater um bolo tem todos os pré-requisitos para ser um brincar: explora o novo, reforça o que se conhece e pode ser pretexto para a criação – seja inventando com a receita seja imaginando que é um / uma confeiteiro ou confeiteira. Quem nunca?

 

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E você? Como tem sido essa experiência aí na sua casa?


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