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Uma outra cidadania é possível: a griô

16/04/2019

Por Francine Machado*

Devo ser uma das poucas pessoas que quer usar as férias para reabastecer meus estudos de cultura e repassá-los em sala de aula aos jovens e adultos com quem trabalho na educação deles em Santo André, na região metropolitana de São Paulo (SP).

Ilustração do livro Aminata, a tagarela, de Maté

Nestas últimas, fui estudar pedagogia griô (simplificando bastaaante, é focada na tradição oral brincante afro) em Lençóis, na Chapada Diamantina (BA). Como arte educadora, escritora e contadora de histórias, já “mato dois coelhos com uma cajadada só” em minhas folgas: visito algum lugar que namorei em minhas matérias de turismo para revista desta área (muitas feitas sem sair da editora) e aproveito para estudar, porque sou “cabeçuda” pacas!

Este narrador africano ensinou, por exemplo, que exótico é tudo que é considerado “de fora” e que, portanto, poderá ficar à margem

 

Já tinha experienciado outras vivências griô: fiz oficina com Toumani Koyaté, um dos contadores tradicionais de Burkina Faso, oeste africano, no Centro de Formação do Sesc, em São Paulo. Durante a oficina, muito do que eu sentia ainda no nível inconsciente começou a fazer sentido. Na época, ainda tentava ser atriz e vivia escutando que tinha uma beleza exótica.  Este narrador africano ensinou, por exemplo, que exótico é tudo que é considerado “de fora” e que, portanto, poderá ficar à margem — como eu nos meus castings (testes) de atriz.

Li o livro Meus Encontros com Sotigui Koyaté, do professor de teatro carioca Isaac Bernat, com quem também estudei abordagem griô para atores na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro (SP). Há meses, talvez quase um ano, fiz aulas abertas com Lilian Pacheco e seu companheiro, o velho griô Marcio Caires, no Espaço Cariri, em Pinheiros (SP). Quando anunciaram esta imersão na Bahia, no espaço de ambos, em janeiro, senti que me restauraria após meses de ralação no ensino público municipal do ABC (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo).

Acertei. Fui com esta “pegada” educativa fora da caixa, buscando ferramentas lúdicas e didáticas para aulas “fora da curva”, como creio que as de artes devem ser. A pedagoga, educadora e escritora Lilian tem mais de 20 anos promovendo oficinas e formações com crianças, jovens e professores, além de bastante experiência multiplicando o trabalho de turismo de base solidária em comunidades tradicionais e periféricas pelo Brasil. Ela e Márcio já foram parceiros do Ministério do Turismo, na ocasião do governo Lula, e disseminaram esse tipo de turismo em diversas regiões do Brasil. 

Ilustração do livro Os tesouros de Monifa, de Maria Rosa (texto) e Rosinha (ilustrações)

Ambos dão pedagogia griô continuada ou pontual em estados como Paraíba, Sergipe, São Paulo, Rio Grande do Sul e, através dela, disseminam os jogos, danças, músicas, brincadeiras e contações de histórias da cultura popular. Ambos invertem a lógica educacional colonizadora, nos fazendo experimentar primeiro para discutir, questionar e ouvir sobre a teoria depois. Esta sistematização educativa é proposital, pensada por Lilian, esta parideira duma pedagogia com árvore genealógica afro.

Ambos invertem a lógica educacional colonizadora, nos fazendo experimentar primeiro para depois discutir, questionar e ouvir sobre a teoria

 

Começamos esta jornada visitando um quilombo local, numa roda com contadores tradicionais, na qual pedimos bênção às nossas velhas ancestrais inspiradoras, cantamos um aboio para nos aproximar, dançamos para criar vínculos e ouvimos tanto o Márcio, quanto o mestre quilombola Aurino.

Eu, que me especializei na arte de contar histórias e também venho do jornalismo, me encantei com a oralidade deste senhor quilombola: aprendeu a tocar sanfona de olho no pai — e escondido, com apoio secreto da mãe. Durante sua apresentação, fez pausas dramáticas e suspense: um artista sem nossas oficinas teatrais ou pós graduação urbanas!

Dali nos dividimos em grupos e cada um foi recepcionado na casa de moradoras das quinze famílias desta comunidade, na qual comemos comida de roça, também ouvimos histórias e ainda fomos convidados a fazer siesta depois de tanta generosidade. 

Naquele tempo dilatado das comunidades tradicionais, fomos novamente divididos, conhecemos e fizemos com as mestras locais xarope, farinha de mandioca, cestas… No caso do meu grupo, fizemos rede de pesca.

Na sequência, o grupo se reuniu de novo e embarcamos em canoas, nas quais achei que as imagens lembravam o Pantanal que só conheci em TV. A diversão dos nossos remadores despistou minha cisma de que viraríamos. Quando paramos, o líder comunitário Delvan Dias explicou as batalhas de sua comunidade, que apóia outros quilombos na luta pela documentação da terra que eles já têm. O rio era fundo, às vezes estreito, noutras largo e nos falaram da vegetação local. Para uma caipira do asfalto feito eu, foi um estudo de campo imprevisto e bem vindo.

No dia seguinte no Grãos, muita escuta, dança, troca, canto, brincadeiras e estudos da trajetória da organização, apresentados pelos jovens que cresceram nela entre oficinas de música, audiovisual, teatro, estudos para o ENEM, acompanhamento e apoio pós-ingresso nas faculdades.

O músculo tem memória e imprime em nós as emoções desta trajetória

 

O viver primeiro e estudar depois é próprio do modo afro de ver e elaborar o mundo e nos impacta mais fundo do que estudar sentado sempre e terminar com o “pensamento sentado”, como dizia minha professora de danças brasileiras, Cristiane Santos, da Escola Livre de Dança de Santo André.

Ilustração do livro Aminata, a tagarela, de Maté

O músculo tem memória e imprime em nós as emoções desta trajetória. Foi o que Lilian defendeu no último dia: filmar, fotografar ou mesmo escrever sobre estas experiências não as elaboram suficientemente. É como fazer uma selfie de um prato típico sem experimentá-lo!

Marcio contou o mito da criação pelos orixás e, nele, homem e mulher são criados juntos

 

Fizemos ainda outra caminhada no vale da Chapada, sem conversas paralelas ou cliques de cada encantamento com a natureza. Foi como diluir a ansiedade e a angústia urbanas nas águas doces de Lençóis. Os jantares, caminhadas, canto, riso e dança pelo centro histórico, com os novos amigos de estudos, também colaboraram para processar tanta riqueza da cultura tradicional.

Neste dia, Marcio contou o mito da criação pelos orixás e, nele, homem e mulher são criados juntos. No dia seguinte, Lilian comentava como a pedagogia griô pode possibilitar uma nova cidadania. Foi quando estudamos o livro Dialética da Colonização, de Alfredo Bosi e, no limite do cansaço, dançamos e cantamos, num encerramento corporal potente, no qual até pedido surpresa de casamento teve, feito por duas participantes desta imersão!

Marcio sempre dava as referências de quem e onde havia pesquisado suas brincadeiras e cantigas populares, o que não vejo sempre entre contadores, cantadores e brincantes pesquisadores – que memória a deste velho griô!

Volto para a caótica metrópole, onde me encontro e perco todo o tempo, ansiosa para explorar o que vivenciei e estudei na Bahia com meus estudantes jovens e adultos. Por hora, ainda sinto as novas salas, mas o espaço para o olhar de mundo afro há de surgir – não só por não nos sabermos africanos, indígenas e periféricos. Mas por dívida de resgate histórico, cultural e artístico mesmo. 

Francine Machado é atriz, educadora, contadora de histórias e jornalista. Ela esteve imersa em uma formação em Pedagogia Griô, uma abordagem criada pela educadora Lilian Pacheco e por seu marido Márcio Caires, que é mestre Griô, ou seja, um contador de histórias orais tradicionais dos povos ancestrais, sobretudo negros. Essa abordagem propõe que a oralidade, a música, a dança, o corpo e o fazer manual tradicionais são caminhos pedagógicos para a aprendizagem e para a criação. Este é o segundo artigo de Francine sobre o tema. O primeiro também foi publicado pelo Blog da Brinque. 


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