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Selecionado para a Bienal de Ilustração de Bratislava, Fernando Vilela fala sobre arte e livro ilustrado

13/06/2019

Autor, ilustrador, artista plástico, Fernando Vilela é um dos 10 brasileiros escolhidos pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) para representar o Brasil na Bienal de Ilustração de Bratislava (BIB) de 2019. Já recebeu a Menção Novos Horizontes, do Prêmio Internacional Bologna Razgazzi Award, e três Jabuti por seu Lampião e Lancelote (publicado originalmente pela Cosac & Naifye, depois, pela Pequena Zahar).

Obras suas estão no MoMA de Nova York, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Ilustração do livro A toalha vermelha, de Fernando Vilela

Ele, que é autor de livros como A toalha vermelha, AbrapracabraAbrapracabra Brasil, é o convidado especial deste Papo Brinque-Book. Conversa com a gente sobre reconhecimento, a ilustração brasileira vista lá de fora, ilustradores para conhecer, primeiros passos para quem quer ilustrar ou saber mais dessa arte, inspirações, criação e também sobre o diálogo rico entre palavra e imagem nos livros ilustrados.

Além de Fernando Vilela, outros nove artistas estarão na BIB, que acontece em outubro. Entre eles, Guilherme Karsten, que também conversou com o Blog da Brinque e cuja conversa a gente publica na próxima quinta-feira.

Abaixo, os principais trechos do bate-papo com Vilela:

Blog da Brinque: Qual é a importância desse tipo de reconhecimento internacional para a ilustração e para o seu trabalho? Em quê esse tipo de evento e premiação contribui?

Fernando Vilela: É muito importante para o Brasil. Faz com que o Brasil tenha projeção, visibilidade, reconhecimento. Para o ilustrador, coloca o trabalho dele em contato com autores, editores, profissionais do livro. O trabalho tem seu reconhecimento e alcance ampliados.

BB: Desse universo de ilustradores — incluindo alguns que estarão com você na Bienal ou que já estiveram na Mostra de Ilustradores de Bolonha, quais são os que mais tocam a sua sensibilidade?

Fernando: São muitos, [cito] alguns deles: o espanhol Javier Zaballa, Taro Moura, o português Bernardo Carvalho, o italiano Alessandro Sana e Chiara Carrer, o japonês Kastumi Komagata. Já entre os brasileiros [destaco]: Andres Sandoval, Daniel Bueno, Roger Mello, Nelson Cruz, Renato Moriconi, entre outros

BB: O que você destaca de mais bacana no cenário internacional de ilustração que a gente que adora essa arte precisa conhecer, ficar de olho?

Quando a mente está livre, as ideias têm mais chance de aparecer

 

Fernando: O que sugiro é acompanhar anualmente as premiações e exposições de Bologna [Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, a Bologna Book Fair, realizada anualmente na cidade italiana de mesmo nome], que são: Prêmio Jovem de Bolonha  (Ragazzi Award), Prêmio Hans Christian Andersen e a Mostra Internacional de Ilustradores. [Acompanhar] Algumas exposições internacionais, como a Bienal Internacional de Ilustração de Bratislava (Eslovênia), a Bienal Ilustrarte (Portugal)… [E também acompanhar a] Lista de livros escolhidos do IBBY [International Board on Books for Young People, ou Associação Internacional de Livros Infanto-juvenis] e o catálogo White Ravens, da Biblioteca de Munique. Recomendo, a quem puder, visitar uma vez a Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, pois ela apresenta um panorama da ilustração contemporânea todo ano.

As palavras também valem mais do que mil imagens

 

BB: O que é ilustrar, hoje?

Fernando: Essa pergunta tem respostas infinitas. Dentre tantas coisas, ilustrar é buscar novos caminhos de expressão e dialogar com os outros e com o mundo em que vivemos. É traçar caminhos e se reinventar através da linguagem narrativa.

BB: Você pode comentar um pouco sobre seus processos de criação e inspiração? O que inspira você? Como cria? Como essas inspirações ganham corpo? O que tem mexido com você – em termos de inspiração, arte, técnica, processos, materiais no momento no trabalho de você?

As técnicas que utilizo para cada uma delas surge a partir das histórias

 

Fernando: Ideias vem de diferentes lugares, às vezes de uma viagem… O livro A toalha vermelha veio de uma viagem em família: a toalha do meu filho, Leo, caiu no mar e aí vem a ideia inteirinha da narrativa, que acaba se tornando o livro da viagem da toalha pelo mundo.

O Abrapracabra nasce de um delírio de magia, como se a gente pudesse viajar pelo mundo entrando por portas mágicas.

O Lampião e Lancelote já nasce num outro contexto. A ideia eu imaginei como um duelo, feito através do repente, da rima, entre o lampião, o cangaceiro, e o lancelote, o cavaleiro da távola redonda. E comecei a escrever como seria esse duelo, essas rimas, um ofendendo o outro; um usa arma de fogo, outro usa faca e espada, e a partir daí [a ideia] foi se desdobrando e nasceu essa narrativa.

As técnicas que utilizo para cada uma delas surge a partir das histórias. Quando ilustrei A toalha vermelha, resolvi trabalhar com colagem para pensar sobreposição, para criar espessura na imagem no fundo do mar. No Lampião e Lancelote, usei o carimbo de borracha, que dialoga com a xilogravura; também usei gravura em madeira, que é uma técnica que dialoga com cordel e o carimbo.  O trabalho gráfico é algo que faz parte da minha linguagem expressiva, a gente pode observar isso em praticamente todas as publicações.

No livro Eu vi! [ou no] O disfarce dos animais, [ambos da coleção Surpresa, assinada por Vilela, que tem ainda um terceiro título, Onde eles estão?], o formato dele, a adivinha, a brincadeira [isso tudo] já nasce pensando num livro como objeto, cada livro tem sua linguagem.

Ilustração do livro Abrapracabra Brasil, de Fernando Vilela

BB: Você tem hábitos ou manias na hora de criar ou pensar um trabalho?

Fernando: Não tenho nenhum hábito. As ideias surgem em contextos mais variados. Às vezes num restaurante, às vezes quando estou viajando, geralmente quando estou relaxado, em um momento de ócio, é quando as ideias surgem. Às vezes, estou num cinema, às vezes assistindo a uma palestra… Quando a mente está livre, as ideias têm mais chance de aparecer… as conexões, as sinapses acontecem com mais facilidade.

BB: Você pode contar assim, de bate-pronto, o nome de um livro, de um filme, de uma música, de uma peça de teatro, de um programa de TV e de uma performance (dança, canto, arte de rua…) que tenha mexido com você recentemente? Tudo bem se não tiver um exemplo pra cada, mas a ideia é que seja a primeira que vier à memória.

Fernando: Um filme que mexeu comigo é Cidadão ilustre, argentino, sobre a história de um escritor que volta para a pequena cidade em que ele nasceu, na Argentina; ele é um escritor que ganhou o Prêmio Nobel e vive muitas adversidades. Esse é um filme surpreendente, que assisti no Netflix, mas ele esteve no cinema.

Outro filme é o Green Book, premiado no Oscar, que é surpreendente e trata da relação de um músico negro e do motorista branco, que passa por experiências, nos EUA, mostrando a estrutura do racismo. Um outro filme interessantíssimo foi o último do [diretor] Spike Lee, [chamado] Infiltrado na Klan, que é sobre um negro que se infiltra na Ku Kux Klan, que também é uma história muito interessante.

Me interessa muito o cinema por conta da narrativa; o livro ilustrado tem muito a ver com o cinema: se a gente for pensar a sequência de imagem, o enquadramento, a sequência narrativa, a trama… Acho que a ilustração é uma arte que se aproxima muito com a direção de filme. Por isso que eu gosto tanto de cinema.

Em música, fui no show do Benjamin Taubkin, que é um grande pianista. Peça de teatro, a peça do Grande sertão: veredas, da Bia Lessa, que é uma peça incrível. Programas de TV, assisto muito ao canal Curta e ao Arte 1, que são canais muito comprometidos com a arte, com a expressão, e tem uma programação muito boa.

Acredito que o livro ilustrado seja uma arte que não tem idade. Os bons livros são aqueles que duram

 

BB: O livro ilustrado vem ganhando cada vez mais apaixonados e mais prestígio também. É, em geral, um livro infanto-juvenil, mas que não agrada apenas aos pequenos. Queria pedir que você comentasse essa relação palavra-imagem, a profundidade de camadas e belezas e como uma conversa entre as duas linguagens enriquece a experiência estética do leitor de todas as idades.

Fernando: Acredito que o livro ilustrado seja uma arte que não tem idade. A gente associa muito ele ao público infanto-juvenil, mas acredito que muitos autores e ilustradores conversam com a criança, com o jovem, mas também com todas as idades. Eu tenho um comprometimento de expressão no livro, ele nasce de uma experiência minha, de uma experiência estética, de questões que me mobilizam, que me afetam. Quando crio um livro, não penso na idade. Tanto é que os meus livros ilustrados — uma grande parte — que eu ilustro também com grande autores, como a Stela Barbieri, uma grande parceira minha, eles são direcionados a todas as idades. E é interessante que eles são vendidos muito para adultos que compram os livros pra eles. O livro tem camadas, camadas de conteúdo, camadas de interpretação. E eu acredito que muitos autores, ilustradores, estão comprometidos em pensar e em fazer o livro como uma obra de artes, assim como uma pintura num museu, que nao tem idade, assim como uma fotografia, um objeto narrativo e estético para todas as idades. Os bons livros são aqueles que duram…

Um bom ponto de partida é repertório

 

BB: Falando nisso, uma imagem vale mais que mil palavras?

Fernando: Eu diria que dos dois lados: as imagens, elas têm uma linguagem própria, elas jamais vão corresponder às palavras. Uma pintura, uma fotografia, um desenho é uma imagem que pode ter um discurso inteiro. E as palavras, por sua vez, também, né? A gente pega um poema e jamais vai ter uma imagem que substitua um poema do Carlos Drummond de Andrade ou do Manuel Bandeira. As palavras também valem mais do que mil imagens. Eu te responderia brincando com essa expressão: a palavra é narcísica, e a imagem é eco. Narciso sempre olha para sua imagem e morre afogado nela. Eco sempre fala sua palavra, sempre chama Narciso, só que nunca consegue falar com ele, porque a palavra sempre volta para ela. As linguagens da palavra e da imagem tem sua autonomia. Quando elas se encontram no livro ilustrado, aí existe um vazio, uma conexão misteriosa, que é o que faz o livro ilustrado ser esse objeto fantástico, onde as linguagens se encontram de diferentes maneiras, em diferentes obras.

BB: Para quem está começando agorinha a mergulhar nesse universo do livro-imagem e da ilustração, o que você recomenda? O que pode ser um bom mapa, ponto de partida, ponto de chegada, guia, amigo de viagem, meio de libertação etc? 

Fernando: Um bom ponto de partida é repertório. Tem que ir na livraria, investigar os livros, os bons autores, ver boas editoras brasileiras e estrangeiras. Sugiro que quem está começando que faça cursos também. Tem cursos do Odilon Moraes, do Renato Moriconi, eu dou cursos no meu ateliê. Eu tenho um ateliê que se chama Binah Espaço de Arte, que é uma escola de arte, dirigida pela Stela Barbieri, que é minha parceira, e aqui tem um grande centro de encontros e debates em torno do livro ilustrado, das artes visuais, então convido vocês a entrarem no site e têm cursos voltados para ilustração, para criação de narrativas, para iniciantes, para profissionais…


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