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Um bate-papo com Silvana Salerno, de “São Paulo: a aldeia que virou metrópole”

25/01/2022

Quem anda pelas movimentadas ruas da cidade de São Paulo, que faz aniversário justamente em 25 de janeiro, talvez não imagine, mas a capital do estado de mesmo nome já foi um campo vasto e verdejante, com uma pequena aldeia e uma igreja montada em uma cabana onde hoje é o Pátio do Colégio, na região central.

Livros 2021 São PauloIlustrações de Bruna de Assis Brasil sobre foto mostram o Beco do Batman, na Vila Madalena, zona Oeste da capital: ponto turístico da cidade, é uma galeria de arte urbana

Visitando os marcos da cidade e alguns de seus bairros – como São Miguel Paulista, um dos mais antigos  –, a professora Guaraciaba, a Guará, leva seus alunos por um passeio não apenas pela cidade que São Paulo é hoje, mas por tudo o que ela já foi. Esse é o mote de São Paulo: a aldeia que virou metrópole, de Silvana Salerno, com ilustrações de Bruna de Assis Brasil, lançado em 2o21 pela Escarlate.

No livro, há um convite também para conhecer mais a história do que chamamos de “progresso” e as injustiças históricas sobre as quais ele se construiu.

Conversamos com Silvana autora premiada e, a seguir, você confere trechos dessa deliciosa conversa.

Se quiser conhecer o livro, venha por aqui e leia um trecho!

Diversidade cultural na cidade em que cada bairro poderia ser uma cidade, com diz Silvana

Brinque-Book: O livro São Paulo – A aldeia que virou metrópole parte de uma situação comum para a maioria dos leitores: um passeio organizado pela escola e as aulas dos professores. Você queria aqui criar mesmo essa identificação?

Silvana Salerno: Ao desenvolver essa proposta não pensei na identificação de professores e alunos com o livro. Quando escrevo, sou de novo uma menininha curiosa, que adora o mundo da imaginação, e é ela quem dita o texto, pois é para ela e para todas as crianças que escrevo. Escrevo o que a minha criança gostaria de ler.

Quando escrevo, sou de novo uma menininha curiosa, que adora o mundo da imaginação, e é ela quem dita o texto, pois é para ela e para todas as crianças que escrevo

BB: E como veio então a ideia da Guará e sua turma de alunos? Silvana: O livro começou diferente e foi mudando. A primeira ideia que surgiu era a de alunos pesquisando e conhecendo a cidade. Conversando com o escritor Fernando Nuno [autor de O quintal da minha casa, da Companhia das Letrinhas], meu marido, surgiu a ideia de criar uma professora descobrindo a cidade com seus alunos. O nome indígena da professora é o mesmo de uma colega minha do Fundamental, que nunca mais vi: Guaraciaba, ou Guará.

BB: No livro, você vai contando a história da cidade como um grande bate-papo, com intervenções críticas da professora, comentários dos alunos sobre suas histórias e experiências com a cidade. A cidade é uma personagem. É assim que você vê São Paulo?

Silvana: É assim mesmo que eu vejo a nossa São Paulo: uma personagem que se relaciona com as crianças enquanto vão percorrendo sua história, suas belezas e suas tristezas.

BB: O que seria viver a cidade, para você?

Silvana: Viver a cidade, para mim, é vivenciá-la o mais profundamente possível. Essa vivência depende de cada pessoa, claro; cada um tem a sua ideia do que seja “viver” São Paulo.

Não é um reconhecimento, é uma descoberta, do centro e da periferia, dos bairros populares e dos bairros nobres. Vivemos numa cidade em que cada bairro poderia ser uma cidade grande

Para mim é perambular pelas ruas, andar sem destino, enxergando o que nunca vemos, mesmo que passemos todos os dias por ali. Descobrindo, no sentido da palavra, a vegetação, a arquitetura, as pessoas, as situações.

Curtir as pessoas, os programas culturais na rua, as praças, as festas de rua, os parques, os shows de música e dança, os slams de poesia, os saraus, os programas que a cidade oferece gratuitamente.

Não é um reconhecimento, é uma descoberta, do centro e da periferia, dos bairros populares e dos bairros nobres. Vivemos numa cidade em que cada bairro poderia ser uma cidade grande, imagine todos eles reunidos formando a nossa metrópole! E todos eles estão em contínua transformação.

E há muito a conhecer, a desvendar, a curtir e a ser transformado, em especial os serviços públicos nas periferias e comunidades.

BB: Você fala sobre São Paulo como se tivesse muitas lembranças da cidade. Há memórias afetivas nessa obra?

Silvana: Muitas! Andar pelo centro de São Paulo era coisa que eu fazia na infância, para fazer compras com minhas mãe e avó; na juventude, passeava com Fernando e amigos. Até o fim dos anos 1970, dava para andar a pé pela madrugada, sair de uma festa ou do Theatro Municipal e caminhar ou voltar a pé para casa.

Foi uma delícia pesquisar sobre a cidade. Juntei com o que eu já sabia na minha cabeça e fui compondo o livro, finalizando com o que acontece na atualidade, apontando um pouco do que precisa ser mudado na cidade, na sociedade

Sou apaixonada pelo centro, pela arquitetura, praças e árvores. Na reinauguração da Biblioteca Mário de Andrade [a principal de São Paulo e que fica na região central da cidade], após a reforma, em 2011, tive a alegria de dar uma palestra sobre a literatura popular brasileira e a minha obra. Sou muito ligada em artes – música, pintura, cinema, teatro e literatura, claro – e admiro a cultura de rua, a criação nas comunidades e na periferia, que conseguiu abrir espaço na sociedade.

Outro aspecto afetivo é que os personagens do livro receberam os nomes dos filhos dos meus amigos.

BB: Como foi seu processo de pesquisa para o livro?

Silvana: Foi uma delícia pesquisar sobre a cidade. Gosto de começar pelo início dos tempos. Assim, li os saborosos textos de Anchieta, Fernão Cardim, Pero Gandavo, Frei da Madre de Deus, Actas da Câmara da Cidade de São Paulo, obras mais recentes de Alcântara Machado e Caio Prado Jr., e os belíssimos livros de Roberto Pompeu de Toledo (A capital da solidão e A capital da vertigem), entre outros.

Juntei com o que eu já sabia na minha cabeça e fui compondo o livro, finalizando com o que acontece na atualidade, apontando um pouco do que precisa ser mudado na cidade, na sociedade.

O capitalismo, que chegou com força trazendo o chamado progresso e a pobreza e a marginalidade resultante desse progresso

BB: De tudo o que você pesquisou para o livro, o que mais chamou sua atenção na história de São Paulo?

Silvana: A rápida mudança que o café proporcionou, em meados do século XIX, transformando uma cidadezinha provinciana, com ruas de terra, numa capital. O capitalismo, que chegou com força trazendo o chamado progresso e a pobreza e a marginalidade resultante desse progresso.

BB: Você traz muito na obra sobre a importância dos povos indígenas, dos negros e também dos imigrantes. Tem um caráter político no seu texto, que faz pensar nas escolhas que foram feitas politicamente, antes de nós, especialmente nas explorações de que foram vítimas os povos originários e escravizados. Estamos em um momento em que esses são assuntos urgentes e cada vez mais debatidos nas escolas. Você imagina que sua obra possa ser um convite a essa conversa?

Silvana: Vejo São Paulo: A aldeia que virou metrópole como um convite a uma conversa, sim, a uma troca de ideias, a um debate social, político, artístico e histórico.

A preocupação com as populações indígena e negra está em mim desde a infância. Em todos os meus livros destaco a importância dos povos originários, que já haviam classificado e nomeado a flora, a fauna e os acidentes geográficos do Brasil quando os portugueses aqui chegaram. A cultura brasileira deve muito a esses povos formadores.

Isso aparece [também] no livro Viagem pelo Brasil em 52 histórias (Companhia das Letrinhas), que ganhou o Prêmio Figueiredo Pimentel da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).

BB: O livro recebeu uma resenha muito elogiosa da prestigiada revista literária Quatro Cinco Um, em sua edição n.o 50, de outubro do ano passado.  O autor da resenha, coordenador da Escola de Cidadania do Instituto Pólis, Rodrigo Faria G. Iacovini, fez um comentário que gostaríamos que você comentasse. Ele escreveu: “As desigualdades estruturais que sustentam [a cidade] – como o racismo e o patriarcado – estão na base da maioria dos problemas urbanos apontados pela professora Guará, como o acesso restrito à moradia e a precariedade da infraestrutura urbana em regiões pobres da cidade”. O autor pondera, a seguir, que não foi a ausência de planejamento que nos trouxe até essas questões.

Silvana: A crítica política e social está latente no texto, sem ter sido aprofundada. A obra foi pensada para um público muito jovem, em torno de 8 anos.

O final do livro, no entanto, aponta para a tomada de consciência da criança a fim de abordar as questões fundamentais da sociedade no âmbito social, político, econômico e cultural, para se tornar um cidadão consciente e ajudar a acabar com a desigualdade social criada pelo patriarcado ao longo dos séculos.

Como escreve Iacovini, “torço para que, nas próximas aulas, já comecem a traçar outros rumos para a metrópole, compreendendo São Paulo tanto como lugar de exercício da cidadania quanto como objeto do direito à cidade”.

BB: Como você imagina que possa ser a mediação do livro na escola e em casa, nas leituras em família?

Silvana: Já comecei a receber trabalhos feitos sobre o livro. O Francisco, que é personagem da história, acaba de me enviar um vídeo dizendo que adorou o livro, e que ele serviu para um trabalho de escola. Ele estuda em Santana do Parnaíba (SP) e está no terceiro ano.

Conhecer o local onde se vive é etapa fundamental do aprendizado; ajuda a criança a se apossar da cidade – que é sua –, a sentir pertencimento pelo local em que mora, a descobrir pessoas, ruas, praças, moradias, comércio, atividades culturais

Na escola e em casa, a mediação de leitura pode ser feita de várias formas: com a leitura por capítulos em classe, ou em casa, e a discussão em grupo, durante a aula; com a leitura de cada capítulo seguida de uma visita a alguma das localidades mencionadas.

Conhecer o local onde se vive é etapa fundamental do aprendizado; ajuda a criança a se apossar da cidade – que é sua –, a sentir pertencimento pelo local em que mora, a descobrir pessoas, ruas, praças, moradias, comércio, atividades culturais.

Conhecer a sua cidade também é etapa do crescimento, para que a criança aprenda a circular por ela. Conhecer a história da própria cidade é conhecer as raízes e adquirir memória, e a memória proporciona segurança e autoestima. Descobrindo o passado, compreendemos o presente e planejamos melhor o futuro.

BB: Você imagina que as escolas possam se inspirar na Guará para levar as crianças mais vezes a passeios nos diversos locais que você cita no livro?

Silvana: Eu adoraria que isso acontecesse. Gostaria de fazer esses passeios pela cidade com os meus colegas de escola, conhecendo in loco tudo o que São Paulo tem a oferecer.

***

São Paulo: a aldeia que virou metrópole

Autora: Silvana Salerno
Ilustradora: Bruna Assis Brasil
Faixa Etária: A partir de 8 anos (leitura independente)
R$ 39,90

 

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E você? Quais memórias têm de São Paulo?

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