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Como organizar rotinas e relações nos tempos de escola em casa

17/06/2020

Toda lição agora é de casa. Pelo menos por enquanto — e ainda sem perspectivas concretas de como e quando as aulas presenciais serão retomadas.

Para muitas famílias, mesmo compreendendo as razões para as aulas online, essa tem sido uma experiência exaustiva, confusa, com papéis misturados e, às vezes, ansiedade em relação às aprendizagens das crianças.

Comportamento esperado

Para as crianças, também não tem sido fácil esse momento. Muitos pequenos parecem desestimulados, sem vontade de participar das aulas online, ansiosos por reencontrar amigos e professores e retomar a rotina.

A tecnologia é mediadora nesses momentos, mas seu uso requer reflexões.  Imagem: Por que você não vem brincar?, de Ilan Brenman (texto) e Carlo Giovani

“Os pais trazem depoimentos de seus filhos, que dizem ‘isso não é escola’ [em relação às aulas em casa]. Ou referem-se à saudade de amigos e professores”, conta a coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental 1 do Colégio Santa Cruz (na zona Oeste de São Paulo – SP), Miriam Louise Sequerra.

Não se assuste se esse for o caso aí na sua casa. São comportamentos até certo ponto esperados.

Uma recente cartilha elaborada e publicada por pesquisadores da  FioCruz Brasília mostra os efeitos da quarentena da vida emocional das crianças.

Entre esses efeitos, estão dificuldade de concentração, irritabilidade, tédio, alterações no padrão de sono / alimentação e sensação de solidão.

Você também já percebeu algum desses sinais por aí?

Bate-papo com os especialistas

“A escola é espaço de relações. E são essas relações que têm feito mais falta”, avalia a psicóloga infantil Walquiria Castello Branco, que fez uma live sobre o tema a convite do Colégio Viver, localizado na região de Cotia, na grande São Paulo (SP).

Para ajudar você e suas crianças nesse momento, conversamos com duas especialistas, que analisam o isolamento social nessa perspectiva da criança longe da escola.

  • Primeiro, você lê nosso bate-papo com Miriam Sequerra, do Santa Cruz. Ela nos ajuda a avaliar o momento atual, faz importantes reflexões sobre como está a relação família – escola e sugere adaptações importantes para a vida em família durante o isolamento social.
  • Depois, você acompanha as dicas bem práticas da neuropsicóloga Danielle Rossini, do canal Bom Pra Cuca: com certeza, são ideias que podem melhorar a dinâmica para as crianças e adultos.
  • Não deixe de ver também, no final do post, os livros que sugerimos para compartilhar com as crianças que podem ajudar nesse momento.

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As crianças (e a escola) em casa

>>Miriam Louise Sequerra

coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental I do Colégio Santa Cruz (São Paulo, SP)

Blog da Brinque: Como as crianças estão lidando com essa situação de isolamento social e escola online, especialmente as menores (Infantil e Fundamental I)?

Miriam: Os comportamentos são variados. Inicialmente, para muitas crianças havia certa expectativa pela proposta de ensino remoto. Com o tempo, elas foram se dando conta das diferenças… Os pais trazem depoimentos de seus filhos, que dizem [que] “isso não é escola” [sobre as aulas online]. Ou referem-se à saudade de amigos e professores.

O momento atual requer adaptação e aprendizagens, não é mesmo? Imagem: Duda adora pular, de Stephen Michael King

Soubemos de crianças que vestiam o uniforme e “brincavam” de ir à escola, o que é bastante esperado, uma vez que o período que passam na escola é organizador da rotina e não o ter pode se tornar fonte de ansiedade pela desestabilização de um cotidiano que trazia segurança.

BB: Imaginamos que uma nova rotina escolar e a tecnologia tragam desafios também…

A realização de encontros frequentes por videoconferências e previstos na rotina permitiu maior aproximação entre crianças  professores e a possibilidade de criação de espaços de aprendizagem mais próximos daquilo que ocorria no ensino presencial.

Ainda assim, não é a mesma coisa: há crianças que ficam intimidadas, outras têm mais dificuldade em se manter na atividade ou de se colocar.

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O período que passam na escola é organizador da rotina e não o ter pode se tornar fonte de ansiedade pela desestabilização

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Além disso, a escola que vai para dentro de casa cria certas confusões: quem participa de uma roda de conversa que está na tela do computador? O que se espera da participação dos pais nesse momento? Questões que a prática vai propondo e que, também na prática, vão sendo resolvidas. Há, na verdade, uma grande necessidade de adaptação de todos os envolvidos.

BB: O que os pais podem esperar no comportamento das crianças em relação às tarefas escolares? Como acolher e apoiar as crianças?

Miriam: Em primeiro lugar, é importante compreender o que está acontecendo, conversar com a criança e ajudá-la a se expressar, falar do momento atual…

A escola está diferente, mas não só: o distanciamento social afetou bastante o dia a dia de muitas famílias e isso nem sempre está bem significado para os pequenos, que percebem as mudanças e sua relação com a pandemia, mas não necessariamente compreendem qual o alcance dessa situação e o que pode acarretar para as pessoas próximas.

Não se trata de criar pânico, mas de ter espaço para escutar dúvidas e receios que podem estar presentes, mas nem sempre são verbalizados.

BB: Ainda pensando no apoio às crianças, há muitos aspectos da vida escolar que precisam ser adaptados em casa, ajustes na relação família-escola…

Miriam: A escola tem um funcionamento e modos de relação que são claros no ambiente presencial da escola. Por exemplo: o que se espera da criança; aquilo que é permitido e estimulado na escola, aquilo que não é tolerado…

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Estamos vivendo uma realidade em que a relação de parceria e complementaridade entre família e escola precisa se fortalecer para ajudar a criança a compreender “que escola é essa”

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[Esse modo de relação] inclui estar com colegas considerando regras necessárias de convivência, realizar atividades escolares considerando tempos e espaços próprios, relacionar-se com o trabalho escolar, receber ajuda e estímulo dos professores..

Todos esses são exemplos de “fazeres” relacionados à escola.

Esses “fazeres” nos ambientes virtuais requerem uma grande adaptação, não apenas das crianças, mas também das famílias que, mais do que nunca, no caso das crianças pequenas, estão empenhadas e envolvidas nas tarefas escolares.

É fundamental que as reações das crianças a essas propostas sejam compreendidas nesse contexto e que a busca por soluções seja fruto de reflexão e de discussão da escola em parceria com a família.

Estamos vivendo uma realidade em que a relação de parceria e complementaridade entre família e escola precisa se fortalecer para ajudar a criança a compreender “que escola é essa”.

BB: Como os pais podem ajustar as próprias expectativas em relação ao desempenho das crianças e às questões de conteúdo, por exemplo?

Miriam: As equipes de professores trabalham incansavelmente para adaptar as atividades ao ensino remoto, buscando favorecer a aprendizagem dos conteúdos previstos no currículo de cada nível escolar, adaptando-as às potencialidades e aos limites do ensino remoto, e às necessidades específicas de cada criança.

Tudo é igual, mas está diferente: como se encontrar quando os espaços público e privado se misturam? Imagem: Ludi vai à praia, de Luciana Sandroni (texto) e Eduardo Albini (ilustrações)

Além disso, estão atentas à produção individual e do grupo de alunos, o que lhes permite planejar as ajudas necessárias. É importante, então, que os familiares ofereçam as ajudas necessárias, mas permitam que as crianças coloquem em jogo o que sabem.

As dúvidas em relação à aprendizagem precisam ser encaminhadas à escola e esse diálogo sobre o processo de cada criança será rico e produtivo se esse canal de comunicação estiver aberto e marcado por uma relação colaborativa e de confiança mútua.

BB: Como organizar a rotina em casa para acomodar essas novas necessidades?

Miriam: Na medida do possível, é importante garantir momentos e espaços de trabalho adequados, em que a criança possa se dedicar sem se dispersar e possa trabalhar com um distanciamento ótimo em relação aos adultos — que precisam estar disponíveis a ajudá-la em caso de necessidade (tanto em relação às atividades escolares como em relação ao uso da tecnologia).

Isso é muito diferente, porém, de um apoio constante ou de uma proximidade tão grande, que termina por significar ‘fazer pela’ criança. O adulto precisa apoiar a criança para que ela tenha todas as condições de realizar por si mesma as propostas escolares.

Essa distância ótima, no entanto, nem sempre é simples. Os pais estão envolvidos em suas próprias atividades profissionais, computadores e tablets precisam ser compartilhados com irmãos…

É preciso que as famílias busquem a melhor rotina para acomodar diferentes demandas e necessidades. Há algumas atividades escolares que precisam ocorrer em horários fixos (os encontros virtuais por videoconferência), mas é preciso que a escola tenha certa flexibilidade de horários para se adequar às novas realidades vivenciadas pelas famílias.

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É interessante que a criança, dentro de suas possibilidades, participe da divisão de tarefas domésticas e que haja espaço para atividades não escolares

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É interessante que a criança, dentro de suas possibilidades, participe da divisão de tarefas domésticas e que haja espaço para atividades não escolares, de interação entre as pessoas que estão em casa.

Brincar, jogar, ouvir/ler histórias, contar causos e outros momentos descontraídos de convivência valorizam e estreitam os vínculos familiares e, por isso, são momentos que precisam compor a rotina nesse tempo em que é preciso ficar em casa.

BB: Como ajudar na lição, ou seja: os pais têm de explicar, sanar dúvidas, em que medida interferir ou participar?

Miriam: No caso dos pequenos, que ainda requerem ajuda para compreender o que se espera deles em cada proposta escolar e que, além disso, não têm autonomia para lidar com os dispositivos eletrônicos, não é possível esperar que as atividades escolares propostas em ambientes virtuais sejam realizadas com autonomia.

Oferecer a ajuda necessária (ler uma orientação escrita, explicar uma proposta, lidar com aplicativos e plataformas virtuais  são exemplos de ajudas importantes) é quase uma condição para a realização das atividades.

O esperado é que, contando com essas ajudas, as crianças sejam capazes de realizar [as atividades propostas] à sua maneira. Deixar que as realizem como podem e contar com os retornos dos professores para as intervenções é suficiente.

No entanto, ocorrem e são comuns algumas resistências em realizar as lições, dificuldades em compreender os desafios ou a sensação de não contar com conhecimentos suficientes para fazer o que é pedido em determinada proposta. Talvez seja necessária alguma explicação do adulto.

Mas, se isso for frequente ou sem esse apoio constante a criança não consiga se colocar minimamente, o mais interessante é buscar a orientação da escola para compartilhar as dificuldades e dúvidas.

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5 dicas para se organizar com as crianças

>>Danielle Rossini

neuropsicóloga infantil do canal Bom pra cuca

1-) Reconheça as necessidades de todas e todos

A primeira dica passa por entender o que é apoio, segundo Danielle.

Cada um tem suas necessidades e precisa de seu tempo respeitado. Cabe aos adultos reconhecer, organizar e dar contorno às experiências das crianças. Imagem: Manu e Mila, de André Neves

“O que é apoio? O apoio é um podendo reconhecer o que é o outro, o que o outro precisa, como é que o outro funciona para a gente poder apoiar no que o outro precisa — e não necessariamente no que o outro quer”, explica ela.

Por exemplo, é claro que as crianças querem a nossa atenção o tempo todo, mas o que elas precisam é de um pouco da nossa atenção e também um pouco de autonomia.

Não podemos nos esquecer de que, quando estavam na escola, as crianças tinham um espaço de privacidade e de autonomia em sua relação com as crianças e com outros adultos; assim, exercitavam as relações para além do que é familiar.

E a gente também precisa de um tempo nosso para poder fazer diversos trabalhos.

Na minha rotina, eu posso ficar em função das crianças e tenho que dividir com atividades da casa? Eu tenho que dividir com as coisas da casa, as crianças e o trabalho? Do que preciso? Do que as crianças precisam?

2-) Aceite e acolha as imperfeições

“Muito possivelmente, na sociedade contemporânea, a gente nunca teve que passar por um momento tão complexo, em que tínhamos de dar conta de tantos elementos com esse nível de complexidade. As crianças o tempo todo em casa, a gente dar conta de tudo o tempo todo, trabalhar de casa”, pondera Danielle.

Para ela, é preciso normalizar imperfeições, erros, mudanças de rotas, porque estamos no meio de um processo de aprendizagem. “Temos que trabalhar mais com o possível e menos com o ideal”.

3-) Organize muitas rotinas

“Para um poder apoiar o outro, a primeira coisa que a gente precisa talvez seja organizar. Organizar o dia, o nosso jeito de funcionar… A boa e velha rotina é bacana nesse sentido”, nos conta Danielle.

A rotina é organizadora, dá uma sensação de previsibilidade, tanto para adultos quanto para as crianças.

Mas é importante entender que são muitas rotinas, não uma só: quer dizer, a rotina precisa ir mudando para se ajustar às necessidades que vão surgindo com a evolução do isolamento social.

“Aquilo que estava funcionando no começo, talvez precise de ajustes pra continuar funcionando como uma rotina pra gente. Precisa de ajustes para se manter funcional”.

4-) Idealize rodízios e turnos

“Tem um item que vale a pena a gente pensar, que é a regulação emocional. Não basta só a gente ser aquela pessoa que consegue dar conta, que consegue ‘não explodir’, que consegue ‘ser zen'”, diz Danielle.

É necessário ter momentos de alívio de tensão. Em casa, meio enclausurados o tempo todo, alguns escapes habituais deixam de ser possíveis. Vamos inventar outros!

Organizar — e modificar — a rotina é uma ótima maneira de recuperar a sensação de previsibilidade. Imagem: Cadê o juízo do menino?, de Tino Freitas (texto) e Mariana Massarani (ilustrações)

“Se tiver mais do que um adulto na casa, vale a pena considerar uma certa ideia de rodízio”, recomenda Danielle.

E depois troca o turno ou alterna os dias, como for mais funcional pra cada um. Porque assim temos a sensação – de novo – de previsibilidade, de rotina. Consegue ter momentos em que descansa ou se dedica integralmente apenas a uma única atividade, sem precisar trabalhar e supervisionar as crianças — ou arrumar a casa e ajudar na lição de escola do mais velho.

Para Danielle, a atenção dividida o tempo todo em atividades importantes traz um nível de tensão que, sustentado, aumenta a irritabilidade. O rodízio e os turnos podem ajudar nisso.

5-) Combine atividades concentradas com outras de relaxamento

É assim que já funcionamos normalmente: aguentamos um período de atividades intensas — seja física ou intelectualmente — e depois precisamos relaxar.

Os pequenos são iguais. A diferença é só o tempo de descanso ou atividades que aguentam. Conforme crescem, vão dando conta de ficar mais tempo sendo exigidos e mais tempo relaxando.

“Excesso de atividade irrita e excesso de inatividade deixa a gente entediado”, explica Danielle.

A psicóloga sugere que organizemos as agendas pensando em ter momentos de intensa atividade e outros de relaxamento – nós e as crianças.

Dependendo da idade da criança, o relaxamento dela pode ser nossa hora de trabalho ou vice-versa. O filho mais velho, que não precisa de supervisão na aula online, por exemplo, pode estar concentrado enquanto você medita.

O pequeno pode ver uma contação de história e aí você trabalha. Depois, vocês se juntam para brincar.

Vale colocar a família e os amigos no circuito, ainda que virtualmente. Uma ligação de vídeo para os avôs pode render um momento de leitura, um banho e até uma “imersão” no trabalho para as mães e pais.

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Conheça 3 livros para ler com os pequenos

1-) O urso rabugento

Autor: Nick Bland
Ilustrador: Nick Bland
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Conto / Humor / Animais / Convivência social
Faixa Etária: A partir de 2 anos

Num dia de chuva e vento, uma zebra, um alce, um leão e uma ovelha procuravam um lugar para brincar – e achavam que tinham encontrado o local ideal numa caverna seca e quentinha. Mas eis que a caverna já conta com um inquilino e ele não quer saber de companhia! Como será que os quatro amigos vão acabar com a rabugice do urso?

>>POR QUE LER: Essa obra foi uma indicação de Danielle. Na história, o urso e os animais vão reconhecendo as necessidades uns dos outros e aprendendo a respeitar os limites.

E, aí abaixo, você pode assistir a contação de Marina Bastos. Só dar play:

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2-) Quando minha mãe virou um monstro

Autora: Joanna Harrison
Ilustradora: Joanna Harrison
Tradutora: Gilda de Aquino
Temas: Ética / Conto / Humanos / Boas maneiras / Imaginação / Dia das Mães (2º Domingo de Maio) / Cooperação / Obediência
Faixa Etária: A partir de 3 anos

Ao receber a notícia de que os sobrinhos vêm lanchar, mamãe fica desesperada. A casa está uma bagunça, não há nada para servir para as visitas e a pobre mãe não sabe por onde começar… Enquanto isso, os filhos só pensam em brincar. Em vez de arrumar suas coisas, sempre encontram outras para desarrumar, um motivo para brigar e outro para chorar. De repente, uma coisa estranha acontece com Mamãe…

>>POR QUE LER: Ganhador do selo Acervo Básico, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), essa obra é ótima para mostrar às crianças que adultos também se desorganizam e que, quando vivemos em grupo, somos corresponsáveis pelas relações.

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3-) Você não vem brincar?

Autor: Ilan Brenman
Ilustrador: Carlo Giovani
Tradutor: Não
Temas: Brincadeiras / Tecnologia
Faixa Etária: A partir de 3 anos

Nesta história tão divertida quanto atual o premiado autor Ilan Brenman conta a história de Pedro, um menino que, de tão distraído com suas brincadeiras eletrônicas, quase se esquece que há brinquedos que não precisam de bateria. Será que ele consegue encontrar um equilíbrio entre esses dois modos de brincar?

>>POR QUE LER: Com um texto minimalista e ilustrações que vão narrando os acontecimentos, a obra trata do uso exagerado da tecnologia, um tema bem atual.

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E você? Como tem sido essa experiência na sua casa? Compartilhe com a gente nos comentários!

 


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