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Pedro e o portal é aventura e distopia para jovem leitor; leia entrevista

18/03/2021

Procurando um livro de aventura para seu jovem leitor? Precisa conhecer Pedro e o portal, da autora Glaucia Lewicki, com ilustrações de Valentina Fraiz, lançado por Escarlate em janeiro.

Pedro e o portal jovem leitorComo seria visitar o futuro ou conversar com o passado: será que o presente mudaria? Imagem: Pedro e o portal, de Glaucia Lewicki (texto) e Valentina Fraiz (ilustrações)

Imagine um pré-adolescente que, aos 10 anos, faz uma viagem no tempo. Sem saber nem querer. Agora imagine que esse jovem viajante não é uma pessoa comum; é ninguém menos que Dom Pedro I, que vai parar em 2018.

No futuro, precisa ajudar outros dois pré-adolescentes a resolver a confusão armada na nossa História quando deixou o passado para se instalar no nosso presente.

Essa narrativa combina aventura, personagens instigantes e questões bem típicas da faixa etária com temas do presente, uma leve distopia e uma prosa ágil, que não dá vontade de parar de ler, sabe como é?

Vale conhecer aqui a página do livro, onde é possível ler um trecho da obra.

Por que Dom Pedro I?

Para falar sobre essa obra com tantas possibilidades, conversamos com Glaucia Lewicki sobre o livro, a figura histórica escolhida para a narrativa e também sobre literatura, memória, história, presente e leitura para jovens leitores.

Pedro e o portal jovem A autora Glaucia Lewicki: “gosto de combinar elementos aparentemente díspares, como independência (do país ou pessoal) e poder (de um soberano ou de um influencer)”. Imagem: acervo pessoal

Será que o youtuber Felipe Neto acerta ao defender que autores e livros clássicos são para jovens adultos? Glaucia tem opinião sobre o tema e fala disso também!

Confira os principais trechos de nosso bate-papo, concedido por e-mail e por trocas divertidas de mensagem pelo WhatsApp.

BB: Por que Pedro I?

Glaucia: Ah, o Pedro! Porque como todo personagem controverso, ele é um prato cheio para um autor. Embora me identifique muito mais com o jeito de ser do filho dele, considero Pedro I um dos personagens mais fascinantes da História do Brasil.

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Impulsivo, meio arrogante e, ao mesmo tempo, capaz de abraçar grandes causas e realizar feitos de igual proporção

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Impulsivo, meio arrogante e, ao mesmo tempo, capaz de abraçar grandes causas e realizar feitos de igual proporção, nosso primeiro imperador teve uma vida curta e muita intensa, o que desperta a atenção do leitor, seja na esfera pública ou em sua vida privada, até hoje.

É um personagem de muitas facetas e de uma grande riqueza dramática, perfeito para viver uma aventura fora do comum, onde fossem necessárias adaptabilidade (algo que ele tinha de sobra) e muita ousadia.

BB: Como foi seu processo de pesquisa histórica tanto para as personagens quanto para fatos e locais?

Glaucia: Biografias sobre Pedro I foram úteis, assim como livros sobre a vinda da família real, a independência do Brasil e costumes do tempo de Dom João e do Primeiro Reinado.

A internet forneceu muito material, também, inclusive vídeos sobre o Museu Nacional, possibilitando a visualização dos ambientes perdidos no incêndio.

Muitas informações foram se juntando ao texto aos poucos, conforme foram aparecendo nas pesquisas. Li, por exemplo, em um site, sobre uma possível hiperatividade de Pedro e refiz uma cena para incluir essa característica que, mesmo não sendo nomeada, pode ser percebida no livro, pois ele não para quieto.

BB: E o seu processo criativo, como é? Você trabalha com os cadernos no seu processo de criação, certo? Como funciona? Anota os resumos dos capítulos? Vai mudando, adaptando? Você faz um caderno por livro?

Glaucia: Sim, mais ou menos! Eu tenho procurado traçar a história toda, com uma pequena escaleta de cada capítulo, mas já percebi que, assim, embora tenha um norte, eu mudo muita coisa.

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Minha forma favorita de trabalhar é dar a partida e planejar os próximos dois, três capítulos à mão, inclusive fazendo perguntas para mim mesma

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Muita coisa vai mudando, embora a espinha dorsal se mantenha. Normalmente não sei o final, embora no caso de Pedro e o portal eu tivesse que colocar as peças do jogo de volta aos seus lugares.

Abro um caderno para cada livro, escolhendo qual é a capa que mais tem a ver com a história! Se, ao final do processo, sobram folhas, às vezes anoto outras histórias.

BB:  Tem uma troca com os jovens leitores? Há algum jovem leitor que faça uma primeira “crítica” do que você escreve?

Glaucia: A experiência na escola [Glaucia é educadora e dirige uma escola, no Rio de Janeiro – RJ] me ajuda muito na observação do comportamento e dos gostos das crianças, mas meu processo criativo não é compartilhado detalhadamente com ninguém.

Há uma interatividade com os leitores, sim, sempre converso um pouco com eles nos encontros nas escolas, sobre as histórias que estou escrevendo, mas as pessoas só costumam lê-las depois de prontas.

Como as histórias costumam ser longas e, às vezes, mudam de rumo no meio do processo, não faço força para que leiam o livro antes de publicado, a fim de não tirar delas o prazer da leitura de um livro devidamente revisado, diagramado e ilustrado.

Pedro e o portal jovem leitorCadernos, anotações, perguntas, cores: detalhe do processo criativo de Glaucia para Pedro e o portal. Imagem: acervo pessoal

Assim, quando preciso de um leitor para fazer uma primeira crítica, costumo pedir a um adulto que esteja disposto a ler uma história ainda não lapidada, para dar uma olhada. No caso do Pedro e o portal, foi minha mãe, que fez uma observação que me ajudou a mudar o rumo da história.

Passado no presente

BB: Na narrativa, você traz uma série de elementos fundamentais do mundo de hoje: tematiza, por exemplo, as redes sociais ao criar um imperador, no “presente alternativo” que faz lives e tem seguidores para quem performar. Trata do Museu Nacional e das relações e conflitos da adolescência. Como foi combinar esses elementos todos? O passado pode falar do presente e vice-versa?

Glaucia: Eu gosto de combinar elementos aparentemente díspares e, o tempo todo, o livro conecta manifestações diferentes de uma mesma questão, como independência (do país ou pessoal) ou poder (de um soberano ou de um influencer).

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É possível que o passado fale do presente não apenas pelos vestígios históricos, mas porque certas questões são atemporais

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Criar essas relações entre tipos diferentes de independência ou poder foi um desafio e, ao mesmo tempo, o que deu sabor à criação do livro, pois me permitiu trabalhar em vários níveis, não apenas de tempo (de onde vinha o poder no passado, de onde ele vem agora), mas também de pontos de vista, contrastando a independência de personagens como Pedro e Estela com a falta de iniciativa do Lipe.

Sim, é possível que o passado fale do presente não apenas porque vestígios históricos do passado podem ser encontrados no presente (e vice-versa), mas porque certas questões, como o processo de amadurecimento, o desejo de autonomia e a busca pelo poder são atemporais.

BB: Pedro e o portal é cheio de referências ao universo pop, como as que trazem para a aventura as cinesséries De volta para o futuro e Star Wars. Esses filmes fazem parte do seu imaginário?

Glaucia: Nossa, esses filmes têm um lugar muito especial no meu imaginário! De volta para o futuro é um dos meus filmes favoritos e está na base do livro, inclusive com o que chamei de efeito Marty McFly, que é a mudança lenta do presente quando certos fatos deixam de acontecer no passado ou tomam outros rumos.

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É uma característica minha brincar com essas referências, até mesmo para ver se elas despertam a curiosidade do leitor

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Além disso, os títulos de vários capítulos flertam com outros filmes (O império contra-ataca, O Jardineiro Fiel, o Rapto do Menino Dourado, Independência ou Morte), novelas (Deus salve o Rei), música (Menino do Rio) e até antigos contos (A Roupa Nova do Rei).

É uma característica minha brincar com essas referências, até mesmo para ver se elas despertam a curiosidade do leitor e fazem com que ele queira saber mais sobre um determinado produto cultural.

BB: Por que essa combinação livro-série pode “dar samba” na sua opinião? Acha que pode ser uma oportunidade de os pais verem essas produções com os filhos?

Glaucia: Esse cruzamento de referências, essa combinação livro- série é, para mim, um incentivo a conectar pais e filhos por meio da memória, algo que prezo muito.

É uma ótima oportunidade para os pais mostrarem algo que já curtiram muito (ou ainda curtem), sem serem automaticamente rejeitados pelos filhos.

BB: Você escolheu escrever um romance histórico, que traz referências e fatos da nossa História, mas bem combinado com uma narrativa de aventura e suspense, com um pouco de distopia. Esses gêneros ainda são os que mais animam os jovens leitores?

Glaucia: Os leitores, eu não sei, mas a autora, com certeza! Brincadeira, acho que sim, são gêneros que chamam a atenção dos jovens leitores, que também costumam apreciar humor e uma pitada de romance.

Jovem leitor gosta de ler

BB: O que os jovens gostam de ler?

Glaucia: Algo que consiga envolvê-los, fazendo com que, de alguma forma eles se identifiquem com um personagem o suficiente para desejarem seguir sua jornada.

Acredito que esse envolvimento tem mais a ver com a personalidade e os dilemas dos protagonistas e antagonistas do que propriamente com o cenário ou gênero da história.

Quando essa ligação especial com os personagens é estabelecida, pode ser distopia, pode ser suspense, romance, mistério, não importa. A história será lida.

>>Leia também: esta conversa com a livreira espanhola Lara Meana, que nos convida a continuar lendo com e para as crianças, mesmo quando crescem um pouco 😉

Pedro e o portal jovem leitorOs jovens são ótimos leitores, embora a gente ainda costume achar que eles não gostam de ler. Será mesmo? Imagem: Pedro e portal, de Glaucia Lewicki (texto) e Valentina Fraiz (ilustrações)

BB: Na sua opinião, vale dar os clássicos para os adolescentes? Esse é um debate que vem sendo feito publicamente, se é importante ou não apresentar — e até obrigar a leitura — de livros de autores consagrados do cânone. O que você pensa sobre isso?

Glaucia: Sou dividida em relação a essa questão desde os tempos de colégio! Não gostei nem um pouco de ter que ler alguns clássicos na escola; porém, adorei ser apresentada a outros, que eu não leria se não fosse por obrigação, digamos assim.

Por isso, no final das contas, sou a favor da leitura de alguns clássicos na adolescência. Afinal, estamos na escola para sermos desafiados também, e não ficar apenas em nossa zona de conforto.

Mas é preciso ter bom senso e não transformar o desafio em suplício. Assim, acredito que o trabalho com contos, por exemplo, pode abrir caminho para a leitura de um romance mais denso posteriormente.

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Estamos na escola para sermos desafiados também, e não ficar apenas em nossa zona de conforto; Mas é preciso ter bom senso e não transformar o desafio em suplício

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Além disso, traçar paralelos dos clássicos com histórias contemporâneas e amadas pelos alunos sempre ajuda, sejam elas em forma de outros livros ou filmes. Uma boa contextualização e mediação são essenciais para tornar a leitura dessas histórias mais atraentes, compreendidas e valorizadas, assim como priorizar a qualidade e não a quantidade.

Um ou dois clássicos bem trabalhados durante o ano possuem, em minha opinião, mais efeito do que dar conta de uma lista extensa de títulos, onde a quantidade se sobrepõe a uma leitura mais cuidadosa.

>>Para saber mais sobre esse tema, leia também: esta reportagem do Estadão; esta coluna na Folha.

História, oralidade e memória

BB: Como educadora, comunicadora e autora, como você avalia a participação desses momentos compartilhados pela família, com narrativas e histórias orais, memórias e “causos” de família na formação leitora e no interesse das crianças por histórias e História?

Glaucia: Eu acredito que qualquer pessoa tem o direito de ter uma história e conhecê-la. Sim, é claro que todos temos uma história, mas ela só se solidifica e sobrevive diante da afetividade familiar, que preenche, com suas narrativas, as lacunas da memória, especialmente aquelas mais distantes, pertencentes aos primeiros anos de vida.

Saber de onde viemos, quais são nossas raízes, conhecer quem são aqueles que vieram antes de nós é imprescindível, para mim, na construção de um ser humano e do caminho que ele pretende trilhar no mundo.

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Narrativas familiares são fundamentais na formação da memória das crianças e no desenvolvimento posterior de seu interesse pela leitura e acontecimentos históricos

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Como educadora, faço questão, no início do processo de aprendizagem efetiva do conteúdo de História, de pedir que os alunos construam sua linha do tempo, destacando um acontecimento marcante de sua vida por ano, do nascimento até os dias atuais.

É uma atividade da qual não abro mão, pois considero essas narrativas familiares fundamentais na formação da memória das crianças e no desenvolvimento posterior de seu interesse pela leitura e acontecimentos históricos. Com essas histórias aprendemos a ouvir; nos acostumamos com a estrutura das narrativas, estruturamos nosso pensamento, reforçamos laços afetivos, compreendemos que temos um passado e que ele tem muito a nos transmitir e ensinar.

BB: Você dedica o livro aos seus pais e comenta sobre a importância de ter uma história, que eles compartilharam com você. Lembra de algum fato curioso ou memorável ou afetivo ou engraçado dessas memórias de família que você possa compartilhar com a gente?

Glaucia: Nossa, são muitas lembranças! Mas uma das mais queridas tem a ver justamente com a razão das minhas memórias serem tão vívidas. Quando eu era criança, meus pais tinham o hábito de realizar sessões de slides, comigo e com meu irmão.

Enquanto os slides escolhidos daquela noite eram projetados, eles contavam as histórias que as fotografias evocavam: podia ser o noivado deles, o nascimento de um dos filhos, um de nossos aniversários, o período que moramos em João Pessoa, na Paraíba, antes do meu irmão nascer…

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Conseguimos nos emocionar e nos divertir com as mesmas histórias, como se fossem filmes queridos que estivéssemos assistindo de novo

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Essa “contação” de histórias se repetia periodicamente, o que acabou por solidificar memórias muito antigas; algumas, até que, curiosamente, nem presenciei.

A narração deles foi uma espécie de fio que uniu e manteve no lugar as lembranças, de tal forma que não sou capaz de separar o que é memória “real” do que apenas foi ouvido durante esses encontros.

Tenho um enorme carinho por essas projeções de slides. Hoje, mesmo sem as fotos projetadas na parede da sala, ainda seguimos a tradição de contar e recontar memórias em reuniões familiares. E conseguimos nos emocionar e nos divertir com as mesmas histórias, como se fossem filmes queridos que estivéssemos assistindo de novo. E, assim, elas se renovam e seguem adiante.

BB: E como as  suas memórias se conectam às histórias?

Glaucia: Sobre as histórias e memória, desde muito cedo comecei a conectar as leituras às pessoas que me contavam aquelas histórias e me davam os livros.

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Quando penso em Dona Baratinha, ela me conecta à minha avó; quando penso no Pequeno Príncipe, é a outra avó que me vem à lembrança

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Então, quando penso em Dona Baratinha, imediatamente ela me conecta à minha avó; quando penso no Pequeno Príncipe, é a outra avó que me vem à lembrança…

As histórias que ouvi ou li ficaram intimamente ligadas às pessoas que me levaram até elas. Isso só reforçou, para mim, encontrar na experiência leitora também a formação (e manutenção) de uma memória afetiva.

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E você? Qual a experiência leitora com os leitores crescidinhos por aí?

 


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