Select Your Style

Choose your layout

Color scheme

Blog
 
 

BLOG

Memória e afeto: livro trata de perdas e crescimento para jovem leitor

06/09/2021

Todos os dias, dois amigos se encontravam na praia. Um era menino e vinha voando em sua bicicleta; o outro, sem pressa, chegava apoiando-se em sua bengala. Havia uma ponte entre eles, que o menino cruzava alegremente. Sentavam-se em um banco diante do mar e lá viajavam, juntos, entre picolés e silêncios, revelações e perguntas.

Texto poético e ilustrações delicadas e cheias de vida falam de crescimento e transformação. Imagem: O lugar do meu amigo, de Marcia Cristina Silva com ilustrações de Catarina Bessell

Um dia, porém, o mais velho não pôde mais voltar, cruzou outra ponte, e o menino descobriu a saudade.

Com um texto poético, que fala diretamente à sensibilidade do leitor, a autora Márcia Cristina Silva conta a história de um menino e de seu amigo, de um neto e de seu avô, das relações que carregamos em nós, mesmo muitos anos depois de ausentes.

“Eu escrevo aquilo que gostaria de ler, e a história que eu precisava estava dentro de mim, pedindo para ser escrita”, conta Marcia, enumerando alguns dos temas de que seu novo livro – O lugar do meu amigo – trata e que eram questões que ela, intimamente, gostaria de trabalhar: “crescimento, transformações, perdas, saudade e ressignificações”.

Crescimento, perdas, saudades, memória e ressignificações

Esses temas a que Marcia se refere já estão na vida dos jovens leitores. O lugar do meu amigo oferece a eles um espaço lírico seguro e delicado para acessar os diversos sentimentos que esses temas mobilizam internamente.

“Para mim, o texto da Marcia – e eu fico até um pouco emocionada quando eu falo isso -eu não tinha processado direito a morte do meu avô. Por mais que eu sentisse falta dele, quando ele morreu, eu estava num outro momento da minha vida. Quando veio esse texto, eu achei que seria um bom momento para resgatar essas memórias e voltar para esse lugar”, conta a ilustradora Catarina Bessell, que ilustrou esse livro.

Essa visibilidade ao que nem sempre fica tão claro para o jovem leitor, como no depoimento acima de Catarina, é uma das forças do livro e da literatura.

O processo de crescimento e amadurecimento, pelo qual estão passando todos os jovens leitores, mistura memórias e ganhos;  projeções e perdas, inclusive simbólicas, às vezes mais difíceis de serem elaboradas.

Amizade não tem idade. Imagem: O lugar do meu amigo, de Marcia Cristina Silva com ilustrações de Catarina Bessell

O lugar do meu amigo é um convite a elaborar esse momento, mas com muita leveza.

Marcia conta que o que a inspirou a escrever foi a morte de sua tia, Zaida, a quem ela dedica a história. Ela conta que esse processo foi uma forma de reencontrar a mulher que a criou e perceber como as pessoas que amamos fazem parte da gente. “É uma ressignificação”, diz ela.

Uma ideia otimista e bonita – lírica – que pode funcionar para todos os tipos de perda.

Poesia para crianças e jovens leitores

Autora de Retratos da infância na poesia brasileira (Editora da Unicamp, 2017), ela conta que foi através da poesia que descobriu a literatura para a infância e justifica sua escolha pela prosa poética para narrar essa história justamente pela relação entre crianças e poesia.

“Acredito que a criança tem o olhar poético naturalmente aguçado, e nós, adultos, precisamos trabalhar este olhar através da linguagem, tal como os poetas”, explica.

A linguagem em O lugar do seu amigo ressalta as emoções, os sentidos, a sensibilidade, lançando mão de recursos como figuras de linguagem e imagens líricas potentes para nos convidar a um mergulho para dentro do menino — e de nós mesmos: o luto, as dúvidas, as experiências, as relações familiares, o crescimento, as transformações, os sentidos da vida e a falta deles, sua bicicleta, sua mochila.

O texto, aparentemente simples, direto, curto, é trabalhado, burilado, lapidado.

“Penso e repenso nas palavras dentro de cada frase, releio o texto em voz alta diversas vezes para verificar o ritmo, se está coloquial e próximo da fala da criança. O texto que aparentemente flui de forma simples e natural é resultado de um trabalho bem minucioso, de uma escuta atenta à criança que existe e resiste dentro de mim, pedindo para ser constantemente reinventada e acolhida dentro de novos olhares”, conta Marcia.

Pela Brinque-Book, Marcia publicou também O colecionador de segredos (2004), obra de estreia da autora e ilustrada por André Neves, selecionada para o Acervo Básico da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), em 2004, que também figurou no Catálogo de Bolonha (Bologna’s Children Book Fair) de 2005.

Traços e colagens: poesia nas ilustrações

As imagens potentes da prosa poética de Marcia se repetem na poesia visual de Catarina Bessell, que ilustra o livro. Uma das suas técnicas favoritas, a colagem, que também está em O lugar do meu amigo, traz uma nova força à atmosfera lírica que permeia o texto.

Catarina Bessell fez uma ampla pesquisa em fotos e usou colagem digital para as ilustrações. Imagem: O lugar do meu amigo, de Marcia Cristina Silva com ilustrações de Catarina Bessell

“A colagem é um jeito de inventar mundos recortando e colando pedaços de realidade”, diz ela, que já ilustrou dezenas de livros e colabora frequentemente com jornais e revistas como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Valor Econômico.

Ela conta que o texto de Marcia foi muito tocante para ela, que então desenhou imagens que colocassem o leitor dentro da cena, que o ajudasse a sentir as emoções do menino, por vezes compartilhando seu próprio ponto de vista.

“Busquei fazer ilustrações um pouco mais abstratas, que colocassem o leitor na visão da personagem. Então tem horas que você vê o mar como o menino e o avô estão vendo; a tempestade, o céu. Tem horas em que a ilustração é como se fosse a imaginação do menino, vendo a andorinha voando entre as constelações e costurando aquelas estrelas”, conta Catarina.

Ao pensar nas cores, optou por variações dos diversos tons de verde, azul e cinza que o mar pode assumir. Já para o menino, pensou em usar amarelo e vermelho para lhe fazer vibrar a vida.

Coincidentemente, a ilustradora viveu uma relação muito forte e de muito afeto com o avô, assim como o menino de O lugar do meu amigo. Foi nesse avô, com quem ela viajava para o Guarujá, no litoral de São Paulo, que Catarina se inspirou para criar as ilustrações do livro.

“Quando li o texto da Marcia, fui imediatamente para esse lugar, o lugar das minhas férias”, conta Catarina, relembrando que recorreu a seu álbum de fotos da infância para criar o avô do livro, inspirado em seu próprio avô. “Até a paleta de cores vem dele, a calça jeans, o colete cáqui”.

“O que tem no texto da Márcia que eu achei muito poético é exatamente isso: nos colocar nesse lugar de identificação com essa história”.

Um bate-papo com as autoras

Sobre essa história tão bonita e rica, conversamos com a autora e com a ilustradora. Confira, abaixo, os principais trechos dessa conversa:

Marcia Cristina Silva: “A criança tem um olhar poético naturalmente aguçado

Para a autora, os livros e as histórias são modos de encontrarmos aquilo que já temos dentro de nós: narrativas falam mais dos sentimentos que dos fatos.

Blog da Brinque: Como é que veio essa história para você, o que te inspirou?

Marcia Cristina Silva: Na verdade, esta história foi criada pela necessidade de trabalhar algumas  questões dentro de mim, como: crescimento, transformações, perdas, saudade e ressignificações que precisamos fazer ao longo do tempo.

Eu escrevo aquilo que gostaria de ler, e a história que eu precisava estava dentro de mim, pedindo para ser escrita. Acredito que esta é a melhor forma do livro também chegar até outros leitores: através de uma comunicação direta entre corações que se escutam, que pulsam em sintonia, mesmo sem se conhecerem.

—“

Apesar de diferentes, temos muito em comum, como o mesmo espanto diante da vida, do passar do tempo, da morte. O medo do abandono, a necessidade de crescer e de fazer novas descobertas.  Questões fundamentais são vividas por todos, cada um de um jeito, mas elas são sempre as mesmas

“—

BB: Seu texto é poético e sem excessos. Fiquei imaginando aqui como é trabalhar um texto com essa profundidade e esse lirismo, mas pensando em um leitor mais jovem, como é o caso. Pode falar um pouco sobre isso?

Marcia: A poesia sempre me acompanha, aliás foi ela que me fez descobrir o encanto pela literatura para a infância. Acredito que a criança tem o olhar poético naturalmente aguçado, e nós adultos precisamos trabalhar este olhar através da linguagem, tal como os poetas.

Penso e repenso nas palavras dentro de cada frase, releio o texto em voz alta diversas vezes para verificar o ritmo, se está coloquial e próximo da fala da criança.

O texto, que, aparentemente, flui de forma simples e natural é resultado de um trabalho bem minucioso, de uma escuta atenta à criança que existe e resiste dentro de mim, pedindo para ser constantemente reinventada e acolhida dentro de novos olhares.

BB: Você já contou em entrevistas o quanto seus textos são conversas com você mesma. Escrever é – quem sabe – compartilhar essas conversas internas? O que esse dialogo com as crianças e jovens leitores tem trazido para você?

Marcia: Sim, os textos são descobertas internas, uma forma de autoconhecimento e quanto mais nos conhecemos, mais nos aproximamos dos outros, uma vez que estamos todos juntos na mesma viagem.

Apesar de diferentes, temos muito em comum, como o mesmo espanto diante da vida, do passar do tempo, da morte. O medo do abandono, a necessidade de crescer e de fazer novas descobertas.  Questões fundamentais são vividas por todos, cada um de um jeito, mas elas são sempre as mesmas.

Por isso, uma boa história é eterna, porque trata do que mexe com o ser humano, de suas emoções e não apenas de fatos. As histórias são criadas para nos ajudar a enxergar o que já existe dentro de nós, para nos incentivar a crescer, em qualquer idade.

Em resumo “o lugar do meu amigo” é  dentro de mim, é o amor que nos une e nos ajuda a seguir em frente diante dos mistérios e encantamentos da vida.

///

Catarina Bessell: “Para mim, foi como abrir um álbum de memórias”

A ilustradora Catarina Bessell também tinha em seu avô o melhor amigo da infância. E resgata com delicadeza e alegria essas memórias.

Blog da Brinque: Como foi seu processo de criação e concepção das personagens do livro? O que inspirou você a dar rosto ao avô, ao menino?

Catarina Bessell: Para mim, o processo foi como abrir um álbum de memórias. Imediatamente, voltei para as minhas férias. Quando eu era mais nova, passava as férias com meus avós no Guarujá, e meu avô era pintor.

Eu ficava em um quartinho que estava cheio dos livros dele, das pinturas. Ele cheirava a terebentina [um diluente para tinta à óleo]. O cheiro de terebentina, hoje, me resgata para lá…

E ele já era um senhor bem velhinho, gostava muito de ler e de ficar sentado olhando para o mar. Então, quando eu vi o texto da Marcia, eu fui imediatamente para esse lugar, o lugar das minhas férias.

[Para] o rosto do avô, então, eu resgatei fotografias dele e fiz exatamente o rosto do meu avô, com a calça jeans que ele usava, o colete, sempre uma camiseta, os tênis, ele só não usava bengala. Mas a barba branca, tudo, é igualzinho.

O menino eu criei. Eu imaginava como seria eu se eu fosse um menino. Eu usava óculos, era uma criança que gostava muito de ouvir histórias, sempre li bastante.

Então, como isso foi um livro de memórias, ver as fotos do meu avô, eu imediatamente fui ver as minhas fotos e me transformei no menino.

—“

Então, o que tem no texto da Marcia que eu achei muito poético é exatamente isso, de te colocar nesse lugar, mostrar que aquelas memórias, aquela vivência que você teve com aquele pessoa especial – a coincidência é que no meu caso era meu avô, mas quem lê pode se identificar com qualquer outra pessoa [de quem] sente saudade – o que tem de poético no texto dela é justamente isso, abrir espaço para a pessoa se identificar

“—

BB: Em que medida você se reconheceu neles? O que o texto – tão poético – da Marcia Cristina Silva trouxe para você?

Catarina: Fico até um pouco emocionada quando eu falo isso: eu não tinha processado direito a morte do meu avô. Por mais que eu sentisse falta dele, quando ele morreu, eu estava num outro momento da minha vida. Quando veio esse texto, eu achei que seria um bom momento para resgatar essas memórias e voltar para esse lugar.

Então, o que tem no texto da Marcia que eu achei muito poético é exatamente isso, de te colocar nesse lugar, mostrar que aquelas memórias, aquela vivência que você teve com aquele pessoa especial – a coincidência é que no meu caso era meu avô, mas quem lê pode se identificar com qualquer outra pessoa [de quem] sente saudade – o que tem de poético no texto dela é justamente isso, abrir espaço para a pessoa se identificar.

Por isso, busquei fazer ilustrações um pouco mais abstratas, que colocassem o leitor na visão da personagem. Então, tem horas que você vê o mar como o menino e o avô estão vendo, a tesmpetade, o céu…

Tem horas que a ilustração é como se fosse a imaginação do menino vendo a andorinha voando entre as constelações e costurando aquelas estrelas.

BB: Fale um pouco, por favor, sobre a sua escolha de cores para o livro, por favor, e quais técnicas usou para ilustrar.

Catarina: A primeira coisa que eu fiz foi escolher a cor, o azul, que seria a cor do mar. E aí eu lembrei imediatamente do que meu avô dizia: “o mar nunca é azul”. O mar, ele muda as cores conforme o dia, as horas ou conforme a situação do tempo, a situação climatológica, risos.

Então, eu pensei nas cores como se fossem essas cores da natureza, das mudanças do mar. Que, na verdade, outra coisa que eu acho poético do texto da Marcia é que a mudança do mar é a mudança do tempo, a passagem do tempo.

Aí, eu escolhi as cores do por do sol, o azul, etc. E, para o menino, eu quis cores muito fortes, cores que vibrassem a vida, o vermelho, o amarelo.

E as cores do meu avô são as cores do meu avô, risos: é a paleta do meu avô – ele chamava Klaus – era essa calça jeans azul do mar, esse branco e esse coletinho bege, sempre o coletinho bege, risos.

Eu quis misturar o lápis de cor com colagem digital. Então eu escaneei algumas texturas, o resto eu recortei no computador e fui atrás de fotos: fotos de tempestade, fotos de bancos, madeiras, fui atrás de todas essas texturas.

 

 


Sem comentários no momento

Editora Schwarcz S.A. - São Paulo
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 - São Paulo - SP