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Marisa Lajolo traduz clássico que “ainda tem o que dizer aos jovens leitores”

02/08/2019

O clássico da literatura juvenil Poliana terá, em breve, uma nova versão. Vai sair pela Escarlate, do Grupo Brinque-Book, em setembro, com ilustrações e projeto gráfico de Ana Matsusaki e com tradução e a adaptação de Marisa Lajolo.

Pesquisadora, crítica literária, ensaísta, professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Marisa Lajolo é especialista em Monteiro Lobato e uma das principais teóricas da literatura infantojuvenil no Brasil. São dela livros essenciais sobre o tema, como Literatura Infantil Brasileira: História e Histórias, que escreveu com a professora e pesquisadora Regina Zilberman.

Curiosamente, foi pelas mãos de Monteiro Lobato que Poliana foi traduzido no Brasil pela primeira vez, nos anos 30.

“Acredito que Poliana continua a ter o que dizer a leitores de hoje: num momento em que livros de autoajuda estão em alta, uma história que conta como uma menininha supera seus inúmeros problemas ganha atualidade”, explica Lajolo sobre o livro, escrito em 1913 por Eleanor H. Porter.

Muitas vezes adaptado e traduzido, já teve versão para o cinema – também um clássico – e atualmente inspira uma novela brasileira. Nesta adaptação, Lajolo e Ana Matsusaki dão cores mais contemporâneas a uma história atemporal, que a própria tradutora conta ter lido menina, nas areias da praia de Santos, onde morava.

O texto que abre a obra é uma delicada carta de Poliana endereçada ao leitor ou à leitora, narrando um pouco do percurso do livro desde a primeira publicação até aqui, nesta adaptação em que será (re)contado “por uma voz feminina como a minha”, diz o pequeno prefácio.

Marisa Lajolo, que estreia com esse livro na tradução e adaptação, conversou com o Blog da Brinque sobre clássicos, formação leitora, leitura entre jovens, diferentes mídias e, claro, sobre Poliana. A seguir, os principais trechos do bate-papo.

Capa do livro Poliana, com projeto gráfico e ilustrações da artista Ana Matsuzaki

Quais são os desafios – e as delícias – de traduzir Poliana, um clássico da literatura infantojuvenil com mais de cem anos, para jovens que vivem em um mundo cada vez mais rápido, conectado, virtual?

Foi minha primeira experiência de tradução e adaptação de um livro. Gostei muito ! Aprendi que, para traduzir e adaptar, você mergulha em detalhes da história que podem passar desapercebidos numa leitura, ainda que numa leitura crítica. Acredito que Poliana continua a ter o que dizer a leitores de hoje: num momento em que livros de autoajuda estão em alta, uma história que conta como uma menininha supera seus inúmeros problemas ganha atualidade.

Apresentar aos leitores modos de viver a vida diferentes dos nossos, é uma das grandes coisas que a literatura faz

 

Por que Poliana é um clássico, quer dizer, por que ler Poliana nos dias de hoje?

“Livro clássico” , antigamente, definia um livro tão bom que deveria ser lido na escola, “ em classe”. Penso que, hoje, desapareceu a noção de escola e permaneceu a noção de excelência, acrescentada da noção de ser uma obra atemporal, universal. Acho que continua a ser muito atraente uma história como a narrada por Eleanor Porter [escritora inglesa, autora de Poliana e de sua sequencia, Poliana moça], que relata a luta de uma menina pela felicidade – das menores coisas do dia a dia às maiores da vida- . Apresentar aos leitores modos de viver a vida diferentes dos nossos, é uma das grandes coisas que a literatura faz.

Acredito que Poliana continua a ter o que dizer a leitores de hoje

 

Dando uma passeada por entre as prateleiras das livrarias e bibliotecas, vemos aumentar ligeiramente o número de clássicos em suas versões originais. Ao mesmo tempo em que se fala muito que “jovens não leem” ou que só se interessam por leituras rasas, me parece que os clássicos estão em alta. O que pode explicar isso? Por que esse interesse pelos clássicos e como você percebe essa literatura feita há tanto tempo ainda com força e vigor narrativos? 

Uma das vantagens dos clássicos é que são domínio público. Não é necessário pagar direitos autorais aos autores, embora organizadores de novas edições muitas vezes recebam (e devem mesmo receber) direitos autorais. Os clássicos também parecem dispensar propaganda. Sua longevidade afiança sua qualidade, embora essa longevidade tenha um avesso: textos antigos podem ser tidos como “chatos” , complicados, inadequados … Os jovens são um planeta meio desconhecido, cheio de surpresas. Algumas ótimas, como esse interesse recente pelos clássicos.

Complementando a pergunta anterior: os jovens leem? O que há de verdade e de preconceito nas avaliações sobre a leitura infanto-juvenil no Brasil? 

Eu já fui de opinião que os jovens não leem. Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Talvez eles não leiam o que intelectuais e professores gostariam que ele lessem…

Há algum tempo, você escreveu um artigo para a Revista Emilia em que falava sobre livros digitais para crianças e jovens e nas mídias digitais de um modo geral, pontuando que elas não são necessariamente “inimigas” da literatura. De lá para cá, os jovens leitores só aumentam [novos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, da Fundação Pró-Livro, mostram isso], assim como só aumentam as publicações para pré-adolescentes e jovens; publicações aliás de todos os tipos, algumas colocando TV e livros para conversar, como no caso de séries de HQs que viraram séries de TV e vice-versa. A literatura sempre resiste? Por quê? 

Penso que literatura é texto e é literário. Um texto que diz coisas que precisam ser ditas para certos leitores. Não importa se o texto é impresso, digital, ouvido. Com ou sem ilustração, numa página, numa tela ou num muro.

Penso que, cada vez mais, a linearidade se esgarça e a fragmentação se torna mais comum

 

Na resenha que você fez de A queda dos Moais, de Blandina Franco, Patricia Auerbach e José Carlos Lollo [publicada em 2018 pela Escarlate, do Grupo Brinque-Book], você ressalta as diversas narrativas e a fragmentação, típicas do universo jovem contemporâneo. A história se articula em fragmentos de narrativas e linguagens diversas. Esse é um jeito moderno de ler? A literatura conversando cada vez mais com outras linguagens e outros fragmentos da vida e das artes?

Não tenho como aprofundar agora o tema. Mas ele é fascinante. Penso que, cada vez mais, a linearidade se esgarça e a fragmentação se torna mais comum. Cabe ao leitor fazer sentido do que é fragmentário. Mas a questão merece mais discussão.

Para os jovens, a formação leitora acontece predominantemente na escola e por obrigação. Mesmo assim, é possível facilitar a paixão pelas histórias?

Penso que sim. Se os professores forem bons leitores, isto é, leitores apaixonados.

Muitas famílias leitoras deixam de ler com ou para as crianças e jovens quando estes se tornam leitores autônomos. Mas o ler juntos é um prazer, um momento de afeto, contato e de formação leitora. Como manter esse momento mesmo com as crianças maiores?

Não tenho a menor ideia… Penso apenas que – quando se gosta de ler- discutir o que se está lendo com outras pessoas é muito interessante.


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