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Ludi faz 30: um bate-papo com Luciana Sandroni, criadora da irreverente personagem

21/10/2019

Ludimila Manso, a Ludi, é “só” uma menina, mas nasceu tem 30 anos! Surgiu da imaginação e do talento da escritora Luciana Sandroni, que povoou as histórias da garota carioca e da família Manso com Monteiro Lobato, MPB, Caymmi e muita, muita História, assim, com “H” maiúsculo.

Filha de uma mãe que lia Lobato para Luciana na infância e é uma das fundadoras da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) e de um pai jornalista apaixonado pela História do Brasil e do mundo, a autora de Ludi misturou com maestria esses elementos na série – seis livros, sendo quatro deles republicados recentemente pela Escarlate.

Boa parte da série é composta de romances históricos, que contam com humor e irreverência passagens importantes da nossa vida pública, como a chegada da Família Real, em 1808, a Revolta da Vacina e o reflorestamento da Floresta da Tijuca, que chegou a virar fazenda de café no Império de Dom Pedro II.

Luciana conversou com o Blog da Brinque sobre referência, infância, Lobato, História e sobre as incríveis aventuras da família Manso. Confira a seguir:

Ludi tem muitas referências, entre elas Monteiro Lobato, Dorival Caymmi, a MPB… Você já contou que foi sua mãe quem apresentou Lobato para você. Você se apaixonou de primeira? Como essas referências todas povoam sua infância?

Tenho uma lembrança muito grande da minha mãe contando as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo para mim e para os meus irmãos. Meu avô tinha um terreno numa ilha, a ilha de Itacuruçá, aqui pertinho do Rio, e não tinha eletricidade lá. Então, era tudo na base dos lampiões e lanternas.

À noite, depois de muita praia, pescaria, mil passeios na mata e tal, a gente ouvia as aventuras do sítio. Eu lembro de ter ficado encantada com Viagem ao céu.. Fiquei muito mobilizado com aquele livro, queria ir para a Lua, viajar na calda do cometa… Lembro da emoção dessa leitura, como ela me transformou, como ela me fez viajar com a turma do sítio.

Em relação à música, os meus pais sempre gostaram muito de música, então a gente ouvia muito João Gilberto, Caymmi… Meus irmãos são músicos, eu tocava flauta transversa, gostava muito de choro. A MPF foi muito escutada lá em casa, a gente ouvia muito Chico, Caetano… Na minha adolescência, ainda era ditadura militar, então, Chico e Caetano povoaram a nossa geração. A minha geração sempre ficava esperando o novo disco do Chico, o novo disco do Caetano, eles eram a nossa resistência. A MPB, a cultura brasileira eram maneiras de resistência, de lutar contra a ditadura.

 

Ludi é irreverente, bem-humorada, não abre mão de uma boa aventura, questionadora.. Ela tem muito de Emilia e da própria Narizinho. Como foi que Ludi surgiu para você?

Mais tarde, fui fazer Letras, Literatura Brasileira, na PUC do Rio. E me lembro de ter feito um curso sobre Monteiro Lobato. Na adolescência, escrevia poesia, queria ser poeta. Gostava muito do Drummond, do Bandeira, do Mario de Andrade, mas não pensava em Literatura Infantil.

Pensava em Literatura Infantil na verdade porque minha mãe é fundadora da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e ela, durante a minha adolescência, começou a fazer uma tese de mestrado sobre a Lygia Bojunga. Então, eu li a Lygia Bojunga já adolescente, porque ela gostava muito e botava a gente para ler, mesmo a gente mais velhos assim, e a gente adorava, fiquei encantada com a Lygia, mas eu já era adolescente.

Mas na faculdade, eu fui estudar Monteiro Lobato com a professora Eliana Yunes e o Luis Rao Machado, a gente fez um curso, e eu fiquei muito muito impactada com um livro que eu não tinha lido na infância, que é A chave do tamanho.  Nesse livro, a Emilia acaba com a Segunda Guerra Mundial, diminui a humanidade inteira de tamanho, todos ficam muito pequenos, só que as coisas e animais do mesmo tamanho. Ela faz uma grande reviravolta na humanidade.

Ela acaba com a guerra, mas, ao mesmo tempo, os homens têm de se recriar, ver o que vai fazer para sua sobrevivência; a guerra acaba, mas tema luta pela sobrevivência.

Esse livro me deixou muito impactada. “Gente, mas o Monteiro Lobato é muito louco, ele faz umas coisas extremamente filosóficas”. Esse livro é filosófico, não é só sobre o final da guerra, é sobre o homem, o que o homem faz com o planeta, com a Terra, sempre querendo a guerra, sempre querendo o poder…

O livro discute isso. Super atual.

E a Ludi acho que nasceu muito dessa leitura, ela é muito realmente parecida com a Emilia e com a própria Narizinho e eu acho que ela nasceu muito da minha infância, não que eu fosse a Ludi… Talvez a minha irmã mais velha, a Clara, era muito criativa, muito travessa, então talvez ela [a Ludi] tenha mais a ver com a minha irmã.

Acho que ela nasceu aí, nesse universo do Lobato e a família Manso tem muito da minha família. Meu pai é jornalista e gosta muito de História, acho que tem seu Marcos, com a dona Sandra, com essa faceta deles de gostarem muito de História, de fazer passeios com a família… Lembro muito da gente fazendo mil passeios com minha mãe, com meu pai. Acho que [a Ludi] resgata [isso] um pouco. Morei no Leme, então tinha essa coisa da praia: a minha família tinha essa coisa de ir para a praia, andando… A Ludi surgiu dessa memória de infância e dessa leitura de Lobato, de Lygia Bojunga, leitura da Alice… Acho que ela tem muito a ver com todas essas leituras.

 

Outra característica marcante da família Manso é viajar no tempo e juntar em suas aventuras questões históricas, políticas… Você faz romance histórico para jovens leitores. De onde vem o seu interesse por esses fatos e como você foi escolhendo o que trazer para as aventuras de Ludi e companhia?

Meu pai realmente gosta [de História] e incutiu isso nos filhos. Eu gostava muito dessa matéria na escol e fiquei entre Literatura e História [na escolha de carreiras], mas fui para Literatura. Consegui juntar as duas com a Ludi! Ludi vai à praia Ludi na TV [os dois primeiros livros cuja menina é a personagem principal] não têm essa questão histórica, mas têm a questão do Rio, o tema da cidade do Rio está presente logo no começo.

O primeiro [livro da série] já mergulhando na História, o Ludi na revolta da vacina, acho que foi [originado do] meu interesse pela História do Rio antigo. Porque o Rio é muito conhecido pelas praias, pela natureza, pelas montanhas… O Rio tem uma história, tem um centro história. Na época em que eu comecei com a Ludi, nos anos 90, [o centro] não era tão falado, tão divulgado.

Me lembro de, na adolescência, ganhar um livro do Marc Ferrer, o fotógrafo, e ficar muito impressionada com o centro, nessa questão de derrubarem os prédios da época do [ex-prefeito] Pereira Passos… Fiquei muito impressionada [com] como o Rio era tão europeu e se modernizou: num século, derrubaram vários prédios… Eu fiquei curiosa, querendo entender como é que foi isso, como é que o centro mudou tanto, os outros bairros também, Copacabana… Fiquei curiosa de saber a História do Rio.

 

Ludi é também uma personagem bem brasileira: nos temas, na história que povoa as aventuras, no cenário, nas referências que permeiam a narrativa. Era intencional ou isso foi acontecendo por causa das suas próprias referências? Como é seu processo de pesquisa história para criar as aventuras de Ludi?

Depois do Ludi na revolta da vacina, eu fiz Ludi na chega da família real, também eles indo para o passado, para 1808, para a chegada da família real, porque a gente estava comemorando esses 200 anos do Dom João Vi aqui, e também que é ima história fascinante, né?, uma família real chegar na sua própria colônia, acho que é um fato único, nenhum príncipe, nenhuma rainha veio em nenhuma colônia, na época das colônias.

Comecei a me interessar muito por essa época, acho que a gente teve um resgate geral desse tempo, de falar sobre isso, de comentar, de falar sobre isso. Acho que me interessei por esse tema, da nossa colonização e desse marco que foi a chegada da família real no Rio e no Brasil.

Depois, a gente comemorou os 200 anos da Biblioteca Nacional. Tudo isso, esses dois temas, fui no embalo dessas comemorações. Aí eu fui estudar a história da Biblioteca Nacional e fiquei boba de saber como ela chegou aqui, que ela foi esquecida na fuga da família real para cá… A pressa era tão grande para fugir de Napoleão que eles esqueceram a Biblioteca Nacional no porto de Lisboa.

Então fui ler, fui pesquisar sobre isso e tive essa ideia de brincar com os fantasmas da Biblioteca Nacional, fui fazer as visitas guiadas que têm na Biblioteca Nacional, fui conhecer as salas, fui ver os livros preciosos da biblioteca. E isso foi muito interessante, essas possibilidade de eu escrever sobre a história do Brasil, do Rio, e estar presente nos lugares, poder estar, fazer uma pesquisa no próprio lugar: ir para a Praça XV, ir para o Largo do Teles, ir para a Colombo e imaginar as histórias na cena que eu estou escrevendo – a cena que estou escrevendo eu posso ir ali e tentar imaginar uma cena, um diálogo.

Eu faço laboratório como as atores fazem, vou no local e posso imaginar ali na hora.

 

Seu processo de pesquisa e de criação é um pouco esse?

Meu processo é assim: eu construí esse jeito de escrever, fui fazendo esse jeito. Como eu sempre tenho um tema histórico, começo da pesquisa histórica, começo a ler os livros, a fazer a seleção dos livros, começo a fichar os livros sobre os temas. Então, eu faço isso, né? Muita pesquisa, muita anotação e vou de alguma maneira pensando no que poderia acontecer, já nesse primeiro momento já começo a me, a ter material para pensar no que poderia acontecer. Que eu noto que é muito isso: eu tento entender, pesquiso, fico entendida naquele assunto, estudo aquele assunto para, depois, tentar desconstruir aquele assunto, tentar fazer o que poderia ter acontecido se uma menina como a Ludi [e meninos como] Rafa e Chico… o que eles poderiam aprontar na chegada da família real, ou o que eles poderiam aprontar na Biblioteca Nacional ou no reflorestamento da Tijuca…

Será que eles é que vão reflorestar, né? Quando eu descobri que o reflorestamento… hoje em dia a gente comemora, mas na época não se dava bola, as pessoas não davam muita bola, nem o próprio Pedro II dava bola, era uma coisa assim um pouco o Major Archer e uns poucos escravizados que ele tinha e aí com muita, muita paciência ele conseguiu trabalhadores assalariados para fazerem o reflorestamento. Aí eu imaginei a família Manso tendo que fazer o reflorestamento por isso, porque não tinha gente para trabalhar, eram poucas as pessoas que trabalhavam ali com o Major Archer.

 

Ludi tem 30 anos. O que você acha que há de diferente e o que não mudou da Ludi de 30 anos para uma garota da idade dela nos dias de hoje?

É impressionante! Passou muito rápido, 30 anos. Acho que a imaginação, a criatividade, isso não muda muito. Acho que criança é lúdica. Eu noto que a Ludi é isso, ela parte de uma realidade, do dia a dia dela na escola, do dia a dia dela com a família, os passeios para, de repente, entrar numa grande fantasia, bem uma referência ao Lobato, que tem o dia a dia lá do Sítio e, de repente, eles entram numa mega fantasia. Isso não mudou.

O que eu noto é que, trabalhei em escolas, tenho amigas com filhos, e notava coisas, tentava colocar o dia a dia do Rio, tentava colocar essas coisas [da cidade] que a gente não fala no cartão postal do Rio.

Como uma criança hoje vive nessa cidade? Tem sempre essas referências críticas à cidade, a pobreza, a injustiça, isso sempre aparece na Ludi.

E acho que ela mudou um pouco assim em relação a talvez ela tenha mudado um pouco em relação ao futebol. Isso eu fui  vendo que Ludi gostava de ver futebol com os pais. Ela é flamenguista… Aí nos livros mais recentes, ela começa a fazer aulas de futebol, ela gosta de jogar, tem uma coisa de ela adorar a Marta, a melhor jogadora do mundo… Fui colocando isso como uma referência de uma criança de hoje que gosta de jogar futebol. Talvez isso tenha ficado mais presente, mais nítido, um coisa contemporânea da Ludi.

Mas só isso talvez.  O resto é isso: criança continua lúdica, com imaginação e, infelizmente, a Baía de Guanabara ainda está poluída.

 

O que Ludi tem da Luciana?

Pois é, a Ludi é muito corajosa, muito espontânea… Me lembro de ser uma criança que gostava de praia, que gostava de passear, mas era uma criança mais na minha.

Acho que as referências de Ludi vai à praia tenha muita coisa de eu gostar muito do Lobato, a Ludi gosta de Lobato, de ir à praia, de cavar buracos… Tem umas referenciazinhas, sim. Mas eu acho que gostaria de ter sido a Ludi, não fui.

 

 

 

 

 


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