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Como se traduz um livro? Alexandre Boide conta para a gente neste bate-papo

08/04/2020

Já parou para pensar em quanta coisa cabe numa língua ou idioma? História, costumes, tradições, crenças, modos de falar e de pensar, sotaques, expressões idiomáticas…

Como então traduzir um livro e se manter fiel ao que o autor realmente disse em seu texto original?

“O principal desafio para mim é encontrar o que podemos chamar de ‘vozes narrativas’. Cada narrador tem sua dicção, cada personagem tem sua forma de se expressar”

 

Alexandre Boide

Pois o experiente tradutor Alexandre Boide, que assina a tradução de livros como os da série Bandeira-Pirata, os da série Vulgar, o viking, e ainda do premiado Os imaginários conversou com a gente para falar de tradução.

É dele também a versão em Português do lançamento O desastre do trem-bala, de Jack Heath, no qual as decisões do leitor definem o final.

Os desafios da tradução. Imagem de Vulgar, o Viking, e os saqueadores dos bolinhos de pedra, de Odin Barba-Ruiva (texto), Sarah Horne (ilustrações) e Alexandre Boide (tradução)

Boide conversou com a gente e contou bastidores do seu processo e os desafios de traduzir um livro interativo para jovens leitores.

E mais: ele contou para a gente que adora ouvir música enquanto traduz — e generosamente criou uma playlist exclusiva para compartilhar com os leitores do Blog da Brinque:

Que tal dar o play pra ler o pingue-pongue abaixo?

 

Afinal, como se traduz um livro?

Brinque-Book: O livro que a Escarlate está lançando agora, O desastre do trem-bala, do australiano Jack Heath, foi traduzido por você. É um suspense-aventura com a participação ativa do leitor. Esse é um gênero novo na literatura? Podemos dizer que “pega carona” na linguagem de outros gêneros, como as séries, os videogames, os reality shows? 

Alexandre Boide: Na verdade, não é um gênero novo. Eu me lembro de que, quando tinha uns 10 ou 11 anos, fui passar uns dias na casa da minha tia, e tinha lá uns livros exatamente assim, que eram da minha prima e ela me deu para ler.

Logo em uma das minhas primeiras decisões, eu “matei” o personagem, então pensei: “opa, eu vou ter que ser menos impulsivo aqui”.

Era uma leitura que exigia reflexão, que me obrigava a pensar nos desdobramentos de cada decisão. E depois de tudo ainda dava para voltar e experimentar outros caminhos, a cada vez era um livro diferente, então aquelas leituras me ocuparam por um bom tempo…

BB: De que época mais que mais ou menos estamos falando?

Alexandre: Estamos falando do fim dos anos 1980, quando a sofisticação narrativa dos games não chegava nem perto da que existe hoje.

Nesse caso, no princípio realmente era o verbo, e acredito que foram todas essas formas narrativas que beberam na fonte dos livros, e não o contrário.

BB: Qual é o desafio extra de se traduzir uma obra desse tipo, em que a narrativa não é nada linear e depende de uma série de decisões do leitor para se concretizar de diversos jeitos diferentes?

Alexandre: O andamento do trabalho realmente fica um pouquinho diferente, porque cada caminho da narrativa tem sua contextualização, e traduzir sem contexto é um tanto inviável.

Então, muitas vezes, para traduzir um capítulo, era necessário ler outro que estava dezenas de páginas adiante…

Não é exatamente mais difícil, só diferente.

BB: Quais são para você os principais desafios de se traduzir uma obra literária?

Alexandre: O principal desafio para mim é encontrar o que podemos chamar de “vozes narrativas”. Cada narrador tem sua dicção, cada personagem tem sua forma de se expressar.

Esse é o primeiro desafio a cada vez que começo um livro — ou texto, já que muitos livros são compilações de histórias de vários autores, por exemplo.

BB: E quais são suas estratégias para lidar com esses desafios?

Alexandre: As estratégias são um tanto subjetivas, pois exige mobilizar um repertório de tudo o que vi e/ou ouvi que seja de alguma forma próximo do universo daquele texto.

Podem ser livros, filmes, séries, desenhos animados, documentários, reportagens, HQs e até músicas…

As vozes narrativas estão em todas as obras de arte e produtos de entretenimento que contam uma história. E não só, também estão nos noticiários, nas reportagens, nos documentários.

Tudo é repertório, e para tradutor não existe cultura inútil. Depois de um tempo consumindo e produzindo traduções, nós acabamos nos tornando naturalmente bons “imitadores de vozes”, por assim dizer.

BB: O tradutor precisa ser um bom escritor?

Alexandre: Precisa ser um bom redator. Isso é fundamental.

É necessário ter um excelente domínio do idioma de chegada (no nosso caso, o português) para fazer uma tradução com competência. E há também as competências específicas. No caso da ficção, o tradutor deve ter uma noção clara de como funciona um texto narrativo. Já outro tipo de livro pode exigir um domínio da linguagem jornalística, e por aí vai. Então acho que, antes de tudo, o tradutor precisa ser um bom leitor.

BB: Como você “entra no clima” de cada livro? Pensando aqui que você traduz obras com características bem diferentes entre si e precisa, de algum modo, adaptar a linguagem e o jeitão de cada autor à nossa língua. Como se faz isso?

Alexandre: Esse é o processo de encontrar a “voz” narrativa que descrevi agora há pouco como o maior desafio de traduzir.

Isso varia de livro para livro. Em alguns casos, logo nas primeiras páginas é possível encontrar o tom, pegar o embalo e seguir em frente.

Em outros, as peculiaridades de estilo vão se revelando mais devagar, o que obriga a ir fazendo ajustes no caminho.

As “vozes” autorais realmente são variadas, mas nós tradutores estamos sempre com os “ouvidos” bem abertos para reproduzi-las da melhor forma possível.

A tradução vai ser o que o original determinar, porque cada livro é seu próprio mundo.

 

O jovem leitor

BB: Quando você traduz, você imagina o leitor hipotético daquele texto?

Alexandre: Eu não penso em leitores hipotéticos, não. Nesse momento de corpo a corpo com o livro, o leitor sou eu. É a mim que o texto traduzido precisa convencer em primeiro lugar.

BB: Os jovens requerem do tradutor algum cuidado ou alguma atenção diferente? 

Alexandre: Tudo depende do original. Não dá para pensar em termos de gênero, ou de faixa etária, ou de língua de partida. Cada livro tem sua individualidade, é único à sua maneira.

O que serviu para um não vai servir para o outro, e é isso o que torna a tradução um trabalho artesanal e especializado. O ajuste fino é feito com base na sensibilidade, mobilizando, como eu disse antes, todo o repertório de cultura e vivência do profissional. Duas traduções de um mesmo livro feitas por duas pessoas diferentes nunca vão ficar exatamente iguais.

Para mim, não existe receita para um ou outro público, ou para um ou outro gênero. A tradução vai ser o que o original determinar, porque cada livro é seu próprio mundo.

O poder de mobilização das narrativas é muito grande, seja qual for a forma que assuma: livro, filme, série ou o que seja

 

BB: Você se diverte traduzindo? Dá risada, se emociona, se envolve com a história?

Alexandre: Ah, me divirto, sim, com certeza. Me envolvo com a história, claro. Ser tradutor implica ser leitor, e um que vai ler nos mínimos detalhes, que precisa mergulhar naquele livro com mais atenção que qualquer outra pessoa.

Quando a história cativa e emociona, a tradução inclusive flui melhor (no sentido de ser mais rápida), porque a “sintonia” com o original fica mais fácil.

BB: Quando recebe um convite para traduzir, que critérios você usa para avaliar se vai topar ou não, se interessa ou não aquela obra, aquela editora, aquele/a autora/a?

Alexandre: Eu tento ser bem mente aberta nesse sentido. Na verdade, tradutor não pode “não gostar” de determinado gênero, tema ou estilo.

Cada livro apresenta uma oportunidade de aprendizado em uma profissão que é por natureza variada e multifacetada. Por sorte, trabalho com editoras que escolhem muito bem seus títulos, então o processo costuma ser sempre muito proveitoso, porque obras de qualidade semore proporcionam isso.

BB: Como costuma ser o seu processo de trabalho? Você lê tudo primeiro? Vai lendo e traduzindo? Você traduz “de primeira” ou faz um rascunho e depois revisa, ajusta detalhes, expressões etc? Conte um pouco como é que você trabalha as traduções?

Alexandre: Eu vou traduzindo à medida que leio, e não costumo deixar nada para resolver mais tarde. A revisão que faço depois de terminar é em busca de erros (de ortografia, gramática ou digitação), e claro que sempre necessário fazer ajustes pontuais. Mas a versão final é sempre bem próxima da primeira.

BB: Onde você trabalha? Como é seu escritório? O que não pode faltar nele para você trabalhar? 

Alexandre: Eu já trabalhei em diversas configurações, desde a mesa de jantar até um espaço alugado, fora de casa.

No momento, trabalho em casa mesmo, em um escritório montado em um dos ambientes da sala de estar do apartamento.

Aqui tenho uma mesa espaçosa, uma boa vista da janela e os meus livros por perto. Sou uma pessoa minimalista nesse sentido, e para trabalhar preciso só do computador e de um calendário de mesa para controlar os prazos.

BB: A gente ouve muito falar que os jovens não leem, que não gostam de literatura, que preferem mídias sociais e outros dispositivos tecnológicos aos livros. Por outro lado, pesquisas mostram que são justamente os adolescentes os que mais leem… Como você, que traduz para esse público também, percebe as relações desses leitores com a leitura e com a literatura?

Alexandre: Adolescentes costumam ser mais passionais que os adultos, e têm mais autonomia que as crianças para definir suas prioridades e atividades do dia a dia.

Naturalmente, acabam sendo leitores com uma relação de maior engajamento com livros e personagens, e com a possibilidade de dedicar muito de seu tempo livre a essa atividade.

Acho que é uma coisa que, enquanto a ficção existir, vai continuar acontecendo. O poder de mobilização das narrativas é muito grande, seja qual for a forma que assuma: livro, filme, série ou o que seja.

A primeira medida para atacar os baixos índices de leitura seria tornar os livros disponíveis através de bibliotecas públicas

 

BB: Você traduz séries de muito sucesso — na Brinque-Book / Escarlate e também em outras editoras. Seus leitores não só leem, como sãos muito chegados às personagens, criam uma relação de afeto, se identificam etc. Nossos jovens são capazes, então, de criar uma relação de vínculo genuíno com a literatura que interessa a eles. Como ainda dizemos que “os jovens não leem”?

No meu modo de ver, esse incômodo surge da quantidade de leitores, não da qualidade.

Se tentarmos converter isso em termos de porcentagem no microcosmo de uma sala de aula, por exemplo, provavelmente constataríamos que a proporção de leitores regulares, e que leem por iniciativa própria, não é grande. Isso poderia ser compensado pelo fato de termos uma grande população de jovens, então mesmo uma proporção minoritária de leitores poderia formar uma massa numerosa a ponto de desfazer um pouco essa impressão de que “os jovens não leem”, mas existe o problema social do acesso ao livro, que está longe de ser universalizado.

A primeira medida para atacar os baixos índices de leitura, na minha opinião, seria tornar os livros disponíveis para toda a população, e não acho que exista uma forma melhor de fazer isso do que através de bibliotecas públicas.

Depois que a pessoa aprender a ler, o ato em si se torna uma coisa natural, então é pouco provável que uma pessoa “não goste de ler” no sentido de não gostar de executar aquela tarefa mental específica.

Ela pode simplesmente estar lendo os livros errados, seus interesses podem estar em outros temas e formatos. Existem livros sobre absolutamente qualquer coisa, todo o conhecimento humano está reunido neles.

Para cada indivíduo alfabetizado certamente existe um livro que despertará fascínio — seja de ficção, não ficção, artes plásticas, fotografia, divulgação científica ou o que seja.

A pessoa só precisa ter liberdade para explorar seus gostos e ter a oportunidade de descobrir o que mobiliza seus sentimentos e suas atenções.

E a biblioteca pública de qualidade seria o melhor lugar para isso.

BB: Que tipo de leitor você é? O que gosta de ler? O que está lendo agora?

Alexandre: Eu sou um leitor de contemporâneos, especialmente brasileiros. O que busco na literatura no momento são as perspectivas de outras pessoas que estão vivenciando a mesma época que eu em um país de experiências tão distintas e em transformação constante.

Outra característica minha como leitor é ser bastante inquieto, então sempre acabo lendo dois ou três livros ao mesmo tempo.

No momento estão na minha mesa de cabeceira “Torto arado”, do escritor baiano Itamar Vieira Júnior; “O amor, esse obstáculo”, da poeta e romancista Michelliny Verunschk, que é de Pernambuco e mora em São Paulo; e “Sorte”, da mineira Nara Vidal, que é radicada na Inglaterra.

Somos um país muito grande e diverso, e estamos vivendo um momento muito rico em termos de ficção, com muita gente espalhada por aí produzindo em alto nível, e eu quero conhecer essas vozes.

BB: Você se formou leitor na infância? Mais jovem? Já adulto? Como foi a sua história como leitor?

Alexandre: Eu sou leitor desde a infância. Na minha casa havia livros à disposição, desde ficção até enciclopédias ilustradas e atlas, que também me fascinavam, por serem conhecimento em estado puro.

Mas eu também era frequentador da biblioteca pública de perto de casa, onde tinha a liberdade de folhear e conhecer os livros em busca daquele que mais me atraísse.

Esse tipo de contato, essa descoberta de que existem acervos imensos à nossa disposição, para mim é fundamental para a formação de qualquer leitor.

A pessoa só precisa ter liberdade para explorar seus gostos e ter a oportunidade de descobrir o que mobiliza seus sentimentos e suas atenções

 

BB: O que lia quando criança e adolescente e o que marcou você nessa época?

Alexandre: Como muita gente da minha geração, meus referenciais eram coisas Monteiro Lobato, os livros da série Vaga-Lume, os gibis da Disney e da Turma da Mônica, os livros e quadrinhos do Ziraldo.

Eram materiais produzidos e distribuídos em massa na época, então é natural que fossem os mais consumidos e os preferidos não só por mim, mas pela maioria das pessoas da minha faixa etária na época.

Mas, se fosse para escolher um favorito, ou mais marcante, eu diria que foi “Emília no País da Gramática”, um sinal de que meu futuro estava mesmo nas Letras.

BB: Você já releu algum desses livros de infância, adulto? Como foi a experiência?

Alexandre: Na verdade, nunca reli nada disso depois de adulto. Acho que prefiro respeitar a máxima que diz que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes e ficar com a experiência boa que eles me proporcionaram anos atrás.

 


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