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Infâncias diversas: autores compartilham memórias de meninice com a gente

07/10/2020

O lugar onde a gente nasce, a época em que vivemos a infância, a língua que falamos definem muito da nossa experiência de vida.

Já pensou nisso?

As diferenças que nos fazem melhores! Imagem: Poderia, de Joana Raspall (texto) e Ignasi Blanch (ilustrações)

Quem você seria se tivesse nascido na Capadócia (Turquia), nos anos 30?

Será que teria feito as mesmas escolhas e gostaria das mesmas coisas se fosse uma criança amazonense em 1980? Ou uma francesa nos anos 20; uma moçambicana da década de 70?

Legal pensar nisso, não? Uma diversidade infinita de combinações — por vezes aleatórias — forma quem somos, por isso somos tão diversos! Que bom!

“As crianças são sortudas quando conhecem um mundo sortido”, nos conta, lindamente, a educadora e consultora literária Celinha Nascimento.

Infâncias, no plural

Inspirados pelo livro Poderia, de Joana Raspall (texto) e Ignasi Blanch (ilustrações) — dê uma olhada na resenha dele que deixamos aqui embaixo –, convidamos seis autores e ilustradores que nasceram em lugares diversos para contar como foram suas infâncias.

“Poderia” traz um potente poema sobre empatia e o outro; veja dicas de leitura

Falamos de comida e hábitos — o que comiam no café da manhã? –, de brincadeiras, de língua 😉 Toparam conversar com a gente: Ionit Zilberman, Maté, Luciana Sandroni, André Neves, Jean-Claude Alphen e Guilherme Karsten.

As respostas foram tão, mas tão bacanas, que optamos por organizar o texto por temas, assim você consegue comparar as respostas!

Bóra?

Café da manhã

Como era o café da manhã quando você era pequena (o)? Era longo ou rápido? Quais eram as comidas mais comuns e as de que mais gostava? Onde vocês tomavam café da manhã? Era uma refeição da família toda junta?

Ionit Zilberman (Israel)

Em Israel, come-se uma refeição mais salgada de manhã: pão, queijo cottage, humus e t’hina (tahine), ovos, tomate, pepino, cebola.

Uma das coisas de que eu mais gosto é shakshuka, que são ovos cozidos em molho de tomate (acho que é parecido com ovos no purgatório). Essa é uma comida mais do café do final de semana. Também gostava muito de leite com chocolate.

Não tenho nenhuma lembrança de tomar café da manhã todos juntos. Minhas três irmãs eram adolescentes quando eu nasci e meus pais se separaram quando eu tinha dois anos.

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Em Israel, come-se um refeição salgada, com pão, queijo, humus com tahine, ovos, tomate, pepino, cebola

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Antes de vir para o Brasil, passei alguns meses em Montevidéu, na casa da minha tia, enquanto meus pais vieram pra São Paulo procurar apartamento pra nós.

Eu me lembro dos cafés da manhã longos em que, após todo mundo se levantar da mesa, eu e minha prima, que tínhamos quase a mesma idade, ficávamos séculos tomando o café com leite, num processo infinito de esquenta-esfria, forma-nata e tira-nata. Eu odiava nata.

Em Montevidéu, adorava comer chivito e ‘mejillones’ no restaurante. Era costume sairmos todos juntos pra almoçar e depois os homens da família ficarem brigando porque ‘faziam questão’ de pagar a conta.

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Maté (França)

Na França, o café da manhã se chama petit déjeuner (pequeno desjejum).

Cada um com seu jeitinho 😉 Imagem: Girafas, de Jean-Claude

Costumava tomar chá com pão torrado na torradeira elétrica, manteiga e geleia que a minha mãe fazia com as frutas do nossa jardim (groselha, morango, cassis) ou com as que apanhávamos na floresta (mirtilo, framboesa).

Frutas da floresta viravam geleia para o café da manhã

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Luciana Sandroni (Rio de Janeiro)

Durante a semana, o café da manhã era corrido, mas no final de semana e nas férias eram mais longos.

Na minha casa era normal ter bisnaga ou pão de forma com manteiga ou requeijão. Lembro de adorar sucrilhos com leite. Gostava bastante de leite com Nescau.

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Lembro de adorar sucrilhos com leite

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Acho que tomávamos café na sala, porque tenho mais quatro irmãos. Cada um tinha seu horário na hora do café e do almoço, mas o jantar sempre foi com a família toda reunida.

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André Neves (Recife)

Recordo com prazer que tudo em minha infância se limitava ao simples.

E na minha meninice havia fartura com café, leite, nem sempre pão, mas inhame ou cuscuz.

Nem longo, nem rápido, o tempo era equilibrado para sair com calma e ir à escola.

O desejum era posto à mesa, mas nem sempre a família estava junta. De acordo com o tempo de cada um.

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Na minha meninice havia fartura com café, leite, nem sempre pão, mas inhame ou cuscuz

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Jean-Claude (França)

A gente comia croissants, baguettes com manteiga e geléia de Mirrabelle [uma variação da ameixa], pains au chocolats [tradicional receita francesa de massa folhada] e chocolate quente num “bowl”,  que é uma espécie de cuia funda de cerâmica, com o nome de cada um.

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A gente tomava chocolate quente num bowl com o nome de cada um

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Guilherme Karsten (Santa Catarina)

Eu nunca fui de tomar café da manhã.

E como meu pai saia cedo para o trabalho e minha mãe cuidava de nós, ela acabava tomando café da manhã sozinha.

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Eu nunca fui de tomar café da manhã

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Brincadeiras

De que você brincava com outras crianças? Onde brincavam?

Ionit

Morávamos numa espécie de BNH, uns prédios bem baixos com muitos apartamentos, onde havia muitos imigrantes, como minha família era (mãe, pai e irmãs de Montevidéu, eu nascida em Tel Aviv).

A gente brincava ‘lá embaixo’ o tempo todo. Lembro de passar muito tempo com os amigos das minhas irmãs mais velhas.

Já aconteceu até delas me esquecerem no carrinho lá embaixo e voltarem pra casa e só se darem conta depois. Ops! 😉

Como era seu café da manhã na infância? Já contou sobre ele para os seus filhos? Imagem: O livro secreto das princesas que soltam pum, de Ilan Brenman (texto) e Ionit Zilberman (ilustrações)

Uma história de que me lembro: fui pra casa da minha vizinha e amiga Shira e brincamos de ‘cabeleireira’. O resultado foi uma franja completamente torta, que minha mãe arrumou depois de me dar a maior bronca! Tem foto provando!

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Já aconteceu até de minhas irmãs me esquecerem no carrinho lá embaixo e voltarem pra casa sem mim! Ops!

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Maté

Como eu estudava em tempo integral, as brincadeiras aconteciam mais na escola, no recreio e no intervalo depois do almoço (eu comia na cantina, pois morava longe).

Lembro-me de ter brincado de elástico e de Zorro. O famoso justiceiro mascarado fazia muito sucesso na televisão e todas as crianças conheciam a canção tema: Zorro! Zorro!Zorro!…”

Preciso dizer que, até os 11 anos, estudei numa escola para meninas (a escola dos meninos ficava ao lado).

Muitas vezes, brinquei de Zorro com minhas amigas, empunhando minha espada (um galho fino encontrado no pátio) para enfrentar bandidos imaginários.

Era quase como brincar de teatro.

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Muitas vezes, brinquei de Zorro com minhas amigas, empunhando minha espada, um galho fino encontrado no pátio

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Luciana

Brincava com as crianças do prédio em casa ou na rua; e com meus amigos de colégio, no pátio da escola.

Adorava pular amarelinha, brincar de pique esconde, pique bandeira, polícia e ladrão. Andava muito de bicicleta no calçadão do Leme [no Rio de Janeiro].

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André

Nasci e cresci durante algum tempo recompensado por morar em uma rua sem asfalto.

No Nordeste, um chinelo bastava para encher meus pés de brincadeiras poeirentas.

Quase sempre eu e os amigos seguimos sob a luz do sol, forte para queimar todas as ideias e peraltices infinitas em nossas cucas.

Nos quintais, entre vizinho mais próximos, pulávamos ou nos equilibrávamos em muros, subíamos em arvores e colocávamos pintos para equilibrar em varais.

São muitas as memórias divertidas e cheias de encantamento.

Não tenho do que me queixar, mesmo nos dias de chuva, quando lápis e papel transformavam o meu brincar em um dos mais queridos e silenciosos divertimentos.

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Nos quintais, entre vizinho mais próximos, pulávamos ou nos equilibrávamos em muros, subíamos em arvores e colocávamos pintos para equilibrar em varais

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Jean-Claude

Eu brincava de cache-cache (esconde-esconde), de billes (bola de gude), de balle au prisonnier (queimada) e também de fazer bonecos de neve, trenó e “bataille de boules de neige” — ou batalha de bolas de neves.

Também construíamos iglus (casinhas com blocos de neve).

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Guilherme Karsten

Brincávamos de tudo na vizinhança.

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Lembro de uma época em que passávamos a tarde inteira em cima de um pé de jambolão, comendo as frutas

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Houve a fase do futebol na rua (os pés viviam esfolados), o esconde-esconde, a casa na árvore.

Lembro de uma época em que passávamos a tarde inteira em cima de um pé de jambolão, comendo as frutas e voltando pra casa com as camisetas sempre manchadas.

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Frases marcantes

Que frase marcante da sua infância ou do seu idioma natal você se lembra e pode compartilhar com a gente?

Maté

Minha língua materna é o francês. Gosto muito da frase “liberté, égalité, fraternité”, que significa “liberdade, igualdade, fraternidade”.

Ela faz parte da história e da cultura francesa.

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Liberté, égalité, fraternité

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Luciana

“Quem come e guarda, come duas vezes.” Porque a gente devia comer tudo na mesma hora, um bolo ou um chocolate.

Lembro de ouvir também: “Você tem o olho maior que a barriga” ou “Apressado come cru”. Enfim, expressões ligadas à comida.

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Você tem o olho maior que a barriga

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André

O vocabulário cultural e regional é extenso.

Mas, para infância de que estamos tratando, junto ao relato de memória [diversos nomes de bola de gude]. Bolas de gude, que tanto se diferem de outros nomes no País, que aprendi depois.

Bolita, baleba, biloca, boleia, clica, guerra, quilha, bola e deve ter outros mais.

Ah e meu apelidos, que foram tantos: Macarrão, Tripa, Espanador da Lua, Don, Dedé, Dé, Dezinho e “Deda”, o que mais gostava.

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Bolita, baleba, biloca, boleia, clica, guerra, quilha, bola

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Jean-Claude

[Eu falava] francês e entendia português, pois minha mãe [brasileira] falava comigo.

Meus amigos me perguntavam se eu sabia algo em português. Eu só sabia faca, garfo e colher. Eles ficavam bem admirados mesmo assim.

Je suis très content de répondre à ces questions sur mon enfance. Quer dizer que: Estou muito feliz em responder a estas perguntas sobre a minha infância.

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Guilherme

Puxa, eram tantas, mas não tenho nenhuma em especial.

Como venho de uma cultura mais germânica / catarinense (manézinho), [acho que eram] algumas expressões em alemão, [aquelas que] falávamos mas eu não fazia ideia do significado…

Coisas que ouvíamos os avós ou tios falando.

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E você? Conte para a gente onde nasceu e quais expressões idiomáticas marcaram sua infância! 😉


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