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Adriana Friedmann: para ouvir as crianças, é preciso resgatar nossa sensibilidade

20/06/2018

Adriana Friedmann é uma das mais importantes pesquisadoras da infância e do brincar no Brasil. Pedagoga, mestre em Educação, doutora em Antropologia, é criadora e coordenadora do Mapa da Infância Brasileira e do Nepsid (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento).

“Entre Nuvens” / André Neves (texto e ilustrações)

Além de mapear iniciativas na área de infância e manifestações da Cultura da Infância, Friedmann tem se dedicado a formar profissionais capazes de escutar verdadeiramente as múltiplas linguagens das crianças. “Quando falamos em ‘escutar’ crianças, estamos propondo que o adulto se conecte com todas as formas de expressão que elas têm, com suas falas não-verbais espontâneas”, explica.

Não por acaso, idealizou e coordena a pós-graduação A vez e a voz das crianças, que oferece n’A Casa Tombada. Autora de diversos livros, entre os quais Quem está na escuta?Linguagens e Culturas InfantisA arte de brincar, ela concedeu, por e-mail, a entrevista abaixo. Friedmann passa a colaborar com o Blog da Brinque, publicando textos reflexivos e analíticos sobre infância, brincar e as relações entre a cultura infantil e outras culturas.

Blog da Brinque: Como é que se escuta uma criança?
Adriana Friedmann: Tem sido usada uma nomenclatura para esta temática que, claramente, precisa de esclarecimentos quando de crianças se trata. Quando falamos em ‘escutar’ crianças, estamos propondo que o adulto se conecte com todas as formas de expressão que elas têm, com suas falas não-verbais espontâneas. Escutar significa estar atento para estas linguagens simbólicas: a linguagem do corpo, dos gestos, do movimento; as expressões plásticas e musicais; as brincadeiras; e tantas outras ‘micro’ manifestações. Claro que as crianças que já dominam a linguagem falada podem se manifestar através desta nas suas emoções e pensamentos. Porém, quando fazemos perguntas às crianças, muitas vezes elas – sabiamente – respondem o que o adulto quer ouvir. A escuta presente, conectada, respeitosa e não invasiva do adulto é realmente significativa, pois as crianças estão sendo crianças – na sua mais autêntica manifestação – e, mesmo sem terem consciência, elas estão se comunicando e expressando quem são.

BB: Durante muito tempo, se acreditou que as crianças não tinham o que dizer, porque “ainda não sabiam nada, nem de si mesmas”. Essa concepção felizmente vem sendo contradita por cada vez mais especialistas. Por que se acreditava nisso?
Friedmann: A questão não é propriamente que ‘não tinham o que dizer’: crianças sempre se expressaram e tiveram seus mundos e sua própria sabedoria. A questão é que na antiguidade se considerava que as crianças eram adultos em miniatura. Somente quando começam a surgir os estudos nas áreas de medicina e psicologia do desenvolvimento é que começa a se ter a compreensão de que as crianças têm uma forma muito particular de desenvolvimento e, a partir desses estudos, foram se estabelecendo padrões e definidos estágios de desenvolvimento.

BB: As crianças têm uma percepção mais holística, sensível, artística,  física e menos racional do que a dos adultos. Nós, em contrapartida, crescemos aprendendo a racionalizar tudo. É preciso que reaprendamos essas outras formas de sentir e pensar para ouvir os pequenos?
Friedmann: É importante compreender que as crianças levam um tempo de amadurecimento do cérebro – e trata-se de um processo – para chegar no estágio do pensamento racional. Nos primeiros anos, realmente, a criança apreende o mundo ao seu redor através dos seus sentidos, experienciando, sentindo e manifestando-se a partir da sua sensibilidade e sensações. Mas o aspecto racional já está em processo de desenvolvimento. Quando a criança começa a ser escolarizada, as instituições escolares tendem a fragmentar essas várias formas de expressão e aprendizagem e a ir deixando de lado – ou dando menos importância – ao conhecimento que acontece através do sensível, da criatividade, das expressões artísticas, corporais ou lúdicas; em detrimento do lugar que o desenvolvimento cognitivo passa a ocupar. O importante é conseguir se chegar em um equilíbrio e adequar os estímulos conforme capacidades e necessidades de cada faixa etária e de cada grupo e cultura.
Para o adulto se conectar então com as crianças, sem duvida, ele precisa reconhecer e resgatar seus próprios canais de sensibilidade e expressões não verbais.

A criança está permanentemente manifestando-se através do seu inconsciente com suas fantasias, seus sonhos, seus desenhos

 

BB: Resgatar a criança que fomos – e somos – é uma caminho para esse diálogo? Como se faz isso?
Friedmann: Trata-se sim de resgatar esta criança dentro de cada adulto. Há muitos caminhos para tal, começando por uma reconexão com as memórias, preferências, frustrações e reconhecimento daqueles sonhos ou potenciais caminhos expressivos que, para a maior parte dos adultos, acabam ficando ‘esquecidas’. Como? Pode ser através de trocas com diferentes grupos, trabalhos com corpo, arte, música, terapias das mais variadas. Mas geralmente a própria vida manifesta, de alguma forma, esta necessidade em cada um. Estar atento às nossas intuições é fundamental para esta ‘escuta’ interior.

BB: Na escola, como é possível treinar ainda mais essa escuta?
Friedmann: Para trabalhar a escuta das crianças nas escolas, sugiro sempre como o primeiro espaço-laboratório para se conectar com elas, os tempos dos recreios ou tempos livres, nos quais as crianças têm autonomia para escolher com quem, do quê e com o quê querem brincar, ou o que querem fazer. Mas há muitas brechas mesmo nas salas de aula. A questão desafiadora é para o professor: para ele se abrir para esta necessária escuta – que vai trazer a ele conhecimento sobre a realidade e momento de cada criança – ele precisa, de forma paralela, se abrir para tal. E penso que só com formação e orientação isto será possível.

Mas para a criança realmente viver o brincar como canal expressivo precisa ser deixada livre.

 

BB: É comum ouvir que o brincar é a linguagem da infância. Que isso significa?
Friedmann: O brincar é uma das linguagens por excelência da infância. Não a única. Isto significa que, através do brincar – que já é livre por natureza, já que é também um fenômeno – as crianças não somente descobrem e aprendem do mundo e dos outros, mas se manifestam e comunicam – pelas suas escolhas, atitudes, falas, formas de brincar – seus medos, suas vontades, suas fantasias, suas realidades, suas emoções, dentre tantas outros aspectos.

BB: Por que brincar é uma forma de acessar e expressar conteúdos simbólicos e inconscientes?
Friedmann: Sobretudo nos sete primeiros anos de vida, a criança, imitando primeiro, criando depois, resignifica a vida através do seu brincar, do faz de conta, da sua auto fala (quando fala para si mesma), do jeito como ela organiza seus cenários de brincar, dos apegos que manifesta com adultos, com seus pares, com objetos ou brinquedos. A criança está permanentemente manifestando-se através do seu inconsciente com suas fantasias, seus sonhos, seus desenhos, etc. Ela não só acessa esses conteúdos mas eles fazem parte da sua vida, como da vida de todos nós adultos. A diferença é que ao querermos explicar esses conteúdos pelo racional, muitas vezes carecemos de ‘ferramentas’ para tal.

BB: O brincar tem sido bastante instrumentalizado na escola como forma de se “aprender” conteúdos. Isso não atrapalha o brincar como forma de expressão?
Friedmann: O brincar já entrava nas escolas, desde a época dos Jesuitas, como um instrumento pedagógico. Nesse sentido o brincar perdeu o que está no seu cerne: a espontaneidade. É por isso que é fundamental compreender as razões pelas que o brincar livre, não direcionado, precisa resgatar seu espaço na escola. O brincar dirigido e o pedagógico são interessantes também, tanto para transmitir tradições e culturas (o primeiro) quanto para motivar a criança no seu processo de aprendizagem (o segundo). Mas para a criança realmente viver o brincar como canal expressivo precisa ser deixada livre. O equilíbrio entre estas formas de brincar é fundamental na escola.

BB: Do que uma criança precisa para brincar?
Friedmann: Diria que, essencialmente, precisa de tempo, espaço, às vezes algum estímulo, outras vezes companhia, respeito se sua escolha for brincar sozinha. Brinquedos, objetos, etc. podem ser interessantes mas criança transforma qualquer material que estiver ao seu alcance em brinquedo ou pretexto para brincar.


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