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Tecnologia e leitura na formação de um jovem leitor em seis perguntas e respostas

02/09/2021

Parece bem senso comum que as novas tecnologias e novas mediações (as mídias sociais) estão prejudicando a formação leitora — de leitores literários — dos mais jovens.

Mas os dados não confirmam isso. A pesquisa mais recente de que dispomos mostra o oposto: é justamente na faixa etária dos 11 aos 14 que se encontra o maior número de leitores e também onde cresce mais o leitorado.

Uma parte da explicação é simples: nessa faixa etária, os jovens leitores estão na escola, onde, em geral, há um currículo de leitura literária a cumprir.

Mas isso por si só garante a formação leitora? E as tecnologias, em que medida contribuem ou não para tornar-nos leitores?

Tecnologia e leitura na formação do jovem leitor

Conversamos sobre esses temas com a especialista Ana Elisa Ribeiro, professora e pesquisadora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). E trouxemos aqui seis perguntas nossas e respostas dela que nos ajudam a refletir sobre o tema leitura, tecnologia e juventude.

1- Por que lemos mais na escola?

“Muitas pesquisas conhecidas, como, por exemplo, a Retratos da Leitura no Brasil, apontam que a época da vida em que o/a brasileiro/a mais lê é a idade em que ele/a está frequentando a escola. É bastante compreensível. É quando temos a ‘obrigação’ de ler aquelas listas de obras indicadas, é quando temos uma rede social que se encontra todos os dias e quando sofremos a influência das conversações com nossos/as colegas.

Depois que saímos desse ambiente, por mais criticado que ele seja, passamos a uma vida que exigiria mais esforço de uma leitura mais autônoma, isto é, sem listas, sem mediações, sem guias. E a maioria das pessoas perde a pegada. Vão entrar para as estatísticas ali onde aparece que a justificativa mais usada para dizer que não lemos é a falta de tempo”.

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2- O que entendemos por literatura?

“Precisamos pensar o que estamos entendendo por literatura. Sem essa chave ou essa definição, vamos deslizar pelas questões de leitura e tecnologia sem saber direito o que cada um de nós está pensando. No entanto, temos de voltar à noção de literatura. Se pensarmos que Machado de Assis e congêneres, e apenas eles, são literatura… teremos uma definição bem apertada, bem delimitada (e limitada).

Se incluirmos no rol das possibilidades as séries que os/as adolescentes leem, ampliaremos nossa área de contato. Então me parece que as pesquisas que lidam com concepções de literatura mais amplas, mais contemporâneas e mesmo mais democráticas terão resultados menos pessimistas e números maiores que pesquisas que se atêm a concepções de literatura voltadas a um certo cânone. Tenho uma pesquisa de 2019 (publicada na revista Comunicação e Educação, da Universidade de São Paulo – USP – em 2020) em que mostro os resultados de grupos de discussão com jovens do ensino médio de uma escola pública. A relação deles
com os suportes é muito claramente de interpolação. Não há concorrência. Enão sei qual é a surpresa. Talvez esperássemos que as mídias fossem excludentes entre si, mas não são. Historicamente, não são, na maioria dos casos. E os/as jovens sabem disso e praticam isso, e não apenas eles.

Leitor/a é leitor/a em qualquer tecnologia que sirva de chassi para textos, em sentido amplo”.

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3- Leitura obrigatória ou não?

“Essa discussão da obrigação é antiga e não conheço solução para ela. Também não sei qual é exatamente o problema de termos algumas obrigações na vida. Uma curadoria e uma mediação são muito importantes, para a maioria de nós, em muitos aspectos da vida. Há quem pague caro para ter um/a mediador/a ou um/a curador/a, depois de adulto/a! O que um/a professor/a é, em sentido amplo? Bem, não vejo problema em dizer a um grupo de pessoas que um livro X é importante, faz parte da fortuna da nossa cultura, do nosso país, deve ser lido e debatido. Li muitos livros nesse esquema e não me fizeram mal algum. De alguns gostei; outros não curti. E posso dizer que aprendi de que tipo de obra gosto mais.

Tive de ler livros de Biologia, Física, Matemática, coisas que me causavam muita tristeza, mas não vejo essa comoção toda que há quanto à literatura. Acho uma pena que os livros na escola sejam tão filtrados, deviam ser mais livres (tema, forma), e são geralmente muito controlados. Importante mesmo seria ter uma curadoria legal nas aulas, um debate interessante, uma mirada realmente literária (e menos historiográfica, embora a historiografia não seja desprezível) e, também, a possibilidade de leituras eletivas, aquelas que a pessoa faz porque quer, pega na biblioteca e lê. Mas quem nos dera, não é?

Já a questão do prazer é muito complicada. Não se pode garantir isso a uma pessoa. Que escola garante que teremos prazer em alguma coisa? Depende de muitas questões. O que podemos é indicar, apresentar (bem ou mal), reunirmo-nos em torno de certos livros e textos, falar, demonstrar nossa paixão (se houver), buscar e provocar o diálogo, etc. Não podemos saber se aquelas 40, 50, 100, 200 pessoas todas terão prazer com isso. E é preciso respeitar a ideia de que alguém possa passar a vida sem gostar. Acho muito possível atrair pessoas para muitas coisas, em especial em certas etapas da vida, considerando que nossos interesses também mudam, mas não posso impor muita coisa a quem quer que seja. No máximo, vão fingir para mim que gostaram. Todos sabemos fazer isso”.

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4- O que é um leitor?

“Veja que já toquei nesses pontos, de alguma forma, mas não é que a questão está sempre por escapar? Definir um/a leitor/a é difícil. Segundo alguma pesquisa, leitor/a é quem leu um livro inteiro nos últimos três meses. Não parece simples demais? Ou apenas uma noção operacional para uma pesquisa que precisa de noções operacionais? Se meu filho leu um livro para fazer uma prova, uma coisa é certa: leu o livro e teve de passar pela experiência. Não fico preocupada se ele fizer isso. Prefiro que ele faça isso e considero melhor do que fazer a prova sem ter lido o livro. Pior ainda se o resultado da prova for bom. E muitas vezes é.

Assim o que está em questão é quanto uma prova pode captar de um livro, de uma leitura; quão “espertas” ou “malandras” são as pessoas; quão misturados a nós estão os livros que não lemos (há um livro interessante sobre isso, do Pierre Bayard); quão triste é fazer uma prova sobre uma fake-leitura. Mas é uma prática muito comum entre estudantes. Se meu filho tiver lido o livro, já ficarei menos intranquila, mas é claro que eu preferia que o garoto tivesse saboreado, lentamente, a obra, e não que a tivesse
engolido, como um remédio ruim. Bom, eu engoli muitas coisas na escola como remédios ruins.

Quem lê por qualquer razão pode ser considerado leitor. Para a prova, para o ENEM (um provão temido), para fazer um processo seletivo qualquer, para se distrair, para pesquisar sobre algo, etc. As razões para ler são tantas quantas são as pessoas. Mas nós, que temos a leitura como um ponto central de nossas profissões (professores, editores, etc.), preferimos pensar que leitor/a é aquela pessoa que gosta de ler, que elege os livros a que se dedicará por um tempo, que não se distancia dos livros, está sempre emendando um no outro, lendo obras em sequência, por curiosidade ou gosto. É, geralmente, dessa figura que queremos falar, é essa que adoraríamos ter como maioria (senão todos) em sala de aula e para cuja formação amaríamos ter contribuído. Mas as práticas sociais de leitura são muitas, diversas, variadas, em diferentes frequências e intensidades. Um/a leitor/a pode se autodeclarar leitor/a conforme critérios com os quais concordamos ou não. Fico feliz quando tenho algo a ver com a vida de uma pessoa leitora”.

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5- Quais os papéis da escola e da família na formação leitora?

“São âmbitos muito diferentes de formação. Certamente, as famílias têm uma influência sobre as pessoas que a escola não tem. Muitas vezes, a família exige da escola o que o grupo familiar mesmo não faz. Há muitas histórias de pais e mães que criticam a escola por não estar conseguindo operar uma espécie de milagre, qual seja: provocar nos filhos desejos de leitura que nem os pais têm ou demonstram.

As práticas nossas de cada dia são muito imitadas, para o tudo e para o nada. Mas isso também não é determinante. Não quer dizer nem que a filha de uma leitora vá se tornar tão leitora quanto a mãe; e nem que filhos de não-leitores serão necessariamente não-leitores. Todos nós teremos casos para contar, em diferentes combinações. Mas o que a escola pode fazer é agir como influencer, para dizer uma palavra que está na moda.

Livros podem ser indicados pela família e os membros daquele grupo podem se sentir curiosos, interessados ou não. Certamente não terão de fazer uma prova. Aqui e ali, há famílias que usam expedientes curiosos com seus jovens a fim de que façam algo que o grupo valoriza: prometem bens ou itens de interesse do garoto ou da garota, desde que ele/a estude isto ou aquilo, tire uma nota acima de 9 numa prova, etc. Já a escola geralmente só conta com a moeda das notas, dos pontos, das provas. Ela constrói uma lista de possibilidades ou de oportunidades de leitura, conforme algum critério geralmente literário (muitas vezes o cânone; outras vezes, algum tema a ser atacado, às vezes critérios extraliterários, enfim…), e estabelece as regras do jogo.

Os/as estudantes têm prazo para ler (porque a escola é toda gradeada em um calendário apertadíssimo), têm certa direção de leitura, precisam interagir com a obra e as pessoas a fim de digerir a experiência, depois concluir se foi bom ou ruim. Serão avaliados/as por isso. Se não for isso, é preciso mudar as dinâmicas globais da escola, encontrar outro modo de produzir, naquele ambiente, interesse pela leitura literária, reinventar. E como a discussão é antiga, penso que não seja por falta dela que isso ainda não aconteceu amplamente”.

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6- As tecnologias ajudam ou atrapalham na leitura e na formação leitora?

Os jovens estudantes com os quais interajo sempre têm práticas muito tranquilamente misturadas quanto às leituras e tecnologias. Procurar um livro em pdf é a coisa mais natural do mundo, hoje, e não apenas para eles e elas. Hoje mesmo recebi, no grupo de WhatsApp de colegas professores/as, um pedido de pdf de alguma obra. Tem sempre alguém para responder e enviar.

Todo mundo já entendeu essa dinâmica. Se um/a jovem se aproxima assim de uma obra, penso que está tudo OK. Que absurdo pode haver nisso, se não for minha visão anacrônica de tecnologias e leitura? Livro, hoje, não é mais só códice de papel. Ainda assim, é curioso que muitas escolas indiquem livros e não nos deixem comprar as versões para tela! Aí… é outra questão que pode ter a ver com mercado editorial, “panelinhas”, acordos comerciais, etc. Mas vejamos: a lista escolar indica uma obra para leitura. Onde vamos encontrá-la passa a ser um problema nosso, não? Ou agora vão também decidir como vamos ler?

Na minha pesquisa, os/as jovens pegavam os livros indicados na biblioteca escolar (ou em outras públicas), alguns poucos compravam, quase todos baixavam também em seus celulares, depois de alguém conseguir o pdf na web e compartilhar num grupo de WhatsApp. Vejamos que as mídias estão todas aí, numa espécie de rede que conecta as possibilidades, numa sintaxe muito interessante de práticas que, ao cabo, vão desaguar na necessidade de ler a obra (ou até o interesse por lê-la).

A moçada compartilha o texto para ler numa tela, mas também o procura em outro formato (impresso). Depois, por conveniência, leem na cadência das atividades diárias: no ônibus, na espera do dentista, no intervalo entre aulas, à noite em casa, etc.  Tem hora que é melhor ler no celular; tem hora que é o livro de papel. É só questão de dar sequência, conforme a edição. Não é bárbaro? Parece-me que só precisamos fazer uma boa curadoria. As práticas da leitura propriamente são outra camada nessa história toda”.

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E você? Como tem sido sua experiência nesse sentido?

 


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