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Jovem leitor: novo livro de Silvana Rando aposta em folclore e meio ambiente

20/08/2021

Em 22 de agosto, comemoramos o Dia do Folclore. Você ainda se lembra de alguma lenda brasileira? Quem contava para você sobre personagens do nosso imaginário? Se você é mãe, pai, professor (a) de um jovem leitor, saiba que esse é um tema pelo qual ele vai se interessar.

Conversas com a tia, que contava histórias de arrepiar os cabelos, inspiram novo livro para jovens de Silvana Rando. Imagem: Salvos por um fio, de Silvana Rando

Pode parecer que, por ser uma tradição oral antiga, que nos leva a lendas contadas de geração em geração há muito tempo — o Curupira, para a gente ter uma ideia, já era conhecido e mencionado desde os anos 1.500 pelo menos –, o folclore seja “só” história, registro do passado e não atraia mais a atenção hoje em dia.

Mas é só impressão. Essas são histórias são cheias de aventura e falam diretamente sobre sentimentos, sensações e experiências que ainda nos animam, ainda têm muito a dizer.

“As histórias de tradição oral sempre estiveram presentes na produção cultural tanto do Brasil como do mundo, de uma maneira ou de outra. Desde o sucesso estrondoso de Harry Potter ou da trilogia do Senhor dos Anéis, por exemplo, personagens que são comuns às mitologias de todos os povos como fadas, dragões, bruxas(os), duendes, etc. voltaram a protagonizar as histórias e como estamos falando de produções globalizadas, que ganharam o mundo, foi fácil eles ‘viralizarem'”, nos explica Januária Alves, uma das principais especialistas no tema no Brasil.

Folclore e jovens leitores

Não à toa, essas histórias estão em livros, séries de TV, HQs… O novo livro de Silvana Rando, por exemplo, Salvos por um fio, para jovens leitores, bebe diretamente nessa fonte.

“Na verdade, eu fiz uma salada de lendas! Hehehe… A maioria das referências são de origem indígena. Quis buscar lendas poucos conhecidas e as adaptei, a fim de dar um tempero a mais e talvez, deixar mais atual”, conta a autora, que ouvia muitas dessas histórias na infância, contadas por sua tia Pina, a quem ela dedica o livro.

“Depois da jogatina, ela nos contava as histórias do tempo da fazenda. Eram histórias de arrepiar os cabelos. Tinha saci, boitatá, pisadeira e outros seres que só eles conheciam”, relembra.

Já Januária acredita tanto na força dessas histórias –clássicas, por que não?– do imaginário popular brasileiro que, além de assinar a quarta capa do livro de Silvana, é autora do Abecedário de personagens do folclore brasileiro e suas histórias maravilhosas (FTD/Sesc, 2017), resenhado pela revista especializada Quatro Cinco Um.

Para falar ainda mais sobre folclore, jovem leitor e leitura, trouxemos neste post:

  • Entrevista com Januária Alves e Silvana Rando sobre folclore
  • Curiosidades sobre personagens folclóricas que talvez você não conheça
  • Dicas para incentivar a leitura entre os jovens leitores

O folclore sempre esteve presente na produção cultural

Se pensarmos que as histórias folclóricas carregam mitos e lendas que falam diretamente da enorme gama de sentimentos humanos; se pensarmos que também podem ser narrativas de aventura e de suspense; se pensarmos que carregam metáforas e saberes, vai ficando cada vez mais claro a potência dessas histórias para agradar os jovens leitores.

Sobre isso, conversamos abaixo com a especialista Januária Alves. Leia abaixo os principais trechos da conversa:

Brinque-Book: Por que você acha que tem havido um interesse em resgatar personagens e lendas populares que, por muito tempo, só apareciam nas efemérides escolares?

Januária Alves: As histórias de tradição oral sempre estiveram presentes na produção cultural tanto do Brasil como do mundo, de uma maneira ou de outra. Desde o sucesso estrondoso de Harry Potter ou da trilogia do Senhor dos Anéis, por exemplo, personagens que são comuns às mitologias de todos os povos como fadas, dragões, bruxas(os), duendes, etc. voltaram a protagonizar as histórias e como estamos falando de produções globalizadas, que ganharam o mundo, foi fácil eles “viralizarem”.

BB: Essas histórias que, como você escreve na quarta capa do Salvos por um fio, fazem parte do imaginário de todos nós, ainda tem esse poder mobilizador de mistério, aventura?

Januária: Esses personagens da mitologia, do nosso folclore, são representantes do nosso inconsciente coletivo, simbolizam o que há de eterno nos seres humanos: o medo, o amor, o ódio, a inveja, a solidão, a solidariedade. Portanto, todos nós nos reconhecemos neles, é como eu sempre digo: todos somos folclore. E assim, eles retornam agora com toda força, especialmente nesse momento tão complexo que estamos vivendo. Esses personagens nos contam quem somos e porque estamos aqui. Em um mundo “líquido” como esse em que vivemos, em que há poucas certezas e valores para nos ancorarmos, o folclore é um porto seguro para toda a humanidade.

BB: Dessas lendas que Silvana Rando resgata, você conhecia todas? Quais não conhecia? Quais chamaram mais sua atenção e por quê? E quais histórias você ouvia na infância?

Januária: As lendas que a Silvana resgatou já eram conhecidas para mim, para elaborar o meu livro “Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro” (FTD Educação/Ed. SESC SP) fiz uma extensa pesquisa sobre os personagens da nossas histórias orais e selecionei 141 para compor o livro. Na história da Silvana há personagens como o Unhudo, por exemplo, que são identificados por outros nomes em outros lugares do Brasil. E isso é bem comum de acontecer, pois o Brasil é um país continental e essas histórias foram passando de boca em boca, e por isso, em cada lugar elas as histórias são contadas de maneiras diferentes, ainda que mantenham a essência do personagem.

A minha infância foi passada em Pernambuco e cresci ouvindo essas histórias que são comuns a todos os brasileiros, como as do Saci, Cuca, Lobisomem, dentre outras. E também histórias que são mais locais, como a do Papa-Figo, por exemplo. Foi um privilégio crescer em um estado que valoriza a cultura popular como um grande patrimônio, como é Pernambuco.

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Narrativas orais: formação leitora e de memórias

Silvana Rando se inspirou num hábito afetivo de família para escrever Salvos por um fio: as histórias que sua tia Pina contava a ela e seus primos.

E a tia, claro, trazia lendas folclóricas que ouvia desde pequena, assim como fazem outras séries de sucesso para jovens. Em um bate-papo por e-mail, conversamos sobre o tema. Leia, a seguir os principais trechos:

Blog da Brinque: Você dedica o livro à tia Pina, a “melhor contadora de histórias do mundo”. Conte mais sobre a tia Pina para a gente? Como ela era fisicamente? Ela morava no sítio onde seu pai foi criado? Que histórias ela contava? 

Silvana Rando: Tia Pina era linda. Espanhola, de olhos verdes, cabelos negros, sempre bem-humorada e de uma paz invejável. Com ela aprendi a tomar café, a fazer crochê, a jogar baralho e a contar histórias. Todo domingo, a família baixava em peso na sua casa para jogarmos tômbola. Depois da jogatina, ela nos contava as histórias do tempo da fazenda. Eram histórias de arrepiar os cabelos. Tinha saci, boitatá, pisadeira e outros seres que só eles conheciam.

BB: Qual é a importância, para você, das tias Pinas que há pelo mundo, sempre nos contando histórias, oralmente, para a formação de leitores e pra memória das histórias coletivas, populares?

Silvana: Que lindo seria se em cada família existisse uma tia contadora de histórias, não é mesmo? A memória afetiva que se forma através desses momentos nos tornam únicos. E entre aqueles que conhecem as histórias, nasce uma cumplicidade.

BB: No final do livro, você conta que conheceu vários mistérios através das histórias da sua tia. Essas lendas do livro, como foi seu processo de pesquisa para elas?

Silvana: Na verdade, eu fiz uma salada de lendas! Hehehe… A maioria das referências são de origem indígena. Quis buscar lendas poucos conhecidas e as adaptei, a fim de dar um tempero a mais e talvez, deixar mais atual.

BB: Muitas das lendas que aparecem em Salvos estão ligadas à cultura indígena, incluindo o nome de alguns personagens. Esse é um tema que te interessa?

Silvana: Não acho que seja somente interesse e sim uma enorme necessidade em lembrarmos do respeito que devemos ter com os povos indígenas e a sua cultura.

BB: De onde vem o Unhudo?

Silvana: O Unhudo, também conhecido com Corpo Seco, é uma lenda que aparece principalmente no interior do estado de São Paulo. É uma espécie de zumbi que protege a mata daqueles que queiram roubar frutas ou flores. Existem alguns relatos dele gritar pra caramba, o que achei engraçado para colocar no livro. Também procurei colocar apenas os seres que protegem a natureza.

BB: Parece estar havendo um aumento de interesse pelas lendas populares, pelas criaturas misteriosas que habitam — ou habitavam — o imaginário popular. Por exemplo, na literatura mesmo, há fenômenos como as séries de HQs Hilda (de Luke Pearson, editada no Brasil pela Quadrinhos na Cia) e Gravity Falls (de Alex Hirsch, Editora Universo dos Livros). Ambas têm versões televisivas. E, neste ano, estreou a série brasileira Cidade proibida, com criaturas do folclore nacional como personagens. Você percebe esse interesse pelo tema também? 

Silvana: Puxa, sou muito fã (mesmo) de Hilda e de Gravity Falls. Ambos influenciaram nesse livro. A série brasileira, Cidade Proibida, ainda não terminei de assistir. Ela surgiu bem na época que eu estava escrevendo o Salvos por um fio. Pensar na cultura popular de cada país, nos ensina sobre quem somos e de onde viemos.

BB: Além de divertir quem lê, o que você imagina que o livro pode suscitar de conversas e interesse em relação à nossa cultura popular?

Silvana: Em cada região do Brasil, existe tantas lendas ainda desconhecidas. Espero que o livro desperte a conversa para essas trocas.

BB: Yandra é uma personagem forte, cheia de determinação e coragem, que tem um segredo pouco comum entre as mulheres. Ela e Ana podem ser referências positivas de representatividade feminina?

Silvana: Sim, com certeza. Uma referência às mulheres fortes e destemidas da minha família. Espero que os leitores se sintam inspirados por essa força.

BB: A relação com a natureza, a ganância e a ambição que tem nos levado a destruir o meio ambiente e formas alternativas de viver em harmonia com o mundo natural também são temas do livro. Você acha que estamos prontos, coletivamente, para falar sobre esses temas de um modo mais maduro e prático, nos implicando no problema e buscando soluções — nem sempre confortáveis?

Silvana: Sinto que estamos atrasados com essa conscientização. É preciso achar uma saída e com urgência. O meu papel aqui, foi o desejo de despertar esse assunto dentro do leitor.

BB: Quantos anos têm o Tatá? 

Silvana: Puxa, acho que Tatá tem uns 187 anos, mas não tenho certeza.

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E você? Conte para a gente alguma história que ouvia desde pequeno (a) nos comentários.


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