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“Super-Ulisses”, de Caio Tozzi: aventura para formar leitores pré-adolescentes

14/07/2021

Albertina ama ler. Ama, especialmente, os seus livros. Seus 244 livros, nem um a mais, nem um a menos. Guarda todos muito bem guardados em seu quarto. E de lá ninguém os tira!

Certo dia, no entanto, a menina se dá conta de que os livros não estão mais no lugar. O que teria acontecido? Os preciosos companheiros de Albertina agora estavam no café da família. Foram para lá sem sua autorização. E, pior, um deles havia desaparecido por completo.

livros para pré-adolescentes super 1Uma estante com nada menos que 244 livros. Que vai viajar por aí a bordo da caminhonete Super-Ulisses, ao lado de Albertina, uma super-leitora, e de Molina, que ainda vai descobrir o prazer de viajar nas páginas de uma boa história. Imagem: Super-Ulisses, de Caio Tozzi (texto) e Renato Drigues (ilustrações)

Assim começa Super Ulisses, de Caio Tozzi com ilustrações de Renato Drigues, lançamento para leitores pré-adolescentes da Escarlate.

Albertina parte, então, em busca do livro perdido sem saber que vai se deparar com Zezo e sua avó e com todas as muitas possibilidades das histórias, fazendo com que sua paixão por livros ganhe outra dimensão e extrapole -e muito- as paredes do quarto e as estantes.

Livros para pré-adolescentes: ouvir os leitores

Esta é uma obra que foi inspirada na experiência real de Caio Tozzi com os livros -como roteirista de um programa que investigava bibliotecas e seu impacto em sua comunidade e também em suas viagens para conhecer escolas pelo interior.

Assim surgiu Albertina e esse romance -indicado a partir de 9 anos-, que traz os livros como tema principal.

Um livro para pré-adolescentes com um enredo poderoso: os livros são transformadores e merecem estar por aí, de mão em mão, para todos e todas. Essa obra de Caio Tozzi é uma deliciosa metáfora sobre o poder transformador da literatura.

Mas os jovens leem?

Diz Caio:

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As ficções são parte constituinte da nossa existência. O poeta Ferreira Gullar sempre dizia a seguinte frase: ‘a arte existe porque a vida não basta’. A gente não explica tudo pela realidade. Por isso, precisamos nos aproximar das histórias.

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Para ele, o leitor pré-adolescente e jovem –ao contrário do que muitos pensam– gosta de ler e, por vezes, têm uma relação bem próxima e apaixonada com livros e escritores preferidos.

Não à toa, lembra, nas pesquisas brasileiras sobre leitura, essa é geralmente a faixa etária que mais lê. Claro que há a leitura na escola nessa faixa etária, que puxa para cima esses números. Mas, mesmo assim, defende Caio, o jovem é leitor.

A questão é deixar esse jovem fazer suas escolhas sem julgar tanto. Nós, adultos, costumamos criticar e querer que nossos filhos e alunos leiam o que consideramos bom. “Será que é esse o caminho?”, Caio pergunta.

Para ele, é preciso ter escuta para as preferências desse leitor e dialogar com ela. “A partir do que apresentem como interesse, traga outros títulos na mesma linha. Se é sobre um gênero -por exemplo, humor-, apresente crônicas engraçadas. Se é sobre um tema -por exemplo, futebol-, explore os livros neste universo”.

Livros para pré-adolescentes SuperUlisses 2Os livros para pré-adolescentes precisam chegar até eles dialogando com seus gostos por gêneros e temas. Imagem: Super-Ulisses, de Caio Tozzi (texto) e Renato Drigues (ilustrações)

Opinião parecida com a da escritora, livreira e mediadora de leitura espanhola Lara Meana, para quem os livros para pré-adolescentes são aqueles que os jovens querem ler.

LEIA MAIS: Crianças grandes também gostam de ler e ouvir histórias

Em sua pesquisa para escrever essa obra, inspirada em experiências reais do Caio escritor, ele encontrou diversos tipos de leitores  e de experiências leitoras. Representou todas elas em Super Ulisses.

Cada uma a seu modo, todas foram transformadas pelas histórias.

“O jovem leitor precisa saber que pode confiar nos livros”

Conversamos com Caio Tozzi sobre Super-Ulisses, suas personagens e os livros para pré-adolescentes. A seguir, você lê os principais trechos dessa conversa:

Blog da Binque: Você criou uma história com personagens que têm relações muitos diferentes com os livros: a Albertina, o Molina, o Jonas, o Zezo. Por quê?

Caio Tozzi: Este foi um cuidado [ao criar essa história]: trazer as diversas relações das pessoas com os livros.

Independentemente das oportunidades que uma pessoa teve em sua trajetória, os livros são para [todos e todas], para ela também. Sempre é possível haver a aproximação, a descoberta.

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A arte transforma, abre diálogos que às vezes não se consegue ter em nenhum outro ambiente. Imagina quanto ela pode ser poderosa no momento em que estamos crescendo, saindo da infância, entrando na adolescência, com tantas dúvidas, questões, com o desejo de pertencer ao mundo

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Por isso, cada uma [dessas personagens] tem um tipo de conexão [com livros]: a Albertina, uma grande apaixonada; o Zezo, que estimula a leitura para os outros; o Molina, que observa interessado, de longe, mas não sabe chegar nas obras; o Jonas, que não foi estimulado a ler e não percebe que pode ter uma história com a qual possa se encantar.

BB: Essa diversidade você observou em sua trajetória de escritor?

Caio: Isso veio a partir da observação e da convivência com esses diversos perfis, sempre na busca de abrir um diálogo com eles, entendendo e respeitando suas trajetórias.

Era importante olhar para todos e afirmar, nesta história, que todos podem fazer parte e ter suas próprias relações com a literatura.

BB: Os livros são personagens do seu livro também. Atravessam e transformam a vida das pessoas, mesmo de quem não os lê diretamente, como a avó do Zezo ou o próprio Molina do começo da história. É uma mensagem forte e poderosa essa. Por que falar disso com o jovem leitor?

Caio: O pensamento que me guia é que a arte transforma, a arte abre diálogos que às vezes não se consegue ter em nenhum outro ambiente.

Então, imagina quanto ela pode ser poderosa no momento em que estamos crescendo, saindo da infância, entrando na adolescência, com tantas dúvidas, questões, com o desejo de pertencer ao mundo.

E eu acho que o jovem leitor precisa saber disso, precisa saber que pode confiar no livro (ou em qualquer outra obra artística) como um grande companheiro de jornada. Por isso, trazer essa temática em Super-Ulisses.

BB: Você acha que os jovens leitores ainda se permitem transformar pelos livros?

Caio: Acredito que sim, sem dúvida. As ficções são parte constituinte da nossa existência. O poeta Ferreira Gullar sempre dizia a seguinte frase: “a arte existe porque a vida não basta”.

A gente não explica tudo pela realidade. Por isso precisamos nos aproximar das histórias. Isso desde que somos bebês até a nossa morte. E não seria diferente com os jovens – ninguém passa ileso por uma boa história.

É verdade que hoje em dia (mas isso sempre aconteceu, não?) existem tantas outras formas de se consumir histórias – TV, cinema, games, qaudrinhos – que, dizem, tiram atenção do livro. É um olhar…

Eu acho que pode ser o contrário: tudo pode convergir e fazer com que o jovem seja um grande “leitor” de tudo, do mundo, da vida. Afinal, quando falamos em ler, não estamos pensando unicamente em ler livros, mas ler o mundo, eu acho.

BB: É comum ouvirmos que crianças e jovens não gostam de ler. Você discorda disso. Por quê?

Caio: Ainda que seja num país como o nosso, com as questões todas com a educação e com os hábitos de leitura, as pesquisas apontam que a juventude é a faixa que mais lê.

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O que a gente precisa entender é o que eles querem ler, é ouvi-los, entender seus gostos, o que conecta com eles. Fazer a aproximação. Abrir o diálogo. Eles sabem o que querem

“—

Mesmo que este dado seja também por conta do vínculo com a escola, é inegável ver as filas nas bienais, o diálogo deles com os seus autores preferidos na internet. Eles estão muito abertos a se transformar pelos livros e se transformam.

Muita gente ainda carrega aquela ideia de que o jovem não lê, que existe esta distância. Eu não acredito, de verdade.

Às vezes, ficamos lá só dizendo o que eles devem ler, o que é bom. Será que este é o caminho? O que a gente precisa entender é o que eles querem ler, é ouvi-los, entender seus gostos, o que conecta com eles. Fazer a aproximação. Abrir o diálogo. Eles sabem o que querem.

BB: Para pais e professores: que dicas você daria para escolherem um acervo para os jovens leitores da casa ou da classe?

Caio: Repetindo a resposta anterior, acho que o caminho é a escuta e o diálogo. Entender, sem qualquer preconceito, o que esse leitor deseja ler.

Livros para pré-adolescentes SuperUlisses 3A leitura é generosa: transforma e inspira os leitores. Imagem: Super-Ulisses, de Caio Tozzi (texto) e Renato Drigues (ilustrações)

O jovem quer, procura, precisa dos livros. Mas a história escolhida precisa se conectar com ele. E, nesta idade, desde a transição da infância para a adolescência, como a Albertina, eles já têm seus gostos, seus interesses. Então, deixe que eles escolham suas histórias.

A partir do que apresentem como interesse, traga outros títulos na mesma linha. Se é sobre um gênero -por exemplo, humor-, apresente crônicas engraçadas. Se é sobre um tema -por exemplo, futebol-, explore os livros neste universo.

Assim, esse jovem vai ampliando os horizontes, aumentando repertório e, aos poucos, caminhando sozinho como um grande leitor para diversas rotas.

BB: A experiência da caminhonete Ulisses, de levar os livros aonde eles normalmente não chegam, pode acontecer também na vida real. Há alguns projetos de bibliotecas itinerantes e comunitárias. Por que isso é importante em um país como o nosso?

Caio: Porque fazem o livro chegar na mão do leitor. Esse é um grande desafio. Fazer com o a história deixe uma estante e conquiste e transforme as pessoas. E o mais lindo é que possível se montar uma biblioteca em qualquer lugar.

Eu mesmo já conheci bibliotecas em empresa de motoboy, em oficina mecânica, em padaria. Não é demais? O livro deve estar em todos os lugares, para todo mundo.

BB: Como surgiu para você a ideia do Super Ulisses?

Caio: A ideia do Super-Ulisses surgiu em 2019 quando decidi criar uma história para colocar em um edital de publicação literária.

Naquela ocasião, pensei sobre qual tema achava importante falar, considerando um diálogo social. E foi inevitável cair na questão da importância dos livros na vida da gente.

BB: E a inspiração para a trama veio dessa ideia também?

Caio: Resgatei duas experiências em minhas memórias: a primeira foi a produção de uma série de roteiros para um programa de televisão sobre bibliotecas e como elas impactavam em suas comunidades.

A segunda foram algumas viagens que havia feito pelo interior de São Paulo, visitando escolas. Lembrei de estar na estrada, no carro ou em um ônibus, pensando na alegria de fazer a literatura chegar em diversas localidades.

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Eu mesmo já conheci bibliotecas em empresa de motoboy, em oficina mecânica, em padaria. Não é demais? O livro deve estar em todos os lugares, para todo mundo

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Este foi o ponto de partida para criar a história da Albertina, essa menina apaixonada pelos livros, que acaba vivendo a experiência de leva-los até as pessoas através da criação de uma biblioteca móvel.

BB: Por que escolheu o nome Ulisses? Esse é um nome significativo na literatura, pois é o personagem principal da Odisseia, uma das obras mais importantes do cânone ocidental, poema grego que tem alguns milhares de anos. Também nomeou outras obras e até o cachorro mais querido de uma das nossas maiores romancistas, a Clarice Lispector…

Caio: Olha, essas coisas não têm muita explicação.

Eu gosto muito de nomes: tenho um caderninho com nomes sonoros que escuto pelas ruas, vejo nos lugares, [e vou anotando] para batizar meus personagens.

Vou muito pelo som; às vezes transformo sobrenomes em nomes (como, por exemplo, o personagem Molina, que é sobrenome de uma amiga bibliotecária muito querida!).

E gosto destes nomes como títulos dos livros – é só ver meus livros, a maioria são assim: Tito Bang!, Fabulosa Mani, Procura-se Zapata… Talvez seja uma inspiração nas revistas em quadrinhos, que na maioria das vezes são batizadas pelo nome do personagem principal.

Neste caso, queria que o título fosse o nome desta caminhonete, que é a biblioteca móvel, a grande estrela da história. E ela tinha que ter um nome poderoso: “Mega” alguma coisa.. “Super” algo…

Surgiu o Super-Ulisses. Mas, confesso que de imediato não fiz conexão nenhuma com qualquer outra obra. Só depois lembrei de tantos Ulisses que existiam no universo literário, como os que você citou, e achei que o nome acabou fazendo muito sentido.

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Super-Ulisses

Autor: Caio Tozzi
Ilustrador: Renato Drigues
Temas: Literatura / Relações
Faixa Etária: A partir de 9 anos
R$ 44,90

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E você? Conhece alguma biblioteca itinerante?


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