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Patricia Auerbach: sou uma mistura de personagens que encontrei

19/02/2018

O que pode um pedaço de pano? E uma velha folha de jornal? Depende. Nas mãos de uma criança – ou nas de uma artista como Patricia Auerbach – pode tudo! Autora dos premiados livros O JornalO Lenço, a ilustradora, de 39 anos, resgata em suas obras, com muita sensibilidade, uma infância criativa e criadora, fluida, em que a realidade e o mágico, o faz de conta, entrelaçam-se para tecer experiências.

Parte desse olhar generoso e verdadeiro para com as potências imaginativas das crianças Auerbach encontra em sua própria história de menina. Ela já contou diversas vezes, por exemplo, que O Lenço, considerado Altamente Recomendável pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), foi inspirado em suas brincadeiras com as toalhas de sua casa.

Já O Jornal, finalista do Prêmio Jabuti em 2012, nasceu de uma experiência dela com seus filhos em uma tarde chuvosa, como ela conta neste Brinque-Book Brinca.  Na arquiteta, publicitária, professora de História da Arte e ilustradora, leitora das prosas poéticas de Valter Hugo Mãe e de João Anzanello Carrascoza, coabita uma artista sem medo de inspirar-se na estética da infância, no poético da simplicidade cotidiana, o que fica claro nessa deliciosa conversa.

As perguntas, você sabe, são as mesmas. #vem?

Quem é você?
Uma mistura dos personagens que eu conheci pela vida.

Quem faz livros é o quê?
Um viciado em faz-de-conta!!

Como é o lugar em que você trabalha?
Uma bagunça!! Normalmente, enquanto estou no meio de um trabalho, não paro para organizar as folhas de rascunho e os materiais de desenho. Com o passar dos dias, a montanha de papeis cortados, lápis e anotações acaba crescendo. O pior é que quando a mesa transborda eu começo a usar os outros móveis da casa e vou tomando conta de tudo. Aí eu termino o projeto, entrego na editora e, por algumas horas, me torno a pessoa mais ordeira do mundo. Guardo tudo no lugar, deixo a mesa limpa, jogo um monte de rascunhos no lixo e assim me sinto pronta pra começar a bagunçar novamente!

Mesa de trabalho, em pleno processo de criação do próximo livro / Foto: Patricia Auerbach


Quais são suas técnicas prediletas para desenhar, escrever, ilustrar e imaginar?

Eu gosto muito de desenhar com tinta porque não dá pra apagar e porque meu traço sai naturalmente borradinho. Assim eu não fico querendo corrigir as coisas pra fazer tudo perfeito. Gosto do desafio de ter que aceitar os erros. Ultimamente tenho desenhado bastante com caneta tinteiro. O traço fica bonito porque não sai bem retinho, é como se ele deixasse a marca da tensão da caneta sobre o papel. Além disso é uma técnica que exige um traço lento e isso me obriga a ter calma.

Como é que você tem uma ideia para escrever ou desenhar? E como tira ela da cabeça e coloca no papel?
Acho que o melhor jeito de ter ideias é vivendo histórias. E a única maneira de levar boas ideias para o papel é olhando pra cada pedacinho de história com todo o cuidado pra memorizar seus contornos e definir suas cores. Não se chega a um lugar sem saber que lugar é esse. Não se faz um desenho sem saber o que se espera do passeio das linhas pelo papel.

Acho que não é assim pra todo mundo, mas comigo as ideias aparecem sempre no meio de alguma cena da minha vida. Isso não quer dizer que eu vou escrever as histórias exatamente do jeito que elas aconteceram comigo, mas uma frase, uma expressão, um gesto ou um medo da vida real são ótimos pontos de partida para a minha ficção.

Qual foi a ideia mais brincante que você teve e que virou livro?
Essa é fácil! Foi o barquinho de dobradura que deu origem ao livro O Jornal. Ele aconteceu de verdade em um sábado chuvoso, e a brincadeira foi tão divertida que eu achei um jeito de lembrar dela pra sempre. Transformei nossa aventura em um livro! E aí pra não obrigar os leitores a navegar pelos mesmos mares que eu, deixei a história sem texto de propósito. Assim, cada pirata inventa o tamanho da onda que quiser contar!

(“O Jornal” / Texto e ilustrações: Patricia Auerbach)


Seus lápis e cadernos brincam com você?

Eu não vivo sem caderninhos! Eles me acompanham pra todo canto desde que aprendi a escrever. E, pra mim, desenhar e escrever são ao mesmo tempo brincadeira, trabalho e cura. Escrever sobre alguma coisa que me aflige me deixa mais calma, desenhar num dia agitado tem um delicioso sabor de transgressão e fazer de tudo isso um trabalho é um desafio maravilhoso.

No caderninho: registro de férias, Biblioteca Infantil de Munique / Foto e ilustra: Patricia Auerbach


Quando não tem ninguém olhando, do que você brinca? E quando tem alguém olhando?

Quando não tem ninguém olhando eu canto! Eu adoro cantar e cantarolo o dia todo porque as palavras me fazem lembrar das musicas que eu gosto. E quando tem alguém olhando? Aí eu fico um tantinho vermelha, mas canto do mesmo jeito!

Em que momento, lugar, clima, hora do dia ou posição você mais gosta de ler, escrever ou desenhar?
Acho que depende do barulho. Eu gosto de desenhar enquanto tem outras pessoas conversando, porque as vozes vão ficando distantes e acabam virando um mantra. Mas não consigo ler se tiver um barulhinho qualquer, por isso pra abrir um livro eu preciso planejar muito bem o lugar e a hora. Então é assim. Quando tem barulho eu prefiro desenhar e quando o mundo silencia eu prefiro as palavras.

No caderninho 2: cenas em uma praça enquanto os filhos brincavam em Copenhague / Foto e ilustra Patricia Auerbach


O que você mais gostava de ler quando criança? Mudou muito para os dias de hoje?

Acho que eu não mudei muito não. Gosto de uma prosa poética, gosto de autores que usam palavras inusitadas para falar de situações comuns. Gosto do texto que me emociona e me faz pensar. As primeiras obras que me tocaram profundamente foram Bisa Bia Bisa Bel da Ana Maria Machado e A Bolsa Amarela da Lygia Bojunga. Ultimamente estou muito encantada com os contos da Marina Colasanti e acho que todos esses textos têm em comum um olhar doce, criativo e amoroso para a vida. Assim como elas, Mia Couto, Valter Hugo Mae e João A. Carrascoza têm me acompanhado com frequência. São autores que me fazem parar a leitura no meio da página pra saborear construções de frase que são pura poesia.

>>Já brincaram com a gente:  Fernando Vilela, Ilan Brenman, André Neves e Janaina Tokitata


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