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Criatividade em sala de aula: por que é importante formar alunos criativos?

27/02/2020

Como professora ou professor, você já sabe que é cada vez mais importante ajudar as crianças a desenvolver competências que vão além de dominar as disciplinas tradicionais.

Em um mundo cada vez mais complexo, automatizado, com desafios mais sofisticados, ser criativo — ou melhor, usar bem a capacidade inata de criar — passa a ser essencial para uma vida plena tanto pessoal quanto profissional.

Quer um exemplo? Pense que a informação hoje está a um clique de distância, logo ali, no Google. Saber já não é suficiente, pois o conhecimento está sendo automatizado.

O valor do saber está cada vez mais em criar soluções novas para os desafios, conectando conhecimentos de forma inovadora e criativa. Isso o smartphone não faz.

Criar é um valor 

O jornal Folha de S. Paulo entrevistou Andreas Schleicher, um dos maiores especialistas em avaliação educacional do mundo, na edição de 29 de fevereiro.

O especialista destacou que criatividade não é apenas um valor humano, mas um valor econômico.

Para a coordenadora do programa Escolas Transformadoras, realizado em uma parceria entre Ashoka e Instituto Alana, Raquel Franzim, ainda pensamos muito nas artes quando falamos de ser criativo.

Mas, disse ela ao Blog da Brinque: a criatividade é muito mais do que isso.

“Pode ajudar a resolver problemas, a promover inovação política, social e de qualquer ordem”, avalia ela.

Um cientista, por exemplo, precisa ser criativo para, a partir dos dados iniciais que colhe, imaginar hipóteses que expliquem o fenômeno.

Ou seja, o próprio pensamento científico, o aprendizado, a pesquisa e a ciência dependem da criatividade.

Não à toa, algumas dessas competências estão na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Caso, por exemplo, da criatividade, uma das 10 habilidades socioemocionais que estão contempladas na BNCC, sendo o segundo item da lista dessas competências: pensamento crítico, científico e criativo.

“Criatividade é do campo social e de seus afetos”, explica Franzim, que é também co-organizadora de um livro sobre o tema da criatividade na escola, publicado no ano passado pelo programa que ela coordena.

Criatividade é uma habilidade essencial

Use a imaginação, de Nicola O’ Byrne (texto e imagem): coelho escapa do lobo mau usando muita criatividade e imaginação, recursos que nos ajudam a resolver problemas também

Ao lado de outros dois especialistas, ela organizou a publicação: “Criatividade: mudar a educação, transformar o mundo”, que pode ser baixada gratuitamente.

São 42 colaboradores ao todo e 21 textos e vídeos contando experiências na escola, trazendo teorias, propondo reflexões e pontos de vista sobre como e por que trabalhar a criatividade em sala de aula.

Entre os autores dos artigos que compõem o livro, há colaboração sortida, de professores a alunos, passando por especialistas em Educação, de vários estados do País e mesmo de fora.

Editado pelo Instituto Alana em parceria com a Ashoka, via projeto Escolas Transformadoras, o livro é dividido em cinco partes / temas, que conversam com a ideia de apoiar o desenvolvimento criativo das crianças:

1) Complexidade, transdiciplinaridade, ética; 2) O processo criativo; 3) Emoções e linguagens; 4) A força das culturas e da memória; 4) Diálogos com o poder público.

É possível aprender criatividade

Muitas vezes, a criatividade está associada a competências inatas e individuais. Algo como ou você é criativo ou não é.

Mas não é assim. Todos nós nascemos criativos, pois criar é uma capacidade humana.

Isso significa que é possível aprender a ser mais criativo, ou aprender a usar melhor esse recurso que já temos, em todas as suas possibilidades, que são muitas.

“Essa é a primeira aprendizagem das famílias e dos educadores: [compreender que a criatividade] não é um talento individual, uma característica, mas uma competência que pode ser desenvolvida ao longo da vida”, explica Franzim.

Criatividade nos ajuda a ver as coisas de um outro ângulo, como na ilustração de Tatiana Paiva para o livro O gato xadrez, que tem texto de Isa Mara Lando

Como fazer na sala de aula?

Na infância, lembra Franzim, as crianças são multilinguagem, embora os adultos valorizemos muito mais a linguagem oral que a corporal e simbólica.

“Isso é um diferencial de escolas que promovem ambientes mais criativos: deixar o imaginário não só na escrita e oralidade”, afirma ela.

As crianças precisam de um ambiente e de um contexto que dê a elas mais liberdade de ação e criação — e até mais responsabilidades.

Mas é importante lembrar que é possível fazer isso mesmo nas escolas mais tradicionais, como lembra Andreas Schleicher na já citada entrevista à Folha.

Dicas para a criatividade

A partir de uma conversa por telefone com Franzim — realizada na época do lançamento do livro — da leitura da obra que ela organizou e de pesquisas sobre projetos inovadores nas escolas de infância, listamos algumas dicas para fomentar a criatividade das crianças.

Onde começa a história?, de Marie-Louise Gay (texto e ilustrações): estar na natureza, ao ar livre, com o “tempo alargado”, diversidade e desafios é fundamental

1- Menos é mais

Raquel recomenda que as crianças tenham menos estímulos, menos pressa e mais tempo.

“Abrir espaços de ócio, de iniciativa livre da criança”, diz ela.

São nessas situações em que surgem as competências de cada um para encontrar, no “vazio de respostas” alguma coisa interessante para criar, pesquisar, descobrir.

“Ousemos des-apressar o aprender. Saibamos retardar o que-saber-para-fazer em nome do como-viver-para-ser. Dar mais e melhor tempo a lentas e humanizadas progressões escolares, e abrir mais momentos ao poético por oposição ao prosaico; ao devaneio por oposição ao conceitual (como em Gaston Bachelard); ao amorosa- mente dialógico, por oposição ao egoisticamente monológico; ao poiético = a cons- trução da poesia-de-si-mesmo na pessoa de cada aluna/o, por oposição ao pragmá- tico = a mera instrução do indivíduo para produzir apenas… coisas”.

Carlos Brandão, no livro “Criatividade: mudar a educação, transformar o mundo”

Exercitar o brincar livre pode ser tão preparador para o futuro quanto outros aprendizados que acabamos priorizando.

É o que nos mostram exemplos vindos, por exemplo, de Reggio Emilia e da pedagogia proposta por Emmi Pikler, em que o brincar surge como espaço para revelar capacidades, interesses e aprimorar a pesquisa infantil e o elaborar das emoções.

2- Mais conflito

As crianças são capazes de lidar com o conflito, com o “vazio” de respostas e soluções. Os adultos têm de deixar esse espaço.

Franzim exemplifica dizendo que, se duas crianças de se desentendem, logo vem um adulto resolver. Por que não experimentar observar primeiro e dar espaço para os pequenos negociarem?

Se for preciso intervir, a depender da idade das crianças, é melhor o adulto sempre pedir que as crianças sugiram a negociação ao invés de ele mesmo definir o que fazer.

Ilustração de Colin Thompson em Como viver para sempre

3- Mais responsabilidades, menos controle

Ter responsabilidades de acordo coma faixa etária é ótimo também, pois coloca desafios para os pequenos, que precisam exercitar a criatividade para resolvê-los.

Quando essas tarefas viram hábitos, as crianças se sentem à vontade para pensar em novas formas de fazê-las e respondem bem a desafios imprevistos, como não encontrar a toalha da mesa no lugar de sempre.

4- Valorização dessa capacidade da criança

Uma outra dica valiosa da Raquel Franzim é: valorize respostas novas e soluções diferentes que as crianças derem.

Esse é um desafio para os adultos, sempre acostumados a esperar respostas “certas” e padrão, seja em casa, seja na escola.

O adulto às vezes pode sentir que fica sem autoridade ao deixar ao valorizar as competências, os saberes e as hipóteses das crianças.

“Mas não é isso. Só que nosso papel é mais de incentivo e fomento que de controle da trajetória”, avalia Raquel.

Raquel Franzim, coordenadora do projeto Escolas Transformadoras: “nosso papel é mais de incentivo e fomento que de controle da trajetória” / Foto: Divulgação Instituto Alana

5- Mais natureza e diversidade

Estar na natureza é essencial. Isso porque o espaço natural tem um “tempo próprio”. Um convite à pesquisa, à exploração e à pergunta.

Por que a borboleta voa? Por que chove? Como a lagarta anda, se não vemos os pés dela? Onde moram as formigas? Como a minhoca respira se ela enfia a cara no meio da terra?

Quem já passeou um pouco que seja com os pequenos a céu aberto sabe que eles são ótimos em observar e indagar.

Fechados em casa, em ambientes cada vez mais controlado, como as crianças vão criar?

“Criatividade envolve um certo risco”, explica Raquel.

Claro que isso não significa expor os pequenos a situações perigosas, mas deixá-los em contato mais livre com desafios, inclusive físicos. Que criança hoje em dia tem o privilégio de subir numa árvore?

Conhecer pessoas diferentes, explorar diferentes realidades e alargar a experiência é essencial.

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E você? O que acha desse tema? O que faz na escola para desafiar seus pequenos a soltar a imaginação? Conte para a gente!

*Texto adaptado de post originalmente publicado em 30/08/2019


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