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Reencontro com as raízes ancestrais

10/03/2019

Francine Machado é atriz, educadora, contadora de histórias e jornalista. Ela esteve imersa em uma formação em Pedagogia Griô, uma abordagem criada pela educadora Lilian Pacheco e por seu marido Márcio Caires, que é mestre Griô, ou seja, um contador de histórias orais tradicionais dos povos ancestrais, sobretudo negros. Essa abordagem propõe que a oralidade, a música, a dança, o corpo e o fazer manual tradicionais são caminhos pedagógicos para a aprendizagem e para a criação. Francine vai nos contar, em dois artigos, sua experiência Griô. 

Bons diretores de teatro sempre me pediram a mesma coisa: “surpreenda-me”. Mas, pra mim, bons cursos e vivências também vão além das nossas expectativas iniciais – como a última que experimentei. Nestas férias escolares, fui à imersão em pedagogia griô (contador de histórias tradicional africano), na Chapada Diamantina. Voltei regenerada, nutrida, centrada, grata, encantada e em paz com minha criança interior – esta que esqueço no cotidiano desgastante paulistano.

Lilian partiu desse modo afro de cantar, brincar e jogar a sabedoria indígena, africana e suburbana. 

Em nosso curso, no entanto, fomos além de ler, escrever, assistir ou perguntar sobre este trabalho que o casal faz. Lilian, que também escreve livros, foi nos receber simpaticamente na rodoviária local, muito embora tudo fique a 5 ou 10 minutos da hospedaria em que dormimos, dentro da própria organização na qual ela e o marido iniciaram oficinas, apresentações, dão formações e ainda promovem trilhas griô – um modo afro de caminhar, experimentar e sentir o mundo, mas que é experienciado também entre os indígenas ou periféricos. 

Lilian nos indicou empreendedores locais para comer no primeiro dia e fortalecer o comércio da região (algo que também tento fazer, na periferia paulistana: contar com pessoas do entorno que estejam produzindo, vendendo e, nesta crise, resistindo!). 

Apreciei aos poucos a culinária baiana: sucos de umbu e mangaba, cuscuz, pastel de coração de bananeira, mamão verde refogado e temperado, entre outros pratos, ao longo de cinco dias. Tudo com moderação para o estômago não reclamar, como já me aconteceu numa empolgação com frutos do cerrado há três anos cobrindo voluntariamente e estudando a cultura popular no XV Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, na Chapada Gaúcha (MG). 

O primeiro dia foi  um “intensivão” no Quilombo Remanso. Doze horas para ser mais exata.  Fomos recebidos de forma brincante por Marcio, que convidava os participantes a interagir numa roda, improvisando. Para meu encantamento – pois trabalho com contação – ouvimos histórias de contadores tradicionais, além de cantar e dançar, nos sentindo à vontade já de saída. 

Muitas casas são simples, têm construção tradicional e me lembraram as férias de infância no norte do Paraná, entre casas de madeira feitas pelos pioneiros caipiras. 

Nos dividimos novamente para vivenciar os trabalhos tradicionais quilombolas com os mestres baianos desta comunidade. Nosso grupo ficou encarregado de tecer uma rede de pesca. Apanho um pouco em trabalhos manuais, mas, mesmo sem racionalizar o que dona Leonor explicava, parte da rede saiu. 

Senti o que meu mestre budista recomenda, de desenvolver gratidão pelos que tornam nossa refeição possível. Se precisasse tecer sempre uma forma de capturar peixes, comeria um por ano e olha lá! 

Depois não tive coragem de pescar próximo à casa desta nossa segunda mestra, muito paciente com nossas dificuldades e com a netinha interessada e tagarela – me lembrando eu mesma na infância! 

Mais tarde, embarcamos em canoas e fiz como nas manifestações paulistas: tive medo, mas fui com medo mesmo. Acabei me divertindo com os remadores locais apostando corrida. 

Mais uma vez, uma relação com minha infância emergiu dessa experiência: lembrei de correr voltando da escola com um vizinho quando éramos crianças na ladeira da periferia em que cresci, próxima à comunidade do Heliópolis, em São Paulo. –

Quando as canoas pararam, ouvimos Nego D’Água, lenda trazida pelo neto de um antigo quilombola bravo, que gostava de pescar sossegado. Para afastar o neto, o avô lhe contava a história de um. Nego que era conhecido por ter cortado a cabeça de outro pescador que deu uma remada nele. 

Associei a brincadeira com bolinhas de barro e estilingue – que o avô já usava para espantar crianças de suas plantações – à época em que meu pai, também irado, era pequeno, na infância caipira que teve no interior paulista. 

Os quilombolas se consideram uma família só – muito como meus próprios parentes, que se casaram entre eles por cinco gerações! Os caipiras são meio sertanejos e quilombolas, mas não se sabem! Somos mesmo um país que não se sabe negro. E como é potente resgatar essas raízes ancestrais à maioria de nós. 

Consegui voltar em cima do banco da canoa. Terminamos na associação local, onde mostramos o que construímos em grupos, agradecemos às famílias que nos receberam, ensinaram e lembraram nossos parentes e memórias de infância. Depois já foi celebração: cantamos um parabéns quilombola e o forró correu solto. 

O dia seguinte era de elaboração lúdica da trilha griô no Remanso – mas isso fica para outro artigo. No balanço deste misto de curso e residência terapêutica, encarei ainda outra sombra de me detonar já de saída o tempo todo para fazer rir e ser aceita, mas terminei não pedindo desculpas pela minha existência no final, um exercício não muito simples sendo mulher, mas que tenho mantido há algumas vivências literárias femininas, feitas em São Paulo ano passado. 

Contornei a briguenta que habita em mim o quanto pude, mas explodi no último dia, nas manhãs em que as vizinhas de beliche acordavam a todo vapor falando, abrindo porta, com luzes e sons nos despertando com a corda toda e eu lerda, como é típico cedo. 

Encarei ainda minhas sombras, com por exemplo, achar que nunca está bom, sempre demando mais para ser feliz. Estudar o que amamos é mesmo um exercício de auto-conhecimento e, como elaborei com a musicoterapeuta carioca Julia Neves, que conheci lá, é também curador. No meu caso, compreendi porque vinha há três anos visitando sertão, comunidades indígenas, tradicionais e quilombolas: para entender o que meu avô quis dizer quando falava que éramos caboclo com caboclo, ao levantar nossa árvore genealógica emaranhanda e experienciar que nunca deixamos de ser povos originários. Vivenciei que a cultura popular não só nos cura, como conecta raízes caboclas às tradicionais, numa composição brasileira duma família só, embora tão diversa!


Comment ( 1 )

  • Muito boa a narrativa, me fez imaginar todo o percurso na canoa como se eu estivesse nela também. A história do nego d’ água me fez lembrar a do velho do saco,do cadeirudo e tantas outras que eram inventadas pelos adultos para assustar “ou proteger” os mais jovenzinhos rsrs. Obrigada pelas lembranças.

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