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Os livros e as crianças ou: para que serve a educação

21/12/2017

Por Fabíola Farias

(“Todo mundo é misturado” / Beth Cardoso)

Aprecio bastante a ideia do filósofo alemão Theodor Adorno sobre educar, segundo quem educação serve para que Auschwitz não se repita. Perguntar para que serve a educação parece algo desprovido de sentido, uma vez que educar, especialmente no aspecto formal do termo, é um valor consolidado no tempo em que vivemos – falamos sobre educação, discutimos a qualidade da escola, denunciamos decisões do poder público que nos parecem equivocadas e, principalmente, defendemos o direito de educação para todos.

Mas a educação a que se referia Adorno, considerado por muitos, especialmente pelos que não o leram, um filósofo elitista e ultrapassado, se referia a um processo de formação, que criasse as condições para que compreendêssemos o tempo, o espaço e as relações que estabelecemos com outras pessoas e grupos, pelo acesso e apropriação de bens culturais.

Por isso, o filósofo entendia o processo educativo, sempre inacabado e em marcha, como a exigência de que o horror dos campos de concentração não pudesse se repetir. Conscientes e atentas às maneiras como as relações sociais e de interesse se estabelecem, as pessoas estariam mais preparadas para rejeitar a barbárie e as injustiças. Ainda, seriam mais críticas frente às informações que circulam, muitas vezes compostas de malabarismos para validar os interesses de um grupo.

“Em contato com os livros e a leitura, desde muito pequenas as crianças começam a participar da cultura escrita. E começar cedo aqui não quer dizer sair na frente para competir, mas contar com mais horizonte para denunciar a barbárie e pensar a justiça autonomamente”.

 

Parece-me que as ideias adornianas são bastante atuais e pertinentes para refletir sobre o que vivemos no Brasil e no mundo hoje. Até mesmo Auschwitz, que nos parecia algo distante, anda rondando as nossas vidas. Para além da referência concreta ao nazismo, há outros horrores que povoam o nosso cotidiano e que invadem, sorrateiramente, a nossa vida pública e privada. Refiro-me ao obscurantismo, muitas vezes vendido como liberdade de expressão e autenticidade, que valida visões de mundo racistas, machistas, homofóbicas e de manutenção de privilégios econômicos – porque ao fim e ao cabo, lá estão os interesses econômicos.

E o que tem tudo isso a ver com os livros que oferecemos às crianças?

Mais que histórias bonitas e divertidas para passar o tempo com e dos pequenos, os livros (texto, ilustrações, formatos) são feitos de ideias. Assim, oferecemos, com os livros, aberturas distintas para compreender o mundo, que é grande, diverso e complexo.

Podemos oferecer narrativas que estabelecem verdades prontas e fechadas ou um repertório que contemple os conflitos, os desejos, os medos, as alegrias e os sonhos humanos. A oferta da língua que narra, canta, orienta, comunica, ordena e subverte, por exemplo, já é promessa de alguma liberdade. Entender e se apropriar da língua, a falada e a escrita, ampliam os horizontes para o pensamento.

Em contato com os livros e a leitura, desde muito pequenas as crianças começam a participar da cultura escrita. E começar cedo aqui não quer dizer sair na frente para competir, mas contar com mais horizonte para denunciar a barbárie e pensar a justiça autonomamente.

Para evitar que não dependamos de outros que nos apontem o rei nu e para garantir que Auschwitz e outros horrores não se repitam.

Fabíola Farias é graduada em Letras, mestre e doutoranda em Ciência da Informação pela UFMG. É leitora-votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e coordena a rede de bibliotecas públicas da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.


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