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“Bruxa, bruxa meu amor”, por Fabíola Farias

22/01/2019

Por Fabíola Farias*

Ilustração de: Conte uma história, Estela, de Marie-Louise Gay  (texto e ilustração)

Quando meu primeiro filho era bem pequeno, vivia paixões temporárias com os livros. De tempos em tempos, escolhia uma história para amar, carregando o livro para todos os lugares e pedindo aos adultos que o lessem para ele, além de passar muito tempo vendo as ilustrações.

As leituras se repetiam ao longo do dia e ele acompanhava a narrativa recitando, junto à voz de quem lia, partes que havia decorado. À sua maneira, lia também e desejava que nós o reconhecêssemos como leitor quando o ouvíamos contando a história.

Vi a mesma coisa acontecer muitas vezes na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte: as crianças, especialmente as menores, se encantavam com determinados livros e, semanas após semanas, renovavam seus empréstimos dos mesmos títulos.

 

Quero pensar junto com quem me lê o quanto são importantes em nossa formação essas relações de amor com um determinado livro

 

Entre as preferências estavam livros -nem sempre bons- sobre dinossauros e cavalos, e os sempre muito bons que eram lidos pelo Samuel e pelo Rodrigo nas atividades de leitura realizadas pela Biblioteca, especialmente nas manhãs de sábado. Aos poucos, os livros do “Samuel e do Rodrigo” iam se tornando amados pelas crianças e por suas famílias e entravam na roda dos livros mais emprestados.

Dentre muitos, quero falar de dois títulos que fizeram parte dos amores infantis do meu filho Tomás, hoje com quinze anos, e também frequentam há anos a lista de preferidos das bibliotecas públicas municipais de Belo Horizonte, especialmente da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Mas não quero tratar disso à toa, quero pensar junto com quem me lê o quanto são importantes em nossa formação essas relações de amor com um determinado livro, mesmo que, na avaliação de um especialista, ele não seja tão bom (ainda bem que hoje temos livros incríveis sobre dinossauros, como os escritos pelo Luiz Eduardo Anelli!).

Ilustração de: Bruxa, bruxa, venha à minha festa, de Arden Druce (texto) e Pat Ludlow (ilustração)

Defendo intransigentemente que os bons livros – aqueles que nos convidam a experimentar a linguagem para além da história que contam – são mais potentes em seus convites, têm mais chances de promover encontros duradouros com esse monumento que chamamos de cultura escrita e tudo o que ela nos oferece, mas sei que há muito mais coisas entre um leitor e um livro do que sonha toda nossa vã filosofia.

Ainda tenho em minha coleção o primeiro dos três exemplares que comprei de Bruxa, bruxa, venha à minha festa, de Arden Druce e Pat Ludlow (Brinque-Book) para o Tomás. Depois de muitas leituras, ele está, claro, sujo e em frangalhos, mas guarda em cada página, em cada ilustração o encanto do meu filho por uma história cumulativa e musical em que Bruxa, Fantasma, Duende, Árvore, Gnomo, Cobra, Pirata, Crianças e outras personagens fazem e respondem a um convite para uma festa.

 

O que eu e meu filho pequeno construímos em torno dos livros nos ajuda a seguir juntos

 

O outro é Macaquinho, de Ronaldo Simões Coelho e Eva Furnari (FTD), que conta uma história bastante conhecida por crianças pequenas e adultos: a vontade muito grande e as artimanhas das crianças pequenas para dormir na cama dos pais.

Esses dois ótimos livros (e muitos outros) nos propiciaram, a mim e ao meu filho, o que a Yolanda Reyes chama de triângulo amoroso: um livro, uma criança e uma adulta lendo juntos. Ao longo do tempo, venho compreendendo que, mesmo em meio a muitos conflitos, o que eu e meu filho pequeno construímos em torno dos livros nos ajuda a seguir juntos, mesmo que em caminhos diferentes.

Fabíola Farias é graduada em Letras, mestre e doutora em Ciência da Informação pela UFMG. É leitora-votante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e, atualmente, realiza estágio de pós-doutorado na Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa. 


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